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COVID-19
O mundo em casa
A constituição dos Estados Unidos da América tem, desde a sua redacção, uma função muito clara: evitar a acumulação de poder numa só pessoa ou instituição. O sistema está desenhado para que os diferentes poderes - legislativo, executivo e judicial - se controlem mutuamente por via dos famosos checks and balances.
O modelo federal também proporcionou um equilíbrio entre as competências dos estados federados e as da federação. Ao longo dos anos, o centro foi acumulando mais poder (guerra da secessão, New Deal), mas persistiram sempre os corta-fogos que evitam derivas autoritárias.
A incoerência entre o discurso e a acção de Donald Trump é uma das provas de que o sistema funciona. Algumas das suas propostas eleitorais mais emblemáticas, como a construção do muro na fronteira com o México, foram bloqueadas pela recusa do congresso em aprovar o seu financiamento. Também foram várias as ordens executivas do presidente suspensas por tribunais federais.
Esta semana, Trump manteve o registo histriónico, desta vez, com uma tentativa de afirmação de poder em relação aos governadores estaduais que se recusam a recuar nas medidas de isolamento social impostas aos cidadãos. Pouco tempos depois, como vem sendo habitual, recuou e voltou a contradizer-se, à semelhança do que já fez em relação à China, à NATO ou uma série de outros temas.
Nos últimos três anos, deixámos de avaliar a liderança norte-americana com os mesmos critérios que utilizávamos antes. Palavras, actos e omissões, que seriam pecados capitais para Hillary Clinton, Barack Obama e até para George W. Bush, são hoje o pão nosso de cada dia. O insulto a jornalistas em conferências de imprensa ou a vulgaridade utilizada nas referências aos adversários nas redes sociais são tratadas como factos rotineiros e banais.
Enquanto a Covid-19 se expande aceleradamente pelo território norte-americano, Donald Trump, sob a capa de um discurso violentamente determinado, é um presidente à deriva. O homem que assentou o seu mandato na tentativa de destruição do legado do antecessor e na desregulação económica viu, nas últimas semanas, como se evaporavam os seus trunfos para a reeleição: os indicadores económicos e financeiros.
A travagem brusca da economia desespera-o, sobretudo porque o obriga a fazer o que não sabe: dialogar com outros poderes e com a oposição; e implementar medidas ligeiramente mais complexas do que debitar lugares-comuns e preconceitos nas redes sociais.
Quer isto dizer que a reeleição está perdida? Não. Estamos bem longe disso, sobretudo porque Trump assenta a sua acção na mobilização permanente de uma parte (cerca de 40%) do eleitorado. Caso essa América mais conservadora e isolacionista mantenha o apoio ao presidente e opte por vê-lo como uma espécie de cowboy solitário que luta contra elites, a tarefa de um Partido Democrático dividido e com um candidato pouco carismático será muito difícil.
Joe Biden tem pouco tempo para unificar o seu campo e para mobilizar o eleitorado. Já garantiu que irá escolher uma mulher como candidata a vice-presidente e seria importante que esta fosse uma figura acarinhada pela ala mais liberal (esquerdista) do partido. Elizabeth Warren já se disponibilizou. Veremos se a opção mais óbvia vinga.
Sugestão
A série Plot Against America, disponível na HBO Portugal, é baseada no romance homónimo de Philip Roth e tem como pano de fundo uns Estados Unidos em que Franklin Delano Roosevelt perde as eleições de 1940 para o isolacionista anti-semita e germanófilo Charles Lindbergh. É fácil associar algumas situações aí retratadas com episódios reais que vão decorrendo por estes dias.
Nota: o autor escreve respeitando a ortografia pré-acordo ortográfico.
A incoerência entre o discurso e a acção de Donald Trump é uma das provas de que o sistema funciona. Algumas das suas propostas eleitorais mais emblemáticas, como a construção do muro na fronteira com o México, foram bloqueadas pela recusa do congresso em aprovar o seu financiamento. Também foram várias as ordens executivas do presidente suspensas por tribunais federais.
Esta semana, Trump manteve o registo histriónico, desta vez, com uma tentativa de afirmação de poder em relação aos governadores estaduais que se recusam a recuar nas medidas de isolamento social impostas aos cidadãos. Pouco tempos depois, como vem sendo habitual, recuou e voltou a contradizer-se, à semelhança do que já fez em relação à China, à NATO ou uma série de outros temas.
Nos últimos três anos, deixámos de avaliar a liderança norte-americana com os mesmos critérios que utilizávamos antes. Palavras, actos e omissões, que seriam pecados capitais para Hillary Clinton, Barack Obama e até para George W. Bush, são hoje o pão nosso de cada dia. O insulto a jornalistas em conferências de imprensa ou a vulgaridade utilizada nas referências aos adversários nas redes sociais são tratadas como factos rotineiros e banais.
Enquanto a Covid-19 se expande aceleradamente pelo território norte-americano, Donald Trump, sob a capa de um discurso violentamente determinado, é um presidente à deriva. O homem que assentou o seu mandato na tentativa de destruição do legado do antecessor e na desregulação económica viu, nas últimas semanas, como se evaporavam os seus trunfos para a reeleição: os indicadores económicos e financeiros.
A travagem brusca da economia desespera-o, sobretudo porque o obriga a fazer o que não sabe: dialogar com outros poderes e com a oposição; e implementar medidas ligeiramente mais complexas do que debitar lugares-comuns e preconceitos nas redes sociais.
Quer isto dizer que a reeleição está perdida? Não. Estamos bem longe disso, sobretudo porque Trump assenta a sua acção na mobilização permanente de uma parte (cerca de 40%) do eleitorado. Caso essa América mais conservadora e isolacionista mantenha o apoio ao presidente e opte por vê-lo como uma espécie de cowboy solitário que luta contra elites, a tarefa de um Partido Democrático dividido e com um candidato pouco carismático será muito difícil.
Joe Biden tem pouco tempo para unificar o seu campo e para mobilizar o eleitorado. Já garantiu que irá escolher uma mulher como candidata a vice-presidente e seria importante que esta fosse uma figura acarinhada pela ala mais liberal (esquerdista) do partido. Elizabeth Warren já se disponibilizou. Veremos se a opção mais óbvia vinga.
Sugestão
A série Plot Against America, disponível na HBO Portugal, é baseada no romance homónimo de Philip Roth e tem como pano de fundo uns Estados Unidos em que Franklin Delano Roosevelt perde as eleições de 1940 para o isolacionista anti-semita e germanófilo Charles Lindbergh. É fácil associar algumas situações aí retratadas com episódios reais que vão decorrendo por estes dias.
Nota: o autor escreve respeitando a ortografia pré-acordo ortográfico.