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O mundo da manosfera. O que leva os adolescentes a caírem nesta "armadilha"?
Manosfera, incels, red pill e blue pill são conceitos que entraram recentemente para o nosso vocabulário, com cada vez mais adolescentes a imergirem neste mundo. Mas o que leva os jovens a caírem nesta "armadilha"?
A manosfera é um conjunto de comunidades online, em geral masculinas, que promovem a masculinidade tóxica, misoginia e antifeminismo. Por sua vez, dentro deste universo existe um subgrupo de homens que se autointitulam como “celibatários involuntários” (“incels”), que se percecionam como incapazes de estabelecer relações afetivas ou sexuais.
Mas o que leva os adolescentes de hoje em dia a entrarem neste universo e a idolatrarem este tipo de discursos?
O psicólogo Ricardo Barroso afirma, em entrevista à RTP Notícias, que para explicar este fenómeno é preciso recuar no tempo. “A questão da masculinidade sempre existiu, ou pelo menos desde que existem registos que nos permitem estudar o assunto”, assevera.
Na fase pré-industrial havia a chamada “masculinidade tradicional, em que o homem tinha um papel de provedor de autoridade. A sexualidade era normativa, patriarcal”.
“Havia aqui uma posição estrutural em termos de sexualidade. As coisas eram organizadas em torno da questão do casamento e da reprodução. Havia, obviamente, a assimetria de poder entre géneros”, explica.
Ao longo dos tempos foram surgindo transformações que levaram a uma “crise identitária”. No século XX, com a industrialização, é quando começa a surgir o que muitos investigadores descrevem como “crise da masculinidade”.
“O tal papel de provedor torna-se instável, a autoridade tradicional já começa a ser questionada. Começam a surgir novas expectativas e mudanças nos papéis de género com os movimentos feministas, em especial a entrada das mulheres no mercado de trabalho”, afirma Ricardo Barroso.
Tudo isto leva à chamada “insegurança identitária masculina”. “Estas inseguranças não são propriamente sinais de fragilidades individuais, mas são produto das transformações estruturais que que vão surgindo”, explica o psicólogo.
“Isto ajuda a perceber que a sexualidade passou de ser um elemento que era regulado externamente, pela sociedade, para um marcador interno de valor e de identidade. Isto cria em algumas pessoas, eventualmente os tais incels, um sofrimento legítimo, uma vulnerabilidade relacional. E isto explica porque é que certos discursos encontram um terreno fértil”, declara.
Maria João Faustino, psicóloga e investigadora, também associa o “questionamento dos papéis de género” ao crescimento deste tipo de discursos e conteúdos misóginos e de ódio.
“Se pensarmos, há 30 e 40 anos era sabido o que era esperado de um homem: o modelo do provedor, o modelo familiar”, afirma. “Havia uma segurança na fórmula da masculinidade. Essa segurança foi questionada a muitos níveis, nomeadamente pelos movimentos feministas. Mas também o modelo neoliberal fez com que hoje nada dessa segurança ou a moral do modelo de provedor também seja um dado adquirido”, acrescenta.
Tudo isto conduziu a um vazio que foi preenchido por estes discursos misóginos. “A manosfera não só vem preencher este vazio, mas também dar um sentido de legitimidade no sentido de pertença a muitos destes rapazes jovens que estão à procura do seu sentido de comunidade e de identidade”.
“Algoritmo do patriarcado”
“Com conteúdos potencialmente polarizadores, polémicos, aparentemente disruptivos, muitas vezes conteúdos odiosos, porque esse conteúdo usa esse tipo de discurso, gera reações, gera partilha, gera adesão”.
“Esses ‘influencidadores’ têm uma fórmula muito semelhante, de dominação masculina, mas com sucesso financeiro. E esse sucesso é mostrado de formas diferentes. Com grandes carros, viagens e todo um lifestyle muito conotado com sucesso”, explica Maria João Faustino.
Os adolescentes são o público-alvo destes “influencers”. “É neste nicho de mercado que eles apostam. Apostam em indivíduos que eles sabem que vão conseguir captar porque são mais vulneráveis, às vezes com menos pensamento crítico em relação a estas questões”, explica Ricardo Barroso, que também aponta a imaturidade como possível explicação para que muitos jovens caiam “na armadilha da narrativa destes influencers”.
“Temos de pensar que estamos a falar da adolescência. É um tempo por excelência em que estamos a descobrir a nossa identidade. O sentimento de pertença e a procura de pertença são muito fortes. Portanto, se existem determinados homens que se apresentam como influenciadores, que têm um discurso que legitima estas inseguranças e que mostram formas de sucesso, é muito fácil estes jovens caírem nesta rede”, explica Maria João.
Depois gera-se uma bola de neve, uma vez que o algoritmo vai oferecer a estes jovens conteúdos cada vez mais radicais e extremados – uma fórmula que Maria João Faustino chama de “algoritmo do patriarcado”.
“O que o algoritmo faz é exatamente isto, é mostrar conteúdos que acha que estamos interessados e favorecer conteúdos que sejam polarizadores e muitas vezes extremistas”, afirma.
Qual o impacto deste “caldo cultural digital”?
Mais do que as consequências que estes fenómenos têm nos adolescentes, a psicóloga e investigadora destaca os impactos sociais.
“O que estes discursos fazem é solidificar determinadas crenças e aumentar outras crenças sobre o desvalor das mulheres, o papel das mulheres e dos homens na sociedade, que está muito ligado ao crescimento do sexismo”, explica.
Isto gera “um risco enorme de congelamento destas crenças, reforço da misoginia. E isto, obviamente, traduz- se em comportamentos violentos”.
“Portanto, o aumento da violência sexista, da violência contra mulheres e raparigas, é produto e fruto também deste caldo cultural digital, onde os discursos misóginos e sexistas proliferam porque são vendíveis e apetecíveis”, diz.
“Seria muito estranho se este tipo de mensagens, que tratam as mulheres e as raparigas como seres secundários, não fosse incorporada e não tivesse expressão depois na forma como rapazes interagem com raparigas”, observa a investigadora.
Na experiência de Ricardo Barroso, “há mais adolescentes esclarecidos sobre a desadequação deste tipo de narrativas, do que miúdos problemáticos, ou que partilham muitos destes ideais”. No entanto, não tem dúvidas de que há o risco de crescimento deste tipo de conteúdos associados à manosfera.
“Há indivíduos que têm a intenção de radicalizar e influenciar outros. E isso, de facto, é um fator preocupante”, admitiu.
“Estamos muito impreparados”
A investigadora diz que o debate em Portugal sobre este tema só começou a ganhar alguma escala com a série “Adolescência” e, mais recentemente, com o documentário “Dentro da Manosfera”, do jornalista e documentarista britânico Louis Theroux. No entanto, o debate é ainda “incipiente”.
“Ainda bem que estes produtos mediáticos existem porque alavancam a discussão. O problema é que é uma discussão, muitas vezes, episódica, e inconsequente. E nós, de facto, ainda não estamos a dar atenção suficiente ao problema”, diz Maria João.
“Ainda não alavancou uma preocupação e uma ação real coletiva. E, de facto, nós estamos muito impreparados para lidar com isto nas escolas e fora das escolas”, observa, afirmando mesmo que Portugal está “em sentido contrário”.
“Nós vemos os ataques à educação para a cidadania, à educação para a sexualidade, e não combatemos a manosfera e os efeitos da manosfera sem educação para a sexualidade. E a educação para a sexualidade tem de ser começar muito cedo e ser adequada às diversas idades e aos diversos contextos culturais”, argumenta.
“Precisamos mesmo de falar sobre afetos, sobre o corpo, sobre autonomia corporal, sobre relações interpessoais, sobre os limites, os nossos e os dos outros. Essa tem de ser uma discussão que tem de começar muito cedo e tem de acompanhar todo o percurso escolar, ser adequado às várias idades, com linguagens próprias”, defende a investigadora.
“Sem políticas públicas nós vamos estar a correr atrás do prejuízo”, conclui.
Mas o que leva os adolescentes de hoje em dia a entrarem neste universo e a idolatrarem este tipo de discursos?
O psicólogo Ricardo Barroso afirma, em entrevista à RTP Notícias, que para explicar este fenómeno é preciso recuar no tempo. “A questão da masculinidade sempre existiu, ou pelo menos desde que existem registos que nos permitem estudar o assunto”, assevera.
Na fase pré-industrial havia a chamada “masculinidade tradicional, em que o homem tinha um papel de provedor de autoridade. A sexualidade era normativa, patriarcal”.
“Havia aqui uma posição estrutural em termos de sexualidade. As coisas eram organizadas em torno da questão do casamento e da reprodução. Havia, obviamente, a assimetria de poder entre géneros”, explica.
Ao longo dos tempos foram surgindo transformações que levaram a uma “crise identitária”. No século XX, com a industrialização, é quando começa a surgir o que muitos investigadores descrevem como “crise da masculinidade”.
“O tal papel de provedor torna-se instável, a autoridade tradicional já começa a ser questionada. Começam a surgir novas expectativas e mudanças nos papéis de género com os movimentos feministas, em especial a entrada das mulheres no mercado de trabalho”, afirma Ricardo Barroso.
Tudo isto leva à chamada “insegurança identitária masculina”. “Estas inseguranças não são propriamente sinais de fragilidades individuais, mas são produto das transformações estruturais que que vão surgindo”, explica o psicólogo.
“Isto ajuda a perceber que a sexualidade passou de ser um elemento que era regulado externamente, pela sociedade, para um marcador interno de valor e de identidade. Isto cria em algumas pessoas, eventualmente os tais incels, um sofrimento legítimo, uma vulnerabilidade relacional. E isto explica porque é que certos discursos encontram um terreno fértil”, declara.
Maria João Faustino, psicóloga e investigadora, também associa o “questionamento dos papéis de género” ao crescimento deste tipo de discursos e conteúdos misóginos e de ódio.
“Se pensarmos, há 30 e 40 anos era sabido o que era esperado de um homem: o modelo do provedor, o modelo familiar”, afirma. “Havia uma segurança na fórmula da masculinidade. Essa segurança foi questionada a muitos níveis, nomeadamente pelos movimentos feministas. Mas também o modelo neoliberal fez com que hoje nada dessa segurança ou a moral do modelo de provedor também seja um dado adquirido”, acrescenta.
Tudo isto conduziu a um vazio que foi preenchido por estes discursos misóginos. “A manosfera não só vem preencher este vazio, mas também dar um sentido de legitimidade no sentido de pertença a muitos destes rapazes jovens que estão à procura do seu sentido de comunidade e de identidade”.
“Algoritmo do patriarcado”
É neste panorama que entra o papel das redes sociais. “Se quisermos fazer uma radiografia da manosfera, este é o primeiro ponto a ter assente. É que existe uma infraestrutura, um ecossistema digital, que potencia e facilita que o discurso de ódio seja vendável, atrativo e gere lucro”, diz Maria João Faustino. Andrew Tate e Harrison Sullivan (conhecido online como HSTikkyTokky e um dos protagonistas do documentário “Louis Theroux: Inside the Manosphere”) são os principais “influenciadores” da manosfera.
Vendem uma mistura de autoajuda masculina e lifestyle sob a promessa de dinheiro e sucesso, ao mesmo tempo que passam mensagens misóginas.
“Com conteúdos potencialmente polarizadores, polémicos, aparentemente disruptivos, muitas vezes conteúdos odiosos, porque esse conteúdo usa esse tipo de discurso, gera reações, gera partilha, gera adesão”.
“Esses ‘influencidadores’ têm uma fórmula muito semelhante, de dominação masculina, mas com sucesso financeiro. E esse sucesso é mostrado de formas diferentes. Com grandes carros, viagens e todo um lifestyle muito conotado com sucesso”, explica Maria João Faustino.
Os adolescentes são o público-alvo destes “influencers”. “É neste nicho de mercado que eles apostam. Apostam em indivíduos que eles sabem que vão conseguir captar porque são mais vulneráveis, às vezes com menos pensamento crítico em relação a estas questões”, explica Ricardo Barroso, que também aponta a imaturidade como possível explicação para que muitos jovens caiam “na armadilha da narrativa destes influencers”.
“Temos de pensar que estamos a falar da adolescência. É um tempo por excelência em que estamos a descobrir a nossa identidade. O sentimento de pertença e a procura de pertença são muito fortes. Portanto, se existem determinados homens que se apresentam como influenciadores, que têm um discurso que legitima estas inseguranças e que mostram formas de sucesso, é muito fácil estes jovens caírem nesta rede”, explica Maria João.
Depois gera-se uma bola de neve, uma vez que o algoritmo vai oferecer a estes jovens conteúdos cada vez mais radicais e extremados – uma fórmula que Maria João Faustino chama de “algoritmo do patriarcado”.
“O que o algoritmo faz é exatamente isto, é mostrar conteúdos que acha que estamos interessados e favorecer conteúdos que sejam polarizadores e muitas vezes extremistas”, afirma.
Qual o impacto deste “caldo cultural digital”?
Mais do que as consequências que estes fenómenos têm nos adolescentes, a psicóloga e investigadora destaca os impactos sociais.
“O que estes discursos fazem é solidificar determinadas crenças e aumentar outras crenças sobre o desvalor das mulheres, o papel das mulheres e dos homens na sociedade, que está muito ligado ao crescimento do sexismo”, explica.
Isto gera “um risco enorme de congelamento destas crenças, reforço da misoginia. E isto, obviamente, traduz- se em comportamentos violentos”.
“Portanto, o aumento da violência sexista, da violência contra mulheres e raparigas, é produto e fruto também deste caldo cultural digital, onde os discursos misóginos e sexistas proliferam porque são vendíveis e apetecíveis”, diz.
“Seria muito estranho se este tipo de mensagens, que tratam as mulheres e as raparigas como seres secundários, não fosse incorporada e não tivesse expressão depois na forma como rapazes interagem com raparigas”, observa a investigadora.
Na experiência de Ricardo Barroso, “há mais adolescentes esclarecidos sobre a desadequação deste tipo de narrativas, do que miúdos problemáticos, ou que partilham muitos destes ideais”. No entanto, não tem dúvidas de que há o risco de crescimento deste tipo de conteúdos associados à manosfera.
“Há indivíduos que têm a intenção de radicalizar e influenciar outros. E isso, de facto, é um fator preocupante”, admitiu.
“Estamos muito impreparados”
A investigadora diz que o debate em Portugal sobre este tema só começou a ganhar alguma escala com a série “Adolescência” e, mais recentemente, com o documentário “Dentro da Manosfera”, do jornalista e documentarista britânico Louis Theroux. No entanto, o debate é ainda “incipiente”.
“Ainda bem que estes produtos mediáticos existem porque alavancam a discussão. O problema é que é uma discussão, muitas vezes, episódica, e inconsequente. E nós, de facto, ainda não estamos a dar atenção suficiente ao problema”, diz Maria João.
“Ainda não alavancou uma preocupação e uma ação real coletiva. E, de facto, nós estamos muito impreparados para lidar com isto nas escolas e fora das escolas”, observa, afirmando mesmo que Portugal está “em sentido contrário”.
“Nós vemos os ataques à educação para a cidadania, à educação para a sexualidade, e não combatemos a manosfera e os efeitos da manosfera sem educação para a sexualidade. E a educação para a sexualidade tem de ser começar muito cedo e ser adequada às diversas idades e aos diversos contextos culturais”, argumenta.
“Precisamos mesmo de falar sobre afetos, sobre o corpo, sobre autonomia corporal, sobre relações interpessoais, sobre os limites, os nossos e os dos outros. Essa tem de ser uma discussão que tem de começar muito cedo e tem de acompanhar todo o percurso escolar, ser adequado às várias idades, com linguagens próprias”, defende a investigadora.
“Sem políticas públicas nós vamos estar a correr atrás do prejuízo”, conclui.