Mundo
O V da Independência catalã
No dia 11 de Setembro de 1714, a Catalunha rendia-se ao poderio militar castelhano, abdicava da sua independência e das suas instituições próprias. Trezentos anos depois, mais de meio milhão de pessoas preparam-se para participar num gigantesco V pela independência da Catalunha que atravessará as duas principais artérias de Barcelona. Um novo passo antes da consulta popular pela independência, prevista para novembro. As perguntas do referendo já são conhecidas, só não se sabe ainda se a consulta popular realmente se concretiza.
Cada vez mais o 11 de setembro, dia nacional da Catalunha, se transformou no dia da luta pela independência. No ano passado, mais de um milhão e meio de pessoas participaram num cordão humano de 480 km, que atravessou a Catalunha. Para a manifestação deste ano, há já mais de meio milhão de pré-inscritos - número superior ao de pré-inscritos para o cordão humano de 2013. Mas o número de participantes deverá ser muito superior. A Assembleia Nacional da Catalunha (ANC), um movimento a favor da independência, organiza um gigantesco V que vai ocupar duas das principais artérias de Barcelona. Um V com mais de onze quilómetros que promete vestir de vermelho e amarelo, cores da bandeira catalã, a Avinguda Diagonal e a Gran Via de Les Corts Catalanes. A Plaça de les Glories Catalanes, junto à conhecida Torre Agbar, será o vértice do V e ponto alto da concentração.
A iniciativa pretende simbolizar aquela que a ANC diz ser a vontade do povo catalão. A organização espera que o V simbolize a vitória e o direito ao voto. Ao todo, será ocupado um espaço de 200.000 metros quadrados, naquele que é, por agora, um monumental exercício de organização. As duas avenidas serão divididas em 73 secções, distribuídas pelas diferentes comarcas catalãs. Foram reservados mais de 1500 autocarros para trazer habitantes de toda a região. O objetivo da organização é que não sejam só os habitantes de Barcelona a participar, mas que o V seja representativo dos 7.5 milhões de catalães. O ponto alto está marcado para as 17h14 locais, em homenagem aos acontecimentos de 1714, quando a Catalunha se rendeu perante as tropas franco-espanholas.
O Referendo
A Assembleia Nacional Catalã, organizadora da iniciativa, apelida esta de "última diada". A última antes do referendo aos catalães, previsto para o próximo dia 9 de Novembro. Um referendo que, no entanto, poderá acabar por não se realizar. O governo de Mariano Rajoy já disse, repetidas vezes, que não autoriza esta consulta popular e que a mesma vai contra a Constituição espanhola. Uma decisão oposta à tomada pelo governo inglês, que autorizou a realização de um referendo à independência na Escócia.

Se o mesmo se concretizar, os eleitores catalães terão a oportunidade de responder a duas perguntas: "Deseja que a Catalunha se torne um Estado?" e "Deseja que esse Estado seja independente?". Esta consulta pode ditar, não só, o destino da Catalunha mas da própria unidade espanhola. A Catalunha é uma das principais regiões industriais do país vizinho, sendo responsável por um quinto do Produto Interno Bruto espanhol.
Longe de ser consensual, a independência da Catalunha é um assunto que divide os próprios catalães, mas que tem ganho um novo impulso nos últimos anos. A crise económica de 2008 contribuiu para o impulso independentista, sobretudo quando, em 2012, Madrid recusou a atribuição de maior autonomia fiscal à comunidade. Nos últimos anos, frases como "Catalunha não é Espanha", "Catalunha: Próximo Estado Europeu", ou "Direito a decidir" são presença assídua. Tanto em grandes manifestações, como em encontros mais pequenos a favor da independência catalã, que têm ocorrido um pouco por todo o mundo. Só no último verão, realizaram-se mais de cinquenta manifestações nos vários continentes.
A questão da independência catalã divide os próprios meios de comunicação social. Recentemente, o Sindicato dos Jornalistas da TV3, a televisão pública catalã, alertou para a falta de imparcialidade no tratamento da manifestação do próximo dia 11 de setembro. Considera que a televisão tem feito "apelos gritantes à participação" na manifestação e reclama uma cobertura neutra da iniciativa.
Longe de ser consensual, a independência da Catalunha é um assunto que divide os próprios catalães, mas que tem ganho um novo impulso nos últimos anos. A crise económica de 2008 contribuiu para o impulso independentista, sobretudo quando, em 2012, Madrid recusou a atribuição de maior autonomia fiscal à comunidade. Nos últimos anos, frases como "Catalunha não é Espanha", "Catalunha: Próximo Estado Europeu", ou "Direito a decidir" são presença assídua. Tanto em grandes manifestações, como em encontros mais pequenos a favor da independência catalã, que têm ocorrido um pouco por todo o mundo. Só no último verão, realizaram-se mais de cinquenta manifestações nos vários continentes.
A questão da independência catalã divide os próprios meios de comunicação social. Recentemente, o Sindicato dos Jornalistas da TV3, a televisão pública catalã, alertou para a falta de imparcialidade no tratamento da manifestação do próximo dia 11 de setembro. Considera que a televisão tem feito "apelos gritantes à participação" na manifestação e reclama uma cobertura neutra da iniciativa.
A comparação com a Escócia
Para os catalães, a semelhança com o caso escocês é flagrante. "Somos dois países que se batem pela mesma causa", considera Salvador Gorro à AFP. O vendedor catalão, de 54 anos, mostra-se esperançoso na influência que o caso escocês possa ter na Catalunha: "se funcionar com eles, será bom para nós". O referendo escocês traz um sentimento de frustração aos catalães, mas também de expetativa. A frustração de quem não sabe ainda se terá a oportunidade de votar, mas a expetativa que a vitória do Sim escocês possa mudar a visão da Europa. Para Carme Forcadell, presidente da ANC, a principal associação independentista da Catalunha, caso o sim ganhe na Escócia, "poderemos ver a reação da União Europeia".
No entanto, nem todos aceitam a comparação com o caso escocês. Susan Beltran é vice-presidente da Sociedade Civil Catalã, um movimento recentemente criado e que se posiciona contra a independência. "São duas realidades diferentes", considera Beltran, "a Catalunha é uma região, não uma nação como a Escócia". Contra a independência, a Sociedade Civil Catalã organiza, também no dia 11 de Setembro, a sua própria manifestação, na cidade de Tarragona.
"Há questões parecidas num caso e no outro e há diferenças, por exemplo históricas", considera Xavier Vidal-Folsh, colunista no jornal espanhol El País. Para Vidal-Folsh, o governo catalão tem um poder muito superior ao atual governo escocês, com mais autonomia e mais áreas de atuação. Se as semelhanças entre os dois casos não são consensais, é quase certo que uma vitória do Sim na Escócia aumentará o impulso independentista na Catalunha.
O dilema de Artur MasFaltam pouco mais de dois meses para o referendo catalão, mas a sua concretização continua a ser uma das principais dúvidas. Em 2012, Artur Mas, o presidente do governo autónomo da Catalunha - a Generalitat, comprometeu-se a avançar com a consulta popular. No entanto, as dúvidas persistem.
O governo de Rajoy já mostrou que fará tudo para impedir a sua realização e o Tribunal Constitucional deverá considerá-lo insconstitucional. Restarão duas opções a Artur Mas: seguir com a realização do referendo, cometendo uma ilegalidade, algo que disse que não faria. Ou poderá voltar atrás e cancelar a consulta. Uma opção também complicada. O presidente da Generalitat poderia perder o apoio dos restantes partidos independentistas, no que seria considerado uma violação da confiança de grande parte dos seus eleitores.
A menos de dois meses do referendo, é ainda difícil perceber o que realmente vai acontecer. Os próximos acontecimentos, em especial a manifestação do dia 11 de setembro e o resultado do referendo escocês, terão uma influência decisiva para a concretização, ou não, da consulta popular.