Nobel da Paz Dmitry Muratov crê que "jornalismo profissional salvará o mundo" do fascismo
O jornalista russo Dmitry Muratov, prémio Nobel da Paz 2021, declarou-se hoje "convencido de que o jornalismo profissional salvará o mundo, como um antídoto contra a ditadura e a ascensão do fascismo".
Na cerimónia para celebrar o centenário da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), em Paris, Muratov disse aos jornalistas, numa mensagem vídeo pré-gravada: "Vocês são mais necessários que nunca, [porque] o mundo se encontra numa situação em que a verdade já não importa".
"A verdade é cara. Para a obter, por vezes é preciso arriscar a própria vida, ao passo que as mentiras são baratas: o seu poder de disseminação `online` e a sua viralidade são mil vezes maiores do que a verdade", lamentou.
Como exemplo, Muratov apontou as campanhas de desinformação promovidas pelos "atuais ditadores" que "exigem que as mentiras não sejam refutadas" e sustentam que "a verificação dos factos é uma violação do direito à liberdade de expressão".
"A verificação de factos deve ser restabelecida e os profissionais devem regressar ao seu devido lugar para impedir que a Inteligência Artificial (IA) incorra em mentiras", acrescentou, referindo-se à produção de conteúdos falsos.
Em novembro passado, Muratov alertou no fórum Vigo Global Summit que "a propaganda passou de ser vertical para horizontal" com a ajuda de muitas pessoas que espalham notícias falsas e ideologias de ódio, uma situação agravada pela IA.
"Muitas pessoas hoje perguntam: `Para que serve o jornalismo profissional? Quem precisa dele?`. Respondo sempre com uma pergunta: `Preferia que um `blogger` o operasse no hospital em vez de um cirurgião?`", disse.
A intervenção do jornalista russo terminou com um plano em que mostrou o cartão de membro da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), a maior organização mundial que representa os jornalistas --- composta por 600 mil profissionais em mais de 140 países --- com a mensagem: "Este cartão abre todas as portas".
Dmitry Muratov (Samara, 1961) é cofundador do jornal russo Novaya Gazeta (Nova Gazeta), crítico do Governo e viu seis dos seus jornalistas serem assassinados desde a fundação, em 1993, entre os quais a conceituada Anna Politkovskaya (1958-2006).
Foi distinguido com o prémio Nobel da Paz em 2021, juntamente com a jornalista filipina Maria Ressa (Manila, 1963), "pelos seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão, que é um pré-requisito para a democracia e a paz duradoura".
Muratov é o terceiro cidadão russo a receber o Nobel da Paz, depois do físico nuclear Andrei Sakharov (1921-1989), em 1975, e do ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov (1931-2022), em 1990.