Para Luanda, o conflito de Cabinda há muito que está resolvido
Luanda, 03 ago (Lusa) - A Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC), a mais antiga organização independentista do enclave, completa domingo 50 anos, mas em Luanda há muito que o conflito está dado como resolvido.
Está dado como resolvido e ganho há pelo menos sete anos quando no Namibe, sul do país, foi assinado o Memorando de Entendimento para a Paz e Reconciliação na província de Cabinda, fruto das divisões entre as várias fações em que se dividiu a FLEC, exploradas pelo regime do Presidente angolano José Eduardo dos Santos.
Na ocasião, Roberto de Almeida, então presidente da Assembleia Nacional e que esteve presente no ato em representação de José Eduardo dos Santos, foi claro: "Desde abril de 2002 que apenas na província de Cabinda continuava a existir um conflito armado, superado pelo patriotismo, bom senso e a capacidade de diálogo de todas as partes envolvidas".
O ano de 2002 marcou o fim da guerra civil de mais de 30 anos, com curtas interrupções, entre a guerrilha da UNITA e as forças governamentais.
E a vitória alcançada em 2006 com o Memorando, foi reforçada cerca de quatro anos depois, quando uma das fações da FLEC emboscou perto da fronteira com a República do Congo a escolta militar da seleção do Togo, nas vésperas da Taça de África das Nações em futebol, organizada por Angola, provocando três mortos e seis feridos.
A partir daí, com o reforço policial e militar no enclave, a atividade da FLEC passou a ser pouco mais que residual e limitada às zonas perto das fronteiras com os dois Congos.
A progressiva normalidade não mais voltou a ser perturbada e, agora, as notícias que chegam de Cabinda falam da marcha realizada sexta-feira na principal cidade do enclave, para celebrar o sétimo aniversário da assinatura do Memorando, com a notícia da realização sexta-feira de uma marcha comemorativa do ato.
Sem relação com o conflito, e manifesto sinal da normalidade, a imprensa estatal angolana preencheu o noticiário sobre o enclave com a antecipação do "derby" local, entre o FC Clube e o Sporting de Cabinda, da 2ª divisão, que se disputa hoje, e a demissão de Miguel Banganga, treinador do primeiro daqueles clubes cabindas.
Entretanto, a par da progressiva irrelevância militar no terreno, a FLEC ia apresentando sucessivos apelos para negociações, a que Luanda nunca respondia em público.
A exceção foi em maio passado, quando o estatal Jornal de Angola em três dias publicou duas notícias sobre o conflito Cabinda: a primeira com destaque de primeira página e a segundo a merecer um editorial.
Em causa estava a mais recente oferta de diálogo da FLEC e, sobretudo, a formalização da desistência da luta armada, apelando a negociações para alcançar um estatuto autonómico para o território.
Para o Jornal de Angola, o anúncio da FLEC do histórico nacionalista Henriques Nzita Tiago, exilado há longos anos em França, representava "um passo importante no processo de reconciliação".
"É verdade que não é a primeira vez que Nzita Tiago e companheiros demonstram por palavras ou por escrito que pretendem optar pelo diálogo. Depois desistem. Apesar de todos os recuos, continuam a ter direito ao benefício da dúvida. E se estão interessados em alimentar a paz e a reconciliação nacional, todos os angolanos lhes estendem os braços e, se quiserem, até uma passadeira vermelha. A paz é um valor que merece todos os sacrifícios", lia-se no editorial.
Por seu turno, O deputado cabindense Raul Danda, líder parlamentar da UNITA em Angola, insiste no reforço do diálogo entre as partes.
"A UNITA defende uma solução para Cabinda através do diálogo (...) uma solução que dignifique os cabindas e que devia ser encontrada no quadro de uma negociação entre os cabindas e o poder instalado em Angola", afirmou.
O enclave de Cabinda tem sido palco desde a independência de Angola, em novembro de 1975, de uma luta pela independência, desencadeada ao longo dos anos por diferentes fações cabindas, restando atualmente somente a FLEC de Nzita Tiago como a única que ainda mantinha uma resistência armada residual à administração por parte de Luanda.
Separada de Angola pelo rio Congo, Cabinda possui significativos recursos naturais, em que as reservas petrolíferas representam cerca de metade da produção diária de quase 1,8 milhões de barris de petróleo angolanas.