Muçulmanos celebram hoje o "Id al Fitr", o fim do Ramadão
O "Id al Fitr", a festa que assinala o fim do Ramadão, o mês de jejum e um dos pilares do culto islâmico, é assinalado hoje na Guiné-Bissau com feriado nacional e está, desde muito cedo, a ser celebrado pela comunidade muçulmana.
Marcada em função do calendário lunar, este ano, a data da oração que põe termo aos 29 dias de "abstinência e sacrifício" não provocou as habituais divergências quanto ao aparecimento na véspera Lua Nova.
Assim, quinta-feira, ficou assente que o final do "Djuldé Sumai" - como a celebração é designada pelos fulas, uma das etnias maioritária no país - seria hoje.
Antes disso, de terça para quarta-feira, cumpriu-se a "Noite do Destino" (Leilatu Khadr), assim chamada porque se fazem orações e cânticos até ao amanhecer, o que vale mais do que todo o mês de jejum.
No fim do Ramadão, a "sunna", a tradição islâmica, recomenda que cada crente "vista uma boa roupa, coma boa comida em família e troque visitas", como explicou à Agência Lusa Iaia Rachid Djaló, funcionário da embaixada da Líbia em Bissau e filho de Tcherno Rachid, um ancião já falecido, natural de Quebo (antiga Aldeia Formosa), no sul da Guiné-Bissau, e bastante respeitado pelas autoridades coloniais.
A demissão do Governo, há oito dias, adiou o pagamento dos salários de Setembro e de Outubro, previsto inicialmente para segunda- feira última e que começou hoje a ser pago aos poucos que estão a comparecer no Ministério das Finanças guineense.
Este contratempo está a afectar os planos de consumo dos muçulmanos guineenses, mas não impedirá que o "Suncaró Saló", ou a reza do mês do jejum, como dizem os mandingas - outra etnia da Guiné- Bissau -, seja comemorado em ambiente de festa.
Na capital, o início do jejum muçulmano é facilmente perceptível. Logo às 05:00 (mesma hora em Lisboa) ouvem-se os apelos para a primeira oração, lançados do cimo dos minaretes e que os amplificadores aumentam o raio de propagação.
Nesses chamamentos, segundo Nfali Coté, que oficia na mesquita de Gã-Beafada - a única na zona residencial da cidade - afirma-se, invariavelmente: "Deus é grande, Deus é grande. O profeta é o nosso mensageiro. Levantem-se, Levantem-se".
A mesquita ("djuma") de Gã-Beafada, uma das primeiras construídas em Bissau, existe desde a época colonial.
Nfali Coté indicou que, nessa altura, a cidade só tinha três mesquitas e que, no início, era apenas uma minúscula casa ("msiró") que foi posteriormente ampliada.
Também conhecida por mesquita de Gã-Cote - a moradia da família Cote, situada mesmo em frente - o local de culto fica no cruzamento de duas ruas.
Numa cidade onde se faz pouco uso da toponímia, como é o caso da capital guineense, para um estrangeiro encontrar o local não é tarefa fácil.
Esburacadas e mal iluminadas, como a maior parte das artérias da cidade, a zona é evitada pelos automobilistas, e da nada lhes vale o facto de uma das ruas, a Aerolino Cruz, ostentar o nome dum herói nacional, um ex-aluno do colégio Nuno Álvares, de Tomar (centro de Portugal), que morreu num bombardeamento durante a luta pela independência do país.
Uma referência importante é o complexo de liceus que aí se encontra, e que lhe dá muita animação na época escolar. Contudo, o que mais distingue a rua Aerolino Cruz e faz do quarteirão uma zona especial é mesmo a pequena mesquita, com capacidade para 300 fiéis.
às sextas-feiras, a mesquita não consegue acolher os mais de mil fiéis que se espalham nos recintos exteriores e ocupam toda a estrada e passeios.
Nessas ocasiões, os veículos não têm acesso ao local e os não muçulmanos ali residentes têm de abrir passagem com cautela, para não causar problemas.
Em Outubro último, um funcionário da Universidade Amílcar Cabral, animista, quase chegou a vias de facto com alguns fiéis muçulmanos, que estenderam as esteiras para rezar no pomar diante da sua casa, onde tinha plantado "mancarra" (amendoim), que ficou irremediavelmente destruído.
Os ânimos só serenaram quando um dos crentes pediu desculpa e indicou que, como a casa não tinha portão, entraram e rezaram no pátio cultivado, porque para o muçulmano qualquer lugar serve, desde que esteja limpo.