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Palestinianos não preveem mudanças com novo Governo de coligação israelita

Palestinianos não preveem mudanças com novo Governo de coligação israelita

Ao fim de mais de uma década, a liderança israelita terá um novo rosto, mas os palestinianos consideram que a política será a mesma. Benjamin Netanyahu deverá ser substituído por um Governo de coligação da oposição, que será encabeçado pelo nacionalista de extrema-direita Naftali Bennett nos primeiros dois anos do mandato. Bennett é ex-aliado de Netanyahu e um forte defensor dos colonatos israelitas. Os palestinianos consideram, por isso, que se irão manter as hostilidades.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
O líder da oposição centrista Yaïr Lapid (à esquerda) e o nacionalista de extrema-direita Naftali Bennett (à direita) Baz Ratner - Reuters

O líder da oposição centrista, Yaïr Lapid, e o nacionalista de extrema-direita Naftali Bennett anunciaram, na quinta-feira, que conseguiram chegar a um acordo com as forças da oposição para formar um novo Governo. Ao fim de mais de 12 anos no poder, Benjamin Netanyahu poderá ser, assim, destituído do atual cargo de primeiro-ministro.

O acordo de coligação é descrito como inédito, uma vez que é composto por partidos da extrema-direita à esquerda, incluindo, pela primeira vez na história israelita, um partido árabe islamista. Caso o Parlamento israelita aprove o acordo, Bennett assumirá o cargo de primeiro-ministro nos primeiros dois anos de mandato, sendo depois substituído por Lapid nos dois anos seguintes.

Apesar de este acordo marcar o fim da era de Netanyahu, muitos palestinianos na Cisjordânia ocupada e em Gaza mantêm-se céticos relativamente a uma mudança de políticas, defendendo que Bennett, ex-aliado de Netanyahu e antigo responsável da principal organização de colonatos israelitas na Cisjordânia, seguirá a mesma agenda de direita.

“Ele fará questão de expressar o quão extremo ele é no Governo”,
disse à agência Reuters Bassem Al-Salhi, representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

“Não existem diferenças entre um líder israelita e outro”, afirmou Ahmed Rezik, um funcionário em Gaza. “Eles ou são bons ou maus para a sua nação. E quando se trata do nosso povo, eles são todos maus e todos se recusam a dar aos palestinianos os seus direitos e as suas terras”, acrescentou.
“Precisamos de uma mudança séria nas políticas”
O Hamas, o movimento islâmico que controla a Faixa de Gaza, considera ser indiferente quem governa Israel. “Os palestinianos já assistiram a dezenas de Governos israelitas ao longo da história, de direita, esquerda, centro, como lhes chamam. Mas todos eles têm sido hostis quando se trata dos direitos do nosso povo palestiniano e todos eles têm políticas hostis de expansionismo”, afirmou o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem.

Sami Abou Shehadeh, líder do partido nacionalista palestiniano Balad, explicou à Al Jazeera que a questão não era a “personalidade” de Netanyahu, mas as políticas que Israel segue. “O que precisamos é de uma mudança séria nas políticas israelitas, não nas personalidades”, defende Abou Shehadeh. “A situação era muito má antes de Netanyahu e enquanto Israel insistir nas suas próprias políticas, continuará a ser má mesmo depois de Netanyahu. É por isso que nos opomos a este Governo”, acrescentou.


Hanan Ashrawi, ex-membro do comité executivo da OLP, escreveu na rede social Twitter que o fim da era de Netanyahu ainda contém “sistemas embutidos de racismo, extremismo, violência e ilegalidade”. “Os seus ex-companheiros irão manter o seu legado. Caberá às minorias progressivas desafiar e mudar esse legado”, defende Ashrawi.
Quem é Naftali Bennett e o que defende?
Bennett, proposto primeiro-ministro, é um ultranacionalista religioso e líder do partido de extrema-direita Yamina.

Bennett entrou para a política a partir de Netanyahu, tendo, depois, seguido um caminho independente em 2013, tornando-se líder do partido pró-colonos “Jewish Home”. Após uma fusão com outro partido, Bennett rebatizou o seu partido de “Yamina”, em 2019.

Poucos israelitas votaram no partido Yamina, de Bennett, nas eleições de março, conquistando apenas sete cadeiras em comparação com as 30 de Netanyahu. No entanto, o nacionalista de extrema-direita acabou por ser a peça crucial para a formação do Governo de coligação.

Em termos ideológicos, Bennett situa-se ainda mais à direita do que Netanyahu, sendo conhecido pelos seus comentários incendiários sobre os palestinianos. Enquanto antigo responsável da principal organização de colonatos israelitas na Cisjordânia, Bennett tem sido um forte defensor da anexação de partes da Cisjordânia que Israel ocupou na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Nas suas mais recentes declarações sobre este assunto, Bennett parece propor uma continuação da política de expansão dos colonatos, mas com uma “melhoria das condições” para os palestinianos. “A minha ideia neste contexto é diminuir o conflito. Não vamos conseguir resolver isso. Mas o que pudermos fazer para melhorar as condições – mais pontos de passagem, melhor qualidade de vida, mais negócios, mais indústria – faremos”, defendeu Bennett.

Em 2018, Bennett confessou que se fosse ministro da Defesa iria decretar uma política “disparar para matar” na fronteira com Gaza. “Eu não permitiria que terroristas cruzassem a fronteira com Gaza todos os dias… e se o fizerem, devemos disparar para matar. Terroristas de Gaza não devem entrar em Israel”, defendeu. Questionado pelo Times of Israel sobre se essa política se aplicaria a crianças palestinianas, Bennett respondeu: “Elas não são crianças, são terroristas. Estamos a iludir-nos”.

Sobre o mais recente conflito entre Israel e Hamas, que culminou com um cessar-fogo alcançado a 20 de maio, Bennett afirmou que os palestinianos poderiam ter transformado Gaza "num paraíso". “Eles decidiram transformá-lo num Estado terrorista”, disse o futuro primeiro-ministro à CNN no mês passado.

Dada a coligação de largo espectro político, continua a ser uma incógnita se Bennett conseguirá colocar em prática muitas das suas ideologias nos primeiros anos enquanto primeiro-ministro. O nacionalista de extrema-direita já deu a entender que o novo Governo dependerá muito de consensos partidários e cedências. "A esquerda está a fazer cedências difíceis para permitir que eu me torne primeiro-ministro", disse Bennett. "Todos terão de adiar a realização de alguns dos seus sonhos", afirmou.
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