Operação no Brasil visa tecnológicas que movimentaram 4,4 mil milhões de euros para crime organizado
A autoridade tributária e aduaneira do Brasil anunciou hoje que seis tecnológicas movimentaram 26 mil milhões de reais, o equivalente a 4,41 mil milhões de euros, para o crime organizado em quatro anos.
A revelação foi feita em conferência de imprensa durante a nova fase da Operação Carbono Oculto, apelidada Fluxo Oculto, conduzida pelo Ministério Público (MP) do estado de São Paulo e pela autoridade tributária e aduaneira (Receita Federal do Brasil).
A organização criminosa em questão é o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores fações do Brasil, que se especializou nos últimos anos em lavar dinheiro do crime no mercado formal, entre eles o setor de combustível.
As investigações apontaram que as `fintechs` (empresas de inovação tecnológica), sediadas no principal centro financeiro da cidade de São Paulo e do Brasil, continuaram a ocultar dinheiro do crime organizado, mesmo após o início da Carbono Oculto, em agosto do ano passado.
"Outras seis `fintechs` foram identificadas dentro de um conjunto de operações de organizações criminosas, cujo início é a adulteração de combustíveis, sonegação fiscal na importação de nafta [derivado de petróleo]", declarou o ministro da Fazenda (Finanças), Dario Durigan.
Ao todo, foram cumpridos 55 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná.
Os alvos da Fluxo Oculto são empresários, operadores financeiros, testas de ferro e pessoas ligadas ao setor de combustíveis.
O esquema criminoso de adulteração de combustíveis com nafta petroquímica resultou, segundo os investigadores, em 200 milhões de reais sonegados em impostos em dois anos, o equivalente a 33,9 milhões de euros.
Iniciada em 2025, a Operação Carbono Oculto revelou o avanço do crime organizado, principalmente do PCC, no ecossistema do mercado de combustíveis, instituições de pagamentos, de investimento e mercado imobiliário.
Os investigadores do MP de São Paulo identificaram que o esquema continuou a funcionar através da descoberta dessas seis novas `fintechs`, apontadas como "bancos paralelos" por lavarem dinheiro do PCC.
O grupo criminoso continuou a abrir novas empresas e, para tentar despistar ações de fiscalização e investigação, realizou trocas de membros dos quadros societários e transação constante de recursos entre `fintechs`.
Uma única `fintech` chegou a receber mil milhões de reais em depósitos em espécie entre 2022 e 2024, o equivalente a 169,9 milhões de euros, movimentação considerada atípica e suspeita pelos investigadores.
Roberto Augusto Leme da Silva (o Beto Louco) e Mohamad Hussein Mourad (o Primo) são apontados pelas autoridades brasileiras como responsáveis por articular o esquema de fraudes envolvendo o PCC e as `fintechs`.
Os dois são considerados foragidos e, mesmo morando fora do Brasil, fecharam, este mês, um acordo de delação com o Ministério Público do estado da Baía, após o MP de São Paulo recusar um acordo.
Conforme apurou a Lusa à época, os promotores do MP de São Paulo rejeitaram o acordo de delação por entenderem que "Beto Louco" e "Primo" omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões do esquema com o PCC e não forneceram nomes de polícias e de juízes corruptos.
A Operação Carbono Oculto no Brasil, iniciada o ano passado, ajudou o Governo brasileiro a ganhar força política para instituir uma norma que passou a exigir das `fintechs` o mesmo grau de transparência a que os bancos tradicionais estão obrigados perante as autoridades reguladoras.
Além disso, o Banco Central do Brasil passou a proibir que `fintechs` sem licença usem termos como "banco" e "bank", para não confundir os consumidores e agentes do mercado.
Em relação à adulteração de combustíveis, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) intensificou fiscalizações pelo país, além de interditar postos de combustíveis e centros de distribuição controlados pelo PCC.