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Naufrágio no Índico. Centenas de migrantes rohingya e bengaleses desaparecidos
Cerca de 250 rohingyas e bengaleses, incluindo crianças, estão desaparecidos após o naufrágio do barco onde seguiam no Mar de Andaman, segundo as agências da ONU para refugiados e migrantes.
A embarcação de pesca, que partiu de Teknaf, no sul do Bangladesh, com destino à Malásia, afundou na segunda semana de abril no meio de mar agitado, ventos fortes e sobrelotação severa, informaram as agências da ONU para refugiados e migrantes.
Não é claro quando em que dia que o barco naufragou, mas, no dia 9 de abril, uma embarcação com bandeira do Bangladesh resgatou nove pessoas que estavam a "agarrar-se a tambores e destroços de madeira" para se manterem à tona, revelou a guarda costeira.Os sobreviventes relataram que quase 300 pessoas estavam a bordo, incluindo mulheres, crianças, tripulantes e suspeitos de tráfico humano. Das nove pessoas resgatadas, quatro eram tripulantes do barco de pesca.
Citando os resgatados após o incidente da semana passada, um membro da Guarda Costeira, que pediu para não ser identificado, disse à BBC que tinham deixado o Bangladesh rumo à Malásia a 4 de abril "na esperança de uma vida melhor".
"Estiveram à deriva no mar durante quase dois dias, agarrados a bidons e pedaços de madeira", acrescentou.
Enquanto o navio-tanque Meghna Pride, de bandeira do Bangladesh, navegava do em direção à Indonésia, a tripulação encontrou os sobreviventes por volta das 2h da manhã do dia 11 de abril e trouxe-os a bordo. Mais tarde, descobriu-se que pertenciam às comunidades bengalesa e rohingya de Cox's Bazar.
O navio entrou em águas territoriais do Bangladesh e entregou-os à embarcação da Guarda Costeira "Mansur Ali".
"Mas o número exato é ainda desconhecido", acrescentou o responsável, "e não há vestígios dos outros nem do barco".
Rafiqul Islam, um dos sobreviventes, disse à AFP que andou à deriva durante quase 36 horas antes de ser resgatado, acrescentando que sofreu queimaduras com o petróleo que vazou da embarcação. O homem de 40 anos disse que a promessa de um emprego na Malásia foi o que o convenceu a embarcar.
A violência contínua em Rakhine, o seu Estado natal em Myanmar, "diminuiu as esperanças de um regresso seguro num futuro próximo", disseram as agências, referindo que a redução da assistência humanitária e as difíceis condições de vida nos campos de refugiados os levaram a "fazer estas perigosas viagens marítimas em busca de segurança e oportunidades".
Estas embarcações são normalmente pequenas e apertadas, carecendo de instalações básicas como água potável e saneamento. Nem sempre chegam aos seus destinos. Alguns morrem no mar, enquanto outros são detidos ou deportados.
“Quase não havia oxigénio”
Rafiqul Islam, um dos sobreviventes, disse que os passageiros suportaram quatro dias e noites no Mar de Andaman, enquanto as condições se deterioravam rapidamente. Numa tentativa de evitar as patrulhas, os traficantes obrigaram os passageiros a entrar em compartimentos apertados destinados a armazenar peixe e redes.
"Quase não havia oxigénio", disse à Reuters, acrescentando que pelo menos 30 pessoas morreram asfixiadas antes de o barco virar. "Não conseguíamos respirar".
Quando o barco virou, centenas de pessoas foram lançadas ao mar. Islam estimou que cerca de 240 pessoas ainda estavam a bordo naquele momento, incluindo cerca de 20 mulheres e várias crianças. Apenas um pequeno grupo sobreviveu.
Islam estava entre um pequeno grupo que inicialmente conseguiu escapar com vida. Um navio petroleiro do Bangladesh que passava no local resgatou quatro sobreviventes, que alertaram então a tripulação para outros que ainda estavam na água. “Mais tarde, encontraram mais cinco pessoas”, disse.
O sobrevivente descreveu a viagem como perigosa e em várias etapas que começou a 4 de abril, quando os passageiros partiram primeiro num pequeno barco de pesca antes de serem transferidos para um arrastão maior perto das águas de Myanmar. A dado momento, foram obrigados a esconder-se em arbustos para evitar serem detetados pelas patrulhasAbordar as causas profundas
O Bangladesh acolhe cerca de 1,2 milhões de refugiados rohingya em campos no sul do país, a maioria dos quais fugiu da violência em Myanmar em 2017.
As precárias condições de vida no Bangladesh, no entanto, também levaram alguns rohingya a fazer viagens arriscadas em embarcações sobrelotadas em direção à Malásia, um país muçulmano que alguns consideram um refúgio seguro na região.
Alguns foram também impedidos de entrar quando se aproximaram da Malásia e da Indonésia, quer pelas autoridades, quer pelas comunidades costeiras locais. Em janeiro de 2025, a Malásia recusou a entrada de duas embarcações com cerca de 300 refugiados, depois de fornecer comida e água aos passageiros.
"Este trágico incidente reflete as terríveis consequências da deslocação prolongada e a ausência de soluções duradouras para os rohingya", afirmou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) num comunicado conjunto com a Organização Internacional para as Migrações.
Num comunicado divulgado na terça-feira, as agências da ONU apelaram à comunidade internacional para que mantenha o financiamento aos refugiados rohingya e às comunidades que os acolhem no Bangladesh.
“Enquanto o Bangladesh celebra o seu novo ano, esta tragédia serve de lembrete dos esforços urgentemente necessários para abordar as causas profundas do deslocamento em Myanmar e criar condições que permitam aos refugiados rohingya regressar a casa de forma voluntária, segura e digna”, acrescenta o comunicado.
Com as rações alimentares reduzidas a apenas sete dólares por pessoa por mês, muitas famílias estão a recorrer a medidas extremas de sobrevivência. Quase 69 por cento dos lares de refugiados referem que as crianças abandonaram a escola, enquanto metade afirma que os seus filhos foram forçados a trabalhar.
O Comité Internacional de Resgate instou os doadores e as autoridades a mudarem o foco da ajuda de emergência para soluções a longo prazo, alertando que, sem apoio contínuo, tanto os refugiados como as comunidades de acolhimento enfrentarão uma pobreza e vulnerabilidade crescentes.Centenas de milhares de rohingya fugiram em 2017
Em 2017, centenas de milhares de rohingya, uma minoria maioritariamente muçulmana, fugiram de uma repressão sangrenta por parte do exército birmanês e das milícias budistas, encontrando refúgio no vizinho Bangladesh.
Myanmar tem afirmado consistentemente que a repressão por parte das forças armadas foi justificada para suprimir uma insurgência rohingya.
O Mar de Andaman está localizado no nordeste do Oceano Índico. Estende-se desde as ilhas Andaman e Nicobar (Índia) a oeste, desde as costas de Myanmar a norte e a leste, e desde as costas ocidentais da Tailândia e da Península Malaia.
No ano passado, o ACNUR anunciou que 427 rohingya estavam desaparecidos e presumivelmente mortos no mar, em dois naufrágios ocorridos a 9 e 10 de maio de 2025, ao largo da costa de Myanmar.
Não é claro quando em que dia que o barco naufragou, mas, no dia 9 de abril, uma embarcação com bandeira do Bangladesh resgatou nove pessoas que estavam a "agarrar-se a tambores e destroços de madeira" para se manterem à tona, revelou a guarda costeira.Os sobreviventes relataram que quase 300 pessoas estavam a bordo, incluindo mulheres, crianças, tripulantes e suspeitos de tráfico humano. Das nove pessoas resgatadas, quatro eram tripulantes do barco de pesca.
Citando os resgatados após o incidente da semana passada, um membro da Guarda Costeira, que pediu para não ser identificado, disse à BBC que tinham deixado o Bangladesh rumo à Malásia a 4 de abril "na esperança de uma vida melhor".
"Estiveram à deriva no mar durante quase dois dias, agarrados a bidons e pedaços de madeira", acrescentou.
Enquanto o navio-tanque Meghna Pride, de bandeira do Bangladesh, navegava do em direção à Indonésia, a tripulação encontrou os sobreviventes por volta das 2h da manhã do dia 11 de abril e trouxe-os a bordo. Mais tarde, descobriu-se que pertenciam às comunidades bengalesa e rohingya de Cox's Bazar.
O navio entrou em águas territoriais do Bangladesh e entregou-os à embarcação da Guarda Costeira "Mansur Ali".
"Mas o número exato é ainda desconhecido", acrescentou o responsável, "e não há vestígios dos outros nem do barco".
Rafiqul Islam, um dos sobreviventes, disse à AFP que andou à deriva durante quase 36 horas antes de ser resgatado, acrescentando que sofreu queimaduras com o petróleo que vazou da embarcação. O homem de 40 anos disse que a promessa de um emprego na Malásia foi o que o convenceu a embarcar.
A violência contínua em Rakhine, o seu Estado natal em Myanmar, "diminuiu as esperanças de um regresso seguro num futuro próximo", disseram as agências, referindo que a redução da assistência humanitária e as difíceis condições de vida nos campos de refugiados os levaram a "fazer estas perigosas viagens marítimas em busca de segurança e oportunidades".
Estas embarcações são normalmente pequenas e apertadas, carecendo de instalações básicas como água potável e saneamento. Nem sempre chegam aos seus destinos. Alguns morrem no mar, enquanto outros são detidos ou deportados.
“Quase não havia oxigénio”
Rafiqul Islam, um dos sobreviventes, disse que os passageiros suportaram quatro dias e noites no Mar de Andaman, enquanto as condições se deterioravam rapidamente. Numa tentativa de evitar as patrulhas, os traficantes obrigaram os passageiros a entrar em compartimentos apertados destinados a armazenar peixe e redes.
"Quase não havia oxigénio", disse à Reuters, acrescentando que pelo menos 30 pessoas morreram asfixiadas antes de o barco virar. "Não conseguíamos respirar".
Quando o barco virou, centenas de pessoas foram lançadas ao mar. Islam estimou que cerca de 240 pessoas ainda estavam a bordo naquele momento, incluindo cerca de 20 mulheres e várias crianças. Apenas um pequeno grupo sobreviveu.
Islam estava entre um pequeno grupo que inicialmente conseguiu escapar com vida. Um navio petroleiro do Bangladesh que passava no local resgatou quatro sobreviventes, que alertaram então a tripulação para outros que ainda estavam na água. “Mais tarde, encontraram mais cinco pessoas”, disse.
O sobrevivente descreveu a viagem como perigosa e em várias etapas que começou a 4 de abril, quando os passageiros partiram primeiro num pequeno barco de pesca antes de serem transferidos para um arrastão maior perto das águas de Myanmar. A dado momento, foram obrigados a esconder-se em arbustos para evitar serem detetados pelas patrulhasAbordar as causas profundas
O Bangladesh acolhe cerca de 1,2 milhões de refugiados rohingya em campos no sul do país, a maioria dos quais fugiu da violência em Myanmar em 2017.
As precárias condições de vida no Bangladesh, no entanto, também levaram alguns rohingya a fazer viagens arriscadas em embarcações sobrelotadas em direção à Malásia, um país muçulmano que alguns consideram um refúgio seguro na região.
Alguns foram também impedidos de entrar quando se aproximaram da Malásia e da Indonésia, quer pelas autoridades, quer pelas comunidades costeiras locais. Em janeiro de 2025, a Malásia recusou a entrada de duas embarcações com cerca de 300 refugiados, depois de fornecer comida e água aos passageiros.
"Este trágico incidente reflete as terríveis consequências da deslocação prolongada e a ausência de soluções duradouras para os rohingya", afirmou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) num comunicado conjunto com a Organização Internacional para as Migrações.
Num comunicado divulgado na terça-feira, as agências da ONU apelaram à comunidade internacional para que mantenha o financiamento aos refugiados rohingya e às comunidades que os acolhem no Bangladesh.
“Enquanto o Bangladesh celebra o seu novo ano, esta tragédia serve de lembrete dos esforços urgentemente necessários para abordar as causas profundas do deslocamento em Myanmar e criar condições que permitam aos refugiados rohingya regressar a casa de forma voluntária, segura e digna”, acrescenta o comunicado.
As agências de ajuda humanitária alertam que a situação está a agravar-se à medida que o apoio humanitário diminui.
Um relatório recente do Comité Internacional de Resgate (IRC), baseado num inquérito a 500 famílias em Cox’s Bazar, concluiu que apenas 2% dos pais rohingya se sentem esperançosos em relação ao futuro dos seus filhos, em comparação com 84 por cento entre as comunidades de acolhimento.
Com as rações alimentares reduzidas a apenas sete dólares por pessoa por mês, muitas famílias estão a recorrer a medidas extremas de sobrevivência. Quase 69 por cento dos lares de refugiados referem que as crianças abandonaram a escola, enquanto metade afirma que os seus filhos foram forçados a trabalhar.
O Comité Internacional de Resgate instou os doadores e as autoridades a mudarem o foco da ajuda de emergência para soluções a longo prazo, alertando que, sem apoio contínuo, tanto os refugiados como as comunidades de acolhimento enfrentarão uma pobreza e vulnerabilidade crescentes.Centenas de milhares de rohingya fugiram em 2017
Em 2017, centenas de milhares de rohingya, uma minoria maioritariamente muçulmana, fugiram de uma repressão sangrenta por parte do exército birmanês e das milícias budistas, encontrando refúgio no vizinho Bangladesh.
Myanmar tem afirmado consistentemente que a repressão por parte das forças armadas foi justificada para suprimir uma insurgência rohingya.
O Mar de Andaman está localizado no nordeste do Oceano Índico. Estende-se desde as ilhas Andaman e Nicobar (Índia) a oeste, desde as costas de Myanmar a norte e a leste, e desde as costas ocidentais da Tailândia e da Península Malaia.
No ano passado, o ACNUR anunciou que 427 rohingya estavam desaparecidos e presumivelmente mortos no mar, em dois naufrágios ocorridos a 9 e 10 de maio de 2025, ao largo da costa de Myanmar.
Mais de 650 rohingya morreram nas águas da região até 2024, segundo a agência da ONU.
c/ agências