Pesquisas revelam baixa qualidade do ensino primário em Moçambique
Aproximadamente 80 por cento dos alunos moçambicanos com quinto ano do ensino básico enfrentam "dificuldades" em resolver problemas fáceis e ler frases simples, segundo dois estudos realizados sobre o ensino no país.
As pesquisas, uma das quais compilada pelo Consórcio da África Austral para a Monitoria da Qualidade de Ensino (SACMEQ, sigla em inglês), apontam para uma preocupante baixa de qualidade dos alunos das escolas moçambicanas, particularmente os do primeiro ciclo do ensino (1º ao 5º ano anos) e do segundo ciclo (8º ao 10º ano de escolaridade).
Um dos estudos realizado pela SACMEQ em alguns países da região da África Austral e que incluiu Moçambique refere que "concluindo o primeiro ciclo do ensino primário, 74.6 por cento dos alunos apresentam grandes dificuldades na leitura de frases simples".
A pesquisa, citada num relatório do Ministério da Educação e Cultura (MEC) moçambicano sobre as actividades realizadas pelo sector durante o ano passado, indica também que os alunos do primeiro ciclo têm dificuldades enormes em escrever palavras e frases, bem como operações numéricas.
A outra pesquisa da autoria do Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação (INDE), entidade directamente subordinada ao MEC e que tem a função de elaborar, aplicar e fiscalizar os programas escolares, aponta que acima de 80 por cento dos alunos inquiridos sabem contar, contudo, enfrentam diversas dificuldades para resolver problemas simples de Matemática.
O director do INDE, Abel Assis, que referiu à Agência de Informação de Moçambique (AIM) parte do conteúdo do estudo afirmou que, ao terminar o primeiro ciclo do ensino básico, a maioria dos alunos domina vogais, mas têm "dificuldades enormes em ler frases simples".
Essas dificuldades resultam, supostamente, do sistema de passagens semi-automáticas, que permite que uma criança transite até ao quinto ano de escolaridade sem reprovar, aplicado nas escolas moçambicanas no âmbito do novo currículo escolar, introduzido em 2004.
Contudo, Assis minimizou os resultados do estudo, justificando que o mesmo teve como base uma amostra muito inferior ao universo de cerca de 10.000 escolas existentes no país, onde estudam pouco menos de cinco milhões de alunos.
Segundo o director do INDE, o problema não tem relação com as passagens semi-automáticas, uma vez que, com este sistema, o aluno pode repetir a classe caso o professor conclua que ele não está em condições de transitar para o nível seguinte.
Porém, o Secretário da Organização dos Professores Moçambicanos (ONP) para os Assuntos Internacionais, David Chinavane, considerou que a baixa qualidade dos alunos resulta do sistema de passagens semi-automáticas, associado à problemática de turmas superlotadas (, uma turma do ensino básico moçambicanas têm, em média, 72 alunos).
O novo currículo do ensino primário visa introduzir outros conteúdos e línguas locais, bem como reduzir as taxas de repetições dos alunos por via da sua passagem semi-automática em classes sem exames.
A propósito, Chinavane admitiu que alguns docentes ainda não estão completamente familiarizados com os vários aspectos preconizados pelo novo currículo, incluindo os conteúdos programáticos das cadeiras.
"Nem todos os professores estão habilitados para avaliar fielmente o aluno e trabalhar com base nas suas dificuldades na classe seguinte, como estipula o novo currículo. Em outros casos, os alunos separam-se dos seus professores nas classes seguintes, sendo difícil para outro professor conhecer devidamente as lacunas (do aluno)", explicou.
Para Chinavane, o aumento de número de alunos é acompanhado do ingresso de docentes recém formados, dos quais não se pode esperar uma melhor prestação logo no início da sua carreira.
Entretanto, tanto o director do INDE como o representante da ONP acreditam que a resolução deste problema passa pela formação adequada dos professores, baseada nos conteúdos programáticos do novo currículo.
"Se nós conseguirmos alterar os métodos de aprendizagem na formação de professores podemos melhorar a situação. Os professores que leccionam nas escolas são antigos, com uma visão também antiga e não é fácil mudar práticas enraizadas", disse Assis.
O director do INDE defendeu aulas mais interactivas, onde o professor não seja o único a falar na sala de aulas, mas um mediador, que privilegia o método participativo durante as suas aulas, para permitir que os alunos aprendam também com os seus próprios colegas.
A ONP refere, no entanto, que esse método não está a surtir efeitos nas zonas rurais, já que, em muitos casos, devido à carências de vária ordem, os alunos são meros receptores de conhecimentos, não tendo o domínio até do Português, a língua oficial em Moçambique.
Exemplificado, Chinavane referiu que, "enquanto o aluno das cidades vai à escola tendo noções da balança, televisão e alguns conhecimentos da língua portuguesa, o das zonas rurais muitas vezes descobre a existência destes instrumentos na escola".
Dados do MEC sobre a aplicação do novo currículo aponta para taxas de aprovação actuais acima dos 80 por cento, contra os 65 por cento do anterior programa, indicou Assis, destacando que o maior sucesso alcançado foi a redução das taxas de repetições.