Ómicron vai "encontrar quase toda a gente", avisa Anthony Fauci

por RTP
Fauci na audiência do comité de Saúde do Senado EPA

Depois de a OMS Europa prever que mais de metade da população da Europa esteja infetada com a variante Ómicron dentro de seis a oito semanas, é a vez do alerta nos Estados Unidos. O epidemiologista chefe da Casa Branca diz mesmo que poderá chegar a toda a gente, numa altura em que o número de infeções volta a disparar.

“A Ómicron, com o seu extraordinário e sem precedentes grau de eficiência de transmissibilidade, acabará por encontrar quase toda a gente”, disse Fauci a J. Stephen Morrison, vice-presidente do Centro para os Estudos Estratégicos Internacionais.

“Aqueles que foram vacinados e receberam a dose de reforço vão ser expostos. Alguns, talvez muitos, serão infetados mas, muito provavelmente apesar de algumas exceções, vão passar razoavelmente bem no sentido de não precisarem de serem hospitalizados ou de morrerem”.

Em contraponto, aqueles que não foram vacinados “vão receber o peso do lado severo da doença", acrescentou.

Nos Estados Unidos, um em cada cinco cidadãos que poderiam receber a vacina não está vacinado contra a covid-19. São 65 milhões de pessoas. O país tem 62% da vacinação completa e 23% já tomaram a dose de reforço, de acordo com os dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

Os Estados Unidos registraram uma média de mais de 754.200 novos casos de covid-19 diários na semana passada, segundo dados da Universidade John Hopkins. Ou seja, cerca de três vezes a média de pico do inverno passado (251.987 em 11 de janeiro de 2021) e 4,5 vezes o pico da onda impulsionada pelo Delta (166.347 em 1 de setembro), de acordo com a Universidade John Hopkins.

O país teve uma média de 1.646 mortes por Covid-19 por dia na semana passada – 33% a mais do que há uma semana. A média de pico foi de 3.402 diariamente em 13 de janeiro de 2021, mostram os dados da JHU, citados pela CNN.

A Ómicron já será responsável por 98, 3% dos casos de covid-19 na última semana nos EUA.

A análise do especialista norte-americano respondia à questão sobre se a pandemia estaria a entrar numa nova fase. Fauci considerou que isso acontecerá quando houver proteção suficiente na comunidade e medicamentos para tratar casos graves. “Podemos estar no limiar de isso acontecer”, admitiu.

Ontem, os especialistas da OMS vieram dizer que receiam o aumento dos internamentos em populações não-vacinadas e avisaram que o novo coronavírus está ainda longe de se tornar endémico.

Também ontem, a FDA, a agência norte-americana dos medicamentos, pela voz de Janet Woodcock, veio também admitir que maior parte da população vai apanhar o vírus e que o foco agora se deverá concentrar em manter os hospitais, mas também os serviços essenciais na comunidade a funcionar.

“Acho difícil processar o que realmente está a acontecer agora, que é: a maioria das pessoas vai ter covid”, disse Woodcock numa audição no comité de Saúde do Senado. “O que precisamos fazer é garantir que os hospitais ainda funcionem, os transportes e que outros serviços essenciais não sejam interrompidos enquanto isto acontece”.

O número de hospitalizações de pessoas com covid-19 nos Estados Unidos registou na terça-feira um recorde, levando muitos estados a equacionar novas medidas para ultrapassar a situação. Eram 145,900 as pessoas internadas na terça-feira. O anterior máximo era de 142,246, de janeiro de 2021. Um número que duplica o número de internados em duas semanas.

Estados como a Virginia já declararam situação de emergência devido ao número de internados em cuidados intensivos. No Texas, já foi necessário contratar mais 2700 funcionários hospitalares. O Kentucky mobilizou a Guarda Nacional para ajudar os centros médicos. Nova Jérsia voltou a decretar situação de emergência de saúde pública.

"É hora de todos colaborarem e fazerem o que sabemos que funciona. Usem máscara dentro de casa. Evitem aglomerações. Tome a sua vacina e, se elegível, seja reforçado. É assim que vamos passar por esse surto sem colocar em risco mais vidas", disse o Governador de Delaware, John Carney.

O número elevado de infeções está a ter efeitos no dia a dia da economia. Em áreas onde voltou o ensino presencial depois das férias de Natal, o tempo de recuperação de infetados teve impacto nos serviços escolares essenciais. Há situações em que um quarto dos funcionários que fazem a recolha de lixo das ruas está infetado. As companhias aéreas já tiveram de cancelar centenas de voos no fim de semana devido a baixas por covid-19 que se juntam a tempestades de inverno. Os transportes públicos em muitas cidades têm atrasos significativos devido à falta de pessoal.
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