Pais chineses usam redes sociais para encontrar genros e noras, revela investigação
Os pais chineses estão a recorrer às redes sociais para encontrar genros e noras, através de anúncios e discussões centrados em atributos práticos e pautados por uma notável "ausência de amor", revela uma investigação da Universidade de Macau.
A investigação de Todd Lyle Sandel, professor do departamento de Comunicação da Universidade de Macau (UM), centra-se no envolvimento parental em grupos de encontros na plataforma de mensagens WeChat (semelhante ao WhatsApp na China), onde os pais descrevem frequentemente os filhos como se listassem produtos num mercado: "Altura, peso, educação, situação económica, casa própria" são os critérios típicos apresentados, revelou esta sexta-feira o investigador na apresentação do trabalho, que ainda decorre.
"O que é impressionante é a ausência de `amor` ou `sentimento` nos anúncios de apresentação", acrescentou Sandel, o foco está em características mensuráveis, não na ligação emocional, disse numa conferência na UM.
"Os homens casam para baixo, as mulheres casam para cima", com a expectativa de "homens como provedores e mulheres como donas de casa", sendo que a preferência dominante é que uma "mulher case com um homem mais velho que tenha casa, rendimento mais elevado e seja altamente escolarizado", aponta a investigação.
Esta prática reflete os mercados matrimoniais físicos ainda hoje encontrados em parques de várias cidades chinesas, onde os pais expõem pedaços de papel com detalhes sobre a idade, educação e profissão de potenciais cônjuges para os filhos e filhas.
A análise de Sandel baseia-se na observação, iniciada em 2024, de um grupo de WeChat com aproximadamente 500 membros dedicado à procura de parceiros para os filhos pelos pais, funcionando como uma versão digital dos tradicionais mercados matrimoniais em parques.
Num dos anúncios recolhidos pelo investigador, uma mãe escreve sobre a filha: "Boa índole, figura esbelta, pele clara, normalmente não usa maquilhagem, aparenta ser muito mais nova do que a idade real". Pretende um homem "mais alto do que 170 cm, emprego estável, que trabalhe em Guangzhou, não seja careca, não seja gordo, tenha temperamento calmo, seja responsável, honesto, de preferência que não fume ou beba pouco e partilhe as tarefas domésticas".
A descrição dos rapazes pelos pais dá ênfase aos bens materiais e morais: "filho único, pais reformados, tem casa própria, é ambicioso, tem carta de condução, respeita os mais velhos".
Da investigação de Sandel, duas realidades sociológicas distintas, mas interligadas, ganham destaque: as dificuldades enfrentadas por mulheres altamente bem-sucedidas, no topo da pirâmide social, as chamadas "mulheres sobrantes"; e a dos homens das classes mais baixas, especialmente nas áreas rurais.
"As mulheres com níveis elevados de educação e rendimento têm dificuldade em encontrar parceiro porque o paradigma tradicional exige que o homem seja `superior`", explicou o investigador. "No topo da pirâmide, há poucos homens que preenchem este critério", acrescentou.
Inversamente, Todd Lyle Sandel observou que os homens em zonas rurais enfrentam uma escassez de mulheres, uma situação motivada pelo desequilíbrio ainda existente na proporção de géneros e pela migração de mulheres para os centros urbanos.
A idade média do primeiro casamento, segundo Sandel, de acordo com dados de 2020, é em média aos 29,54 anos para os homens e aos 28,14 anos para as mulheres, sendo que se verifica uma tendência para o aumento da idade em ambos os casos, crescente ano após ano.
Finalmente, de acordo com os resultados da investigação de Sandel até agora, a observação do grupo de WeChat sugere que encontrar com sucesso um par um genro ou uma nora através destes canais "é raro".