"Não sejas parvo", escreve Trump numa carta a Erdogan

por RTP
"Não sejas teimoso. Não sejas parvo!", apelou Trump Reuters

Esta quinta-feira foi divulgada uma carta que Donald Trump endereçou ao seu homólogo turco, Recep Erdogan, no dia em que a Turquia avançou com a ofensiva militar a nordeste da Síria. A divulgação da carta surge depois de a Câmara dos Representantes dos EUA ter condenado a decisão de Trump de retirar as tropas norte-americanas que se encontravam no nordeste da Síria após a ameaça de uma intervenção militar turca.

“Vamos trabalhar num bom acordo. Tu não queres ser responsável pelo massacre de milhares de pessoas e eu não quero ser responsável pela destruição da economia da Turquia – que eu irei fazer”, começa por dizer o presidente dos Estados Unidos na carta endereçada a Erdogan.


Trump, de facto, não falhou com a sua promessa. Na passada segunda-feira, o presidente norte-americano avançou com uma ordem executiva a enquadrar sanções contra responsáveis políticos de Ancara e travou as negociações comerciais com a Turquia.

Este aviso de Washington surgiu depois de Erdogan ter insistido na intenção de criar uma “zona segura” a norte da Síria, ignorando os vários apelos internacionais, nomeadamente o de Trump.

O presidente dos EUA instou Erdogan para que termine com a ofensiva militar “da maneira mais correta e humana”, escrevendo na carta que irá, para sempre, olhar para o presidente turco como o “diabo” caso não decida cessar fogo.

“Não sejas teimoso. Não sejas parvo!”, apelou Trump.

Segundo avança a BBC, a carta de Donald Trump foi “devidamente rejeitada” por Recep Erdogan e colocada “no lixo”.
“Não é um problema nosso”
A divulgação da carta surgiu depois de, num raro acordo bipartidário, a Câmara dos Representantes dos EUA ter condenado – com 354 votos a favor e 60 contra – a decisão de Donald Trump de retirar as tropas norte-americanas que se encontravam no nordeste da Síria após a ameaça de uma intervenção militar turca.

Democratas e republicanos uniram forças para condenar a decisão do presidente norte-americano, que consideram utilizar a política externa “como uma ferramenta para promover os seus próprios interesses”.

Por seu lado, Donald Trump defendeu a sua tomada de decisão de retirada das tropas, contradizendo as críticas que apontam que provocou instabilidade na região e pode ter sido uma alavanca para o ressurgimento do Estado Islâmico.

“Se a Turquia entra na Síria, é entre a Turquia e a Síria. Não é um problema nosso”, afirmou Trump numa conferência de imprensa na Casa Branca.

Na ótica do presidente norte-americano, os curdos – considerados aliados dos EUA na luta contra o Daesh – “não são uns santos” e “estão muito bem protegidos”.

Depois da votação, Trump reuniu-se com os líderes parlamentares dos dois partidos na Casa Branca. A reunião ficou marcada por uma intensa troca de palavras entre o presidente dos EUA e a líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

Donald Trump começou por apelidar Pelosi de uma “política de terceira classe”, ao qual a presidente da Câmara respondeu que o presidente estava “perturbado”.

“Eu rezo pelo presidente o tempo todo…Acho que agora também temos que rezar pela sua saúde. Isto foi um colapso muito sério da parte do presidente”, disse Pelosi.

Já na sua conta do Twitter, Donald Trump acusou igualmente Pelosi de ser uma “pessoa muito doente” e de ter tido um “total colapso” na Casa Branca. “Foi muito triste de se ver. Rezem por ela”, acrescentou Trump.

Ainda na quarta-feira, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, e o chefe da diplomacia norte-americana, Mike Pompeo, viajaram para a Turquia numa tentativa de travar a ofensiva militar.
“Isto é uma loucura”
A autenticidade da carta de Trump a Erdogan foi confirmada pela Casa Branca, mas muitos parecem não querer acreditar na sua legitimidade, considerando ser uma “piada”, uma “loucura” e uma “vergonha”.

“Eu pensei mesmo que fosse uma brincadeira, uma piada, que não poderia vir da casa Branca”,
declarou o congressista democrata, Mike Quigley, à CNN. “Parece que o presidente dos EUA, numa espécie de lapso momentâneo, apenas ditou raivosamente o que lhe vinha à cabeça”, acrescentou.

Quigley considera “uma ignorância ao mais alto nível” o facto de Trump escrever aquela carta ao mesmo tempo que considera que a guerra da Turquia com a Síria “não é um problema nosso”.

“Isto é uma loucura”, descreveu o congressista republicano Justin Amash no Twitter.

Foi preciso pouco tempo para que a carta fosse alvo de paródia. “Eu gosto de ti. Tu gostas de mim. Vamos fazer um acordo. Se assim for, eu irei enviar-te três chapéus mágicos e um “Big Mac”. Não me faças enlouquecer. Não me desiludas. Gostas de mim?”, lê-se numa das cartas recriadas.


Há quem tenha ainda feito um vídeo a representar a leitura da carta, ou colocado o texto de Donald Trump com a música do filme “Star Wars” como fundo.


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