Mundo
Obama decidido a atacar o regime sírio dá a palavra ao Congresso
Menos de 48 horas depois de o Parlamento britânico ter calado os tambores de guerra do conservador David Cameron, Barack Obama surpreendeu ontem a América e o mundo ao anunciar que já se decidiu a empregar os mísseis norte-americanos contra o regime sírio numa ofensiva “limitada”, mas também que não dará a ordem para avançar antes de uma autorização formal dos legisladores do Capitólio. É uma jogada política de alto risco que, na prática, deve adiar por mais de uma semana qualquer intervenção militar contra Bashar al-Assad. Porque o Congresso só retoma por completo os seus trabalhos a 9 de setembro.
Já chegou ao Congresso dos Estados Unidos o projeto de resolução da Casa Branca que solicita a autorização dos legisladores da Câmara dos Representantes e do Senado para uma intervenção militar na Síria que “faça parar”, ou “previna”, ataques com armas químicas.
É este, em suma, o escopo do casus belli da Administração Obama, que, à semelhança do que aconteceu há uma década no consulado do republicano George W. Bush, está a lançar mão de dados coligidos pelos serviços secretos para dar como provada a utilização de agentes neurotóxicos, por parte das forças de Bashar al-Assad, no ataque que há quase duas semanas matou centenas de civis às portas de Damasco. “Provas” essas que foram enunciadas no final da semana passada pelo secretário de Estado John Kerry, mesmo antes de serem tornados públicos os resultados do trabalho desenvolvido na Síria pelos inspetores das Nações Unidas.
A equipa de peritos das Nações Unidas em armas químicas concluiu na sexta-feira as suas investigações em território sírio, tendo abandonado durante a manhã de sábado o país de Assad.
As amostras recolhidas pelos inspetores vão agora ser objeto de análises laboratoriais.
Não haverá “qualquer conclusão” prévia aos resultados das análises, como já precisou um porta-voz da ONU. E a Organização para a Proibição de Armas Químicas, com sede na Haia, já advertiu que o trabalho científico que agora decorrerá pode mesmo prolongar-se “por três semanas”.
O relatório que serviu de base às declarações públicas de Kerry alega que morreram 1429 pessoas, entre as quais 426 crianças, no ataque de 21 de agosto nos subúrbios sunitas da capital síria. Um número que extravasa largamente o balanço - ainda provisório – do próprio Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que aponta para 500 vítimas mortais.
No texto remetido ao Capitólio, o Presidente norte-americano explica que o apoio dos congressistas constituiria “um sinal claro da atitude resoluta da América”.
“O Presidente fica autorizado a utilizar as Forças Armadas dos Estados Unidos como considera necessário e apropriado em relação ao uso de armas químicas ou de outras armas de destruição em massa no conflito da Síria”, estatui o projeto de resolução da Presidência.
São dois os objetivos vertidos no texto alinhavado pelo núcleo duro de Barack Obama: “Impedir ou dissuadir a utilização ou a proliferação (incluindo a transferência para grupos terroristas ou outros atores estatais ou não estatais), no interior, para ou além da Síria de quaisquer armas de destruição em massa, incluindo químicas ou biológicas”, e “proteger os Estados Unidos e os seus aliados e parceiros contra a ameaça que estas armas constituem”.
“Presidente de guerra sem partido de guerra”
Pouco antes do anúncio de Obama à América e ao mundo, o regime sírio, pela voz do primeiro-ministro Wael al-Halqi, havia reiterado que as suas forças militares estariam “mobilizadas” e com “o dedo no gatilho” para rechaçar a aguardada ofensiva dos Estados Unidos. Um ataque que, nas palavras do próprio Presidente norte-americano, será sempre “limitado” e que não envolverá o envio de forças terrestres: “Não haverá botas no terreno”.
A partir do Rose Garden da Casa Branca, numa alocução que a imprensa norte-americana sublinha ter sido “apressadamente organizada”, o Presidente proclamou ter já tomado a decisão de atacar, o que poderia acontecer “amanhã, na próxima semana ou no próximo mês”. Daí a segundos, porém, carregaria nos travões. Para surpresa das chancelarias internacionais. E dos próprios círculos políticos em Washington.
“Estou preparado para dar essa ordem. Mas, tendo tomado a minha decisão como comandante-em-chefe baseado naquilo que estou convencido serem os nossos interesses nacionais, estou também consciente de que sou Presidente da mais velha democracia constitucional do mundo”, justificou-se Obama, ao revelar a intenção de “pedir a autorização dos representantes dos americanos no Congresso para um uso da força”. Em nome da “segurança nacional”.
Quase de imediato – e nos antípodas do Kremlin, que classificou como “um absurdo total” os argumentos para uma ofensiva e já instou a Administração norte-americana a mostrar as suas “provas” às Nações Unidas - o primeiro-ministro britânico, que na quinta-feira viu o Parlamento de Londres reprovar a participação de forças do Reino Unido numa intervenção contra Damasco, recorreu ao Twitter para expressar “compreensão e apoio” à “posição” assumida por Obama.

Foto: Larry Downing, Reuters
Em Washington, todavia, o aplauso inicial dos líderes dos partidos Democrata e Republicano no Congresso depressa deu lugar à constatação de que a Casa Branca poderá ter de enfrentar uma dura provação no Capitólio antes de mandar disparar os mísseis Tomahawk que armam os vasos de guerra norte-americanos atualmente posicionados no Mediterrâneo. A situação, escrevia nas últimas horas a edição electrónica do diário The New York Times, é “volátil” quer na Câmara dos Representantes, dominada pelos republicanos, quer no Senado, onde a maioria é democrata.
“Obama não tem qualquer hipótese de ganhar esta votação se não conseguir ganhar a maioria do seu próprio partido e eu duvido que o consiga. Os democratas têm estado conspicuamente silenciosos. O seu quase único apoio está a sair dos republicanos. Ele é um Presidente de guerra sem um partido de guerra”, resumiu o legislador republicano da Câmara dos Representantes Tom Cole, citado pelo New York Times.
Até mesmo no seio do Grand Old Party há divisões. Entre os tradicionais “falcões” conservadores e legisladores que o jornal acondiciona numa “nova geração” de republicanos “resistentes” a mais imbróglios extrafronteiras e “desconfiados” de Obama. É o caso do representante republicano do Arkansas Tim Griffin: “Francamente, estou relutante em dar-lhe uma licença para a guerra quando, com todo o respeito, tenho pouca confiança em que ele saiba o que está a fazer”.
É este, em suma, o escopo do casus belli da Administração Obama, que, à semelhança do que aconteceu há uma década no consulado do republicano George W. Bush, está a lançar mão de dados coligidos pelos serviços secretos para dar como provada a utilização de agentes neurotóxicos, por parte das forças de Bashar al-Assad, no ataque que há quase duas semanas matou centenas de civis às portas de Damasco. “Provas” essas que foram enunciadas no final da semana passada pelo secretário de Estado John Kerry, mesmo antes de serem tornados públicos os resultados do trabalho desenvolvido na Síria pelos inspetores das Nações Unidas.
A equipa de peritos das Nações Unidas em armas químicas concluiu na sexta-feira as suas investigações em território sírio, tendo abandonado durante a manhã de sábado o país de Assad.
As amostras recolhidas pelos inspetores vão agora ser objeto de análises laboratoriais.
Não haverá “qualquer conclusão” prévia aos resultados das análises, como já precisou um porta-voz da ONU. E a Organização para a Proibição de Armas Químicas, com sede na Haia, já advertiu que o trabalho científico que agora decorrerá pode mesmo prolongar-se “por três semanas”.
O relatório que serviu de base às declarações públicas de Kerry alega que morreram 1429 pessoas, entre as quais 426 crianças, no ataque de 21 de agosto nos subúrbios sunitas da capital síria. Um número que extravasa largamente o balanço - ainda provisório – do próprio Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que aponta para 500 vítimas mortais.
No texto remetido ao Capitólio, o Presidente norte-americano explica que o apoio dos congressistas constituiria “um sinal claro da atitude resoluta da América”.
“O Presidente fica autorizado a utilizar as Forças Armadas dos Estados Unidos como considera necessário e apropriado em relação ao uso de armas químicas ou de outras armas de destruição em massa no conflito da Síria”, estatui o projeto de resolução da Presidência.
São dois os objetivos vertidos no texto alinhavado pelo núcleo duro de Barack Obama: “Impedir ou dissuadir a utilização ou a proliferação (incluindo a transferência para grupos terroristas ou outros atores estatais ou não estatais), no interior, para ou além da Síria de quaisquer armas de destruição em massa, incluindo químicas ou biológicas”, e “proteger os Estados Unidos e os seus aliados e parceiros contra a ameaça que estas armas constituem”.
“Presidente de guerra sem partido de guerra”
Pouco antes do anúncio de Obama à América e ao mundo, o regime sírio, pela voz do primeiro-ministro Wael al-Halqi, havia reiterado que as suas forças militares estariam “mobilizadas” e com “o dedo no gatilho” para rechaçar a aguardada ofensiva dos Estados Unidos. Um ataque que, nas palavras do próprio Presidente norte-americano, será sempre “limitado” e que não envolverá o envio de forças terrestres: “Não haverá botas no terreno”.
A partir do Rose Garden da Casa Branca, numa alocução que a imprensa norte-americana sublinha ter sido “apressadamente organizada”, o Presidente proclamou ter já tomado a decisão de atacar, o que poderia acontecer “amanhã, na próxima semana ou no próximo mês”. Daí a segundos, porém, carregaria nos travões. Para surpresa das chancelarias internacionais. E dos próprios círculos políticos em Washington.
“Estou preparado para dar essa ordem. Mas, tendo tomado a minha decisão como comandante-em-chefe baseado naquilo que estou convencido serem os nossos interesses nacionais, estou também consciente de que sou Presidente da mais velha democracia constitucional do mundo”, justificou-se Obama, ao revelar a intenção de “pedir a autorização dos representantes dos americanos no Congresso para um uso da força”. Em nome da “segurança nacional”.
Quase de imediato – e nos antípodas do Kremlin, que classificou como “um absurdo total” os argumentos para uma ofensiva e já instou a Administração norte-americana a mostrar as suas “provas” às Nações Unidas - o primeiro-ministro britânico, que na quinta-feira viu o Parlamento de Londres reprovar a participação de forças do Reino Unido numa intervenção contra Damasco, recorreu ao Twitter para expressar “compreensão e apoio” à “posição” assumida por Obama.
Foto: Larry Downing, Reuters
Em Washington, todavia, o aplauso inicial dos líderes dos partidos Democrata e Republicano no Congresso depressa deu lugar à constatação de que a Casa Branca poderá ter de enfrentar uma dura provação no Capitólio antes de mandar disparar os mísseis Tomahawk que armam os vasos de guerra norte-americanos atualmente posicionados no Mediterrâneo. A situação, escrevia nas últimas horas a edição electrónica do diário The New York Times, é “volátil” quer na Câmara dos Representantes, dominada pelos republicanos, quer no Senado, onde a maioria é democrata.
“Obama não tem qualquer hipótese de ganhar esta votação se não conseguir ganhar a maioria do seu próprio partido e eu duvido que o consiga. Os democratas têm estado conspicuamente silenciosos. O seu quase único apoio está a sair dos republicanos. Ele é um Presidente de guerra sem um partido de guerra”, resumiu o legislador republicano da Câmara dos Representantes Tom Cole, citado pelo New York Times.
Até mesmo no seio do Grand Old Party há divisões. Entre os tradicionais “falcões” conservadores e legisladores que o jornal acondiciona numa “nova geração” de republicanos “resistentes” a mais imbróglios extrafronteiras e “desconfiados” de Obama. É o caso do representante republicano do Arkansas Tim Griffin: “Francamente, estou relutante em dar-lhe uma licença para a guerra quando, com todo o respeito, tenho pouca confiança em que ele saiba o que está a fazer”.