EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Obama contra McCain - para lá da retórica

Obama contra McCain - para lá da retórica

Desce o pano sobre a campanha nos Estados Unidos e as candidaturas aguardam o desenho do Colégio Eleitoral que resultar das escolhas de 130 milhões de norte-americanos. Para trás ficam as marcas deixadas por centenas de milhões de dólares, exercícios de verbo e ideologia, operações de imagem e ataques de carácter em 9.158.960 quilómetros quadrados de território.

Carlos Santos Neves, RTP /
A América decide esta terça-feira Matthew Cavanaugh, EPA

John McCain e Barack Obama prometem “mudança” com estilos díspares. Mas aquilo que verdadeiramente os distinguia no rescaldo das primárias diluiu-se num combate pelo centro - em suma, pela alma do “norte-americano médio”.

Esforço de guerra: Iraque e Afeganistão

À semelhança do que aconteceu em 2004, a projecção externa de forças militares norte-americanas voltou a subir ao topo do capítulo da política internacional no duelo da eleição presidencial. A crise financeira acabou por obscurecer o tema. Contudo, é no plano da guerra que McCain e Obama protagonizam a maior fractura.

No que diz respeito ao esforço de guerra no Iraque, John McCain surge alinhado com a fórmula estratégica da Administração cessante. Apoiado no seu currículo de herói de guerra, o senador republicano do Arizona fincou os pés na noção de que os Estados Unidos não devem deixar o Golfo Pérsico sob o jugo de uma derrota.

Receoso de que os progressos alcançados na segurança do Iraque venham a cair por terra, McCain opõe-se à definição de qualquer calendário para a retirada das tropas.

De resto, o candidato republicano era um defensor do aumento do dispositivo militar no Iraque antes mesmo de o Presidente George W. Bush ter colocado a sua assinatura, em Fevereiro de 2007, na estratégia de reforço de tropas e das operações de segurança nas principais cidades iraquianas, com Bagdade à cabeça das prioridades.

McCain não exclui a via do diálogo com as bolsas de insurrectos, tanto no Iraque como no Afeganistão. Mas apenas com um alcance limitado e quando esse diálogo servir para minar as fileiras das guerrilhas.

O campo democrata está nos antípodas do antigo prisioneiro de guerra. A ideia é cortar com o legado de George W. Bush e proceder a uma reformulação profunda das prioridades da máquina de guerra dos Estados Unidos. Em síntese, Barack Obama tempera a tese de que a aposta no Iraque foi um erro geoestratégico colossal com a noção de que é fundamental reconhecer os serviços prestados pelos soldados norte-americanos.

Ao contrário de McCain, Obama quer retirar do Iraque todas as brigadas de combate (15) até Maio de 2010.

Quanto à estratégia de reforço divisada pela Administração Bush, o candidato democrata protagonizou uma inversão de marcha com o decorrer da campanha. Obama esteve entre os mais firmes opositores da estratégia aquando do seu lançamento, mas admite agora que o redobrar do esforço permitiu colher resultados que excederam as expectativas.

O senador afro-americano do Illinois aparta-se de McCain
também na perspectiva de uma solução “negociada” para lidar com as guerrilhas em ambos os países. No que toca ao Afeganistão, Obama mostra-se mesmo disponível para explorar eventuais janelas de oportunidade para conversações com as chefias taliban.

Política fiscal

A crise financeira, com epicentro no sistema capitalista dos Estados Unidos, depressa dominou a corrida à Casa Branca de 2008. Obama e McCain foram chamados a provar aos eleitores que seriam capazes de assumir o leme de uma federação de Estados varrida pelo ciclone da pior crise das últimas sete décadas.

Nos primeiros actos do drama, o senador democrata revelou-se menos errático do que o seu adversário. Mas viu as suas propostas para resgatar a economia norte-americana ao precipício capitalizadas por John McCain numa estratégia de ataque ao “esquerdismo”. Zeloso da base conservadora que tanto lhe custou a conquistar, o senador republicano não hesitou em atirar o adversário para a galeria do socialismo.

Obama apresenta-se perante o eleitorado norte-americano como o campeão da classe média e demais despojados da crise.

Ao mesmo tempo que defende um aumento da carga fiscal para multinacionais que procurem as suas forças de trabalho em países terceiros, o senador democrata propõe-se atenuar em 1.118 dólares o jugo dos impostos de 20 por cento dos contribuintes que ganham entre 37.600 dólares a 66.400 dólares por ano.

Propõe também um aumento, de 15 para 20 por cento, do imposto sobre o rendimento para os agregados familiares que ganhem mais de 250 mil dólares por ano.

É precisamente nesta proposta que John McCain encontra munições para atacar o “socialismo” de Barack Obama e o chavão “espalhar a riqueza”.

Ao invés de Obama, o senador republicano propõe-se reduzir a carga fiscal das empresas de 35 para 25 por cento.

No que concerne aos contribuintes com rendimentos entre os 37.600 dólares e os 66.400 dólares, McCain limita o alívio fiscal a 325 dólares.

Já o imposto sobre os rendimentos sofreria, sob uma administração McCain, um corte de 7,5 por cento em 2009 e 2010.

Imobiliário

Raiz da crise financeira, o crédito imobiliário tornou-se um tema incontornável na troca de argumentos dos candidatos à sucessão do Presidente Bush.

Neste capítulo, as posições de McCain e Obama surgem mais apartadas quando são convocados a explicar o que defendem para o actual quadro legislativo.

Se o senador democrata do Illinois diz querer rever as regras da bancarrota, por forma a que os tribunais possam modificar e mesmo reduzir as hipotecas, o senador republicano do Arizona aparece como paladino do código actual, que impede os magistrados de tomarem tais decisões.

Obama compromete-se, por outro lado, a outorgar incentivos às instituições bancárias que comprem ou refinanciem as hipotecas. Por seu turno, McCain propõe que as hipotecas em situação de naufrágio sejam compradas e substituídas por outras com taxas fixas e asseguradas pelas autoridades federais.

Saúde

Na história do edifício político norte-americano, os cuidados de saúde têm sido o equivalente a um campo de trincheiras entre republicanos e democratas. O duelo eleitoral de 2008 não fugiu à regra.

À questão de saber se devem ser os empregadores a custear o grosso dos cuidados de saúde nos Estados Unidos, os candidatos dividem-se.

Barack Obama compromete-se a oferecer alternativas às famílias norte-americanas sem desvirtuar por completo o actual sistema de cuidados de saúde assegurados pelas entidades empregadoras. O objectivo, garante o candidato democrata, é reduzir os custos das famílias em 2.500 dólares.

Promete ainda Obama que os norte-americanos que não estão abrangidos por qualquer sistema de saúde, ou que pretendam enveredar por soluções diferentes, terão a oportunidade de aceder a planos privados análogos aos que são disponibilizados a membros do Congresso. As seguradoras ficarão obrigadas a cobrir condições pré-existentes, ao passo que as pequenas empresas e famílias assalariadas poderão contar com “créditos fiscais”.

Por seu turno, John McCain discorda frontalmente da ideia de fazer recair sobre os empregadores, e não sobre os indivíduos, o ónus dos cuidados de saúde.

Nos termos do sistema actual, os cidadãos norte-americanos só podem colher benefícios fiscais dos seus seguros de saúde quando estes são assegurados pelos empregadores. O candidato republicano propõe-se substituir o actual regime de benefícios fiscais por um “crédito fiscal ressarcível”, que as famílias norte-americanas podem usar para manter o plano de saúde dos empregadores ou procurar outras soluções no domínio individual.

Uma tal medida, advoga McCain, instigaria a concorrência no sector das seguradoras e aumentaria os benefícios das famílias norte-americanas em 1.200 a 1.400 dólares.

Energia e ambiente

No domínio da energia e das questões ambientais, os discursos dos candidatos à Casa Branca são semelhantes na prioridade dada às ideias para consumo interno. Tanto Obama como McCain são largamente omissos em matéria de concertação internacional para a redução das emissões de gases com efeito de estufa.

John McCain diz-se partidário de um melhor aproveitamento dos recursos petrolíferos e de gás natural dos Estados Unidos, uma via que, na sua óptica, deixaria a América menos dependente do petróleo estrangeiro.

Defende o candidato republicano que o objectivo a longo prazo de uma independência energética não poderá ser alcançado sem a aposta na diversificação das fontes. A energia nuclear é a prioridade das prioridades de McCain. Em lugares secundários e mais negligenciáveis surgem energias como a eólica e a solar.

Barack Obama promete investir 150 mil milhões de dólares durante os próximos dez anos no desenvolvimento de fontes de energia alternativas ao petróleo e, ao mesmo tempo, criar cinco milhões de postos de trabalho.

Os biocombustíveis e as energias solar e eólica aparecem no topo das prioridades do candidato democrata. No entanto, Obama diz-se aberto a apoiar novas perfurações petrolíferas ao largo das costas norte-americanas, mas apenas no quadro de um “pacote energético” assinado por republicanos e democratas.
PUB