Pandemia expande poderes dos `comités de bairro` na China
Todos os dias, Yang Zi tem que estar em casa antes da meia-noite, não por ordem dos pais, mas por ordem do Comité de Bairro, as organizações de base do Estado chinês cujos poderes expandiram-se durante a pandemia.
"Quando chego depois da meia-noite, o portão está trancado", descreve à agência Lusa a chinesa, de 25 anos. "Tenho que ficar em casa de uma amiga", conta.
As medidas de prevenção epidémica da China são as mais restritivas do mundo, ao abrigo da política de `zero casos` de covid-19. A estratégia inclui o isolamento de todos os casos positivos e contactos próximos, o bloqueio de bairros ou cidades inteiras e a realização de testes em massa, quando são detetados surtos.
Os Comités de Bairro foram criados como "organizações civis de base", na década de 1950, e constituem atualmente o nível mais baixo da burocracia chinesa, em que o Partido Comunista Chinês confia para difundir diretrizes e propaganda a nível local, e até mesmo para a resolução de disputas pessoais.
Benjamin Read, autor do livro "Roots of the State", define os comités como a "raiz do Estado chinês", enquanto organizações que se "aproximam da sociedade (...), sustentando o regime repressivo" da China.
A mobilização destas organizações como os "guardiões das comunidades" no combate da China contra a covid-19 resultaram em medidas arbitrárias, e muitas vezes contraditórias, face às diretrizes emitidas pelas autoridades de saúde.
No caso de Yang Zi, por exemplo, não existe qualquer diretriz que dite o encerramento de bairros dentro de um determinado horário. A Agência Lusa não conhece outro bairro em Pequim que adote uma medida semelhante.
A decisão de trancar os portões do bairro, entre a meia-noite e as seis da manhã, foi adotada pelo Comité de Bairro sem consultar os residentes, em maio passado, quando Pequim enfrentava um surto de covid-19 que causou algumas centenas de casos, e assim permaneceu, mesmo depois de a cidade ter retomado a normalidade.
Os comités tornaram-se alvo de fortes críticas, sobretudo durante o bloqueio altamente restritivo de Xangai, entre abril e junho.
Em alguns casos, moradores entraram em confrontos com funcionários que negaram o acesso a bens básicos, incluindo água potável, com a justificação de que pudessem transportar o vírus. Imagens de cães e gatos, cujos donos testaram positivo para a doença, a serem mortos por funcionários que temiam que também os animais de estimação estivessem infetados, chocaram a mais cosmopolita e moderna cidade da China.
No início de junho, mesmo após as autoridades terem anunciado a reabertura da cidade, alguns dos comités continuaram a proibir os moradores de saírem de casa.
"Senti-me sem esperanças", contou à agência Lusa uma residente na cidade, que esteve sob confinamento total durante 62 dias. "Um grupo de pessoas que nem sequer têm educação subitamente passou a ter o poder de decidir sobre a minha liberdade", resumiu, sob anonimato.
Esta semana, as autoridades da cidade de Cantão, no sudeste da China, pediram desculpa por terem forçado a entrada em casas particulares, à procura de contactos diretos de pacientes de covid-19 que pudessem estar escondidos.
Funcionários dos comités de bairro do distrito de Liwan arrombaram as fechaduras e entraram em 84 casas no dia 10 de julho, depois de contactos próximos de pacientes com covid-19 terem sido encontrados escondidos em casa, alguns dos quais testaram positivo mais tarde, segundo a imprensa estatal chinesa.
Para o jornal oficial do Partido Comunista Chinês Global Times, no entanto, é a "governação de base" oferecida pelos comités que "dá ao povo chinês um sentimento de pertença e segurança".
"O trabalho oportuno, cuidadoso e dedicado dos membros dos comités de bairro ajudou, sem dúvida, a que as medidas de quarentena fossem devidamente implementadas e a minimizar o movimento das pessoas, contendo efetivamente a propagação do vírus", enalteceu a jornalista Wang Wenwen, numa reportagem sobre estas organizações.