ONU alerta para custo humano "devastador" da violência no Sahel e África Ocidental
O chefe do Escritório da ONU para África Ocidental e Sahel (UNOWAS) alertou hoje para o "devastador" custo humano da violência na região, relatando ataques terroristas, raptos e um elevado número de vítimas civis e deslocados internos.
Leonardo Santos Simão apresentou hoje ao Conselho de Segurança da ONU o último relatório sobre os desenvolvimentos nessa região africana e que abrange o período de 29 de novembro de 2025 a 30 de junho deste ano, o qual foi marcado por tensões interestatais, ataques terroristas e de insurgentes e crime organizado transnacional.
Grupos terroristas e outros atores armados não estatais continuaram a explorar lacunas de governança, vulnerabilidades socioeconómicas e fronteiras porosas para intensificar ataques cada vez mais sofisticados no Sahel central e na bacia do Lago Chade, onde procuram consolidar o controlo territorial e económico, ao mesmo tempo que minam a confiança pública nas instituições estatais.
Leonardo Santos Simão afirmou hoje que esses grupos estão a adaptar as suas operações através de drones, comunicações sofisticadas e criptomoedas.
O problema é grave, especialmente no centro do Sahel e no norte da Nigéria, e está a espalhar-se rapidamente para os Estados costeiros do Golfo da Guiné, disse.
"Essas ações cruzam-se com o crime organizado transnacional e visam consolidar o controlo territorial e económico, corroer a confiança pública na autoridade do Estado, com graves danos na coesão social", alertou.
"O custo humano da violência é devastador", frisou o líder da UNOWAS.
No final de fevereiro, cerca de 6,8 milhões de pessoas estavam deslocadas internamente em toda a região, onde se registavam ainda cerca de 1,28 milhões de refugiados e requerentes de asilo.
Na Libéria, as autoridades relataram um aumento acentuado da população migrante do Burkina Faso desde 2025, o que exerce grande pressão sobre as comunidades de acolhimento.
A juntar a tudo isto, o acesso humanitário continua severamente restrito e subfinanciado.
"Mulheres, crianças e jovens continuam a sofrer as consequências do deslocamento, da insegurança, das violações dos direitos humanos e do acesso limitado a serviços essenciais", afirmou Santos Simão, acrescentando que os atores regionais estão a trabalhar arduamente para encontrar soluções.
A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) renovou os esforços para operacionalizar a sua Força de Reserva, mas numa dimensão inferior à necessária, devido a limitações financeiras, explicou.
Por outro lado, a África Ocidental e o Sahel estão a vivenciar um renovado envolvimento diplomático, passando da confrontação para a colaboração e o diálogo construtivo, relatou Leonardo Santos Simão.
"Apesar de enfrentar múltiplos desafios, a democracia está a criar raízes na região, como demonstram as eleições pacíficas, as reformas e os passos contínuos em direção a uma governança responsável", afirmou.
"Durante o período em análise, as eleições decorreram de forma pacífica no Benim, Cabo Verde, Costa do Marfim e Guiné. Em Cabo Verde, a oposição regressou ao poder ao fim de uma década, enquanto no Benim, as eleições presidenciais de abril concluíram o ciclo eleitoral de 2026. Os esforços de reforma também estão em curso em vários países", assinalou.
Santos Simão destacou ainda que, para este ano, a economia da região deverá crescer cerca de 5% em média, com um forte crescimento em países como o Benim, Costa do Marfim, Guiné, Níger e Senegal.
No entanto, o peso da dívida interna e externa, a inflação, as despesas com a segurança nacional, a redução do espaço orçamental e os choques externos continuam a atenuar o impacto social destes ganhos.
"O combate à pobreza e à vulnerabilidade deve, portanto, permanecer um objetivo comum na luta mais ampla contra o terrorismo", apelou.
Na mesma reunião do Conselho de Segurança, a França mostrou-se alarmada com a resposta internacional inadequada à ameaça terrorista, que está a ter consequências humanas e humanitárias terríveis, particularmente para mulheres e meninas.
Uma boa governança, instituições mais fortes e um espaço cívico protegido continuam sendo essenciais para a construção de sociedades resilientes, enfatizou o embaixador francês Jérôme Bonnafont, acrescentando que, por sua vez, o Conselho "não pode e não deve ignorar a situação".