Nanopartículas de plástico passam para os fetos através da placenta, indica estudo

Nanopartículas de plástico passam para os fetos através da placenta, indica estudo

As partículas de plástico existentes no organismo materno podem passar para os bebés. As conclusões são de um estudo norte-americano que, ao introduzir nanopartículas no sistema respiratório de ratos fêmeas grávidas, descobriu que a placenta não impede a transferência destes microplásticos para os órgãos dos fetos.

Inês Moreira Santos - RTP /
RTP/DR

"O plástico está em toda parte. É usado em embalagens de alimentos, recipientes de armazenamento, eletrodomésticos, móveis, roupas e objetos descartáveis de utilização única", começam por recordar os cientistas.

O estudo da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, é o primeiro a ser realizado num mamífero vivo e revela que a placenta não bloqueia a passagem de partículas como microplásticos. Os cientistas descobriram que as minúsculas partículas de plástico inicialmente introduzidas nos pulmões dos ratos fêmea passaram rapidamente para o coração, para o cérebro e para outros órgãos dos fetos.

"Quando inaladas, as nanoparticulas provaram conseguir translocar-se através das barreiras celulares pulmonares para órgãos secundários, incluindo a placenta", lê-se no estudo publicado na revista Particle and Fiber Toxicology.

"No entanto, o potencial de translocação materno-fetal de nanopartículas de plástico e o impacto da deposição ou acumulação nanoplástica na saúde fetal permanecem desconhecidos", acrescenta.

De acordo com os dados desta experiência, os fetos dos ratos expostos às partículas ganharam muito menos peso no final da gestação, comprativamente aos fetos dos ratos não expostos.

Esta investigação vem no seguimento da divulgação, em dezembro, de um outro estudo que identificou pequenas partículas de plástico em placentas humanas. Desde essa altura, os cientistas têm encarado esta questão com "grande preocupação".

Já estudos anteriores com placentas humanas tinham revelado que pequenas particulas de poliestireno podem atravessar a barreira placentária.
Microplásticos podem representar riscos para os humanos

As partículas microplásticas e nanoplásticas são formadas a partir da fragmentação e da desintegração dos resíduos de plástico que contribuem para a poluição.

Os cientistas explicam no documento que "foram recentemente detetadas no ar e na precipitação atmosférica" nanopartículas de plástico e que, "devido ao seu pequeno tamanho", estas partículas "na atmosfera podem ser inaladas e podem representar um risco para a saúde humana, principalmente em populações suscetíveis".

O problema é que a poluição microplástica já atingiu todas as partes do planeta, incluindo as zonas mais profundas dos oceanos. Para agravar, as pessoas consomem, sem se aperceberem, estas partículas minúsculas através dos alimentos e da água, e inalam-nas através do ar que respiram.

Por exemplo, numa outra investigação divulgada em outubro do ano passado, e citada pelo Guardian, concluiu-se que os bebés alimentados com leite em pó em biberões engolem milhões de partículas de plástico por dia.

Ainda não se sabe qual o impacto da acumulação destas minúsculas partículas de plástico no corpo humano. Mas os cientistas consideram que é urgente estudar esta questão, especialmente no que toca ao desenvolvimento de fetos e bebés, uma vez que os plásticos contêm produtos químicos que podem causar danos a longo prazo.

A professora Phoebe Stapleton que liderou esta investigação da Rutgers University, disse ao jornal britânico que foram encontradas nanopartículas de plástico em todas as amostras analisadas - "nos tecidos maternos, na placenta e nos tecidos fetais, e também no coração, cérebro, pulmões, fígado e rim dos fetos".

"Este estudo pode ser muito relevante visto que prova a possibilidade de transferência [de partículas de plástico] na gravidez de mamíferos. Foram encontradas partículas em quase todos os órgãos do feto - é muito chocante", afirmou também Dunzhu Li, do Trinity College Dublin (TCD) na Irlanda.

O professor John Boland, também do TCD, sublinhou, no entanto, que "é importante não sobrevalorizar estes resultados, uma vez que as nanopartículas usadas têm uma forma quase esférica, enquanto os microplásticos reais são objetos irregulares semelhantes a flocos. A forma é importante, pois dita como as partículas interagem com o ambiente".
Qual o risco para os fetos?
Esta investigação consistiu na introdução de nanopartículas na traqueia dos animais. Segundo Stapleton, o número de partículas usadas foi aproximadamente 60 por cento do número ao qual uma mãe humana é exposta diariamente. Vinte e quatro horas após a exposição, o peso dos fetos foi em média sete por cento mais baixo do que nos animais do grupo de controlo, e o peso da placenta era também oito por cento abaixo do normal.

Os ratos foram expostos às nanopartículas no 19º dia de gestação, dois dias antes da data prevista do nascimento e quando o feto devia estar a ganhar mais peso.

"A nossa teoria é que algo na vasculatura materna muda, há uma redução no fluxo sanguíneo, que por sua vez leva a uma redução no fornecimento de nutrientes e oxigénio", explicou a investigadora.

O estudo concluiu, portanto, que "a exposição pulmonar materna ao nanoplástico resulta da translocação de partículas de plástico para os tecidos placentários e fetais e torna a unidade fetoplacentária vulnerável a efeitos adversos". Esses dados são vitais, acrescenta ainda o documento, para a "compreensão da toxicologia das partículas de plástico e os impactos na saúde".

Stapleton considera que agora é necessário fazer mais investigações sobre este assunto.

"Este estudo responde a algumas questões e abre outras. Agora sabemos que as partículas são capazes de atravessar para o compartimento fetal, mas não sabemos se ficam alojadas ou se o corpo as bloqueia, não havendo toxicidade adicional".

Stapleton esclareceu ainda que as nanopartículas usadas nesta investigação são um milhão de vezes mais pequenas do que os microplásticos encontrados nas placentas humanas e, por isso, atualmente, muito mais difíceis de identificar em estudos humanos.

"Mas sabemos que as nanopartículas têm maior toxicidade do que as micropartículas do mesmo produto químico, visto que as partículas mais pequenas penetram mais profundamente nos pulmões".

O próximo passo dos investigadores é colocar os ratos numa "câmara de inalação", onde as partículas podem ser respiradas, em vez de serem introduzidas na traqueia. Isto também pode permitir a avaliação da exposição crónica, na qual doses mais reduzidas serão administradas por períodos mais longos, em vez de uma grande dose de uma só vez.
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