Plano anti-poluição para Nova Iorque necessário mas já controverso
Reacções mitigadas acolheram segunda-feira as propostas do presidente da Câmara de Nova Iorque para reduzir a poluição na cidade, vistas como necessárias, mas já polémicas para alguns como a taxa "anti-congestionamento" sobre a entrada de veículos.
Michael Bloomberg apresentou domingo, "Dia da Terra", um vasto plano para uma Nova Iorque maior e mais verde" que prevê nomeadamente plantar um milhão de árvores até 2017 (250 mil ao longo das estradas).
O plano inclui uma renovação dos transportes públicos que custará 50 mil milhões de dólares - dos quais, avisa Bloomberg, vão faltar 30 mil milhões.
Propôs também impor uma taxa de oito dólares para os veículos (21 dólares para os camiões) que circulem em Manhattan, abaixo das ruas 86 ou 96 (ainda não foi definido) entre as 06:00 e as 18:00.
A taxa incluiria as portagens já existentes nos túneis e pontes de acesso à cidade, que presentemente são de seis dólares, e uma aplicação bastante complicada.
Como o objectivo é retirar automóveis da parte baixa de Manhattan, a taxa não seria aplicada, por exemplo, a veículos vindos de Nova Jersei ou de Brooklyn que utilizassem as duas estradas de escoamento de Manhattan, a FDR Drive e a West Side Highway para se dirigirem a zonas situadas acima da Rua 96.
Os táxis serão isentos e os residentes terão direito a um tratamento especial, disse Bloomberg, acrescentando que a medida afectará apenas 5 por cento das pessoas que trabalham na ilha de Manhattan.
A medida aplicar-se-á primeiro num período experimental de três anos.
Inclui uma proposta de criação de descontos para as pessoas que vivem e trabalham na zona abrangida.
O objectivo das 127 medidas é reduzir em 30 por cento as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, enriquecer os parques, e sanear os rios.
"Para mantermos Nova Iorque como a cidade que amamos e possibilitar o seu crescimento para acomodar uma população que está em crescimento, temos que fazer alguns investimentos imediatamente. A cidade vai acrescentar mais de um milhão de pessoas à sua população até 2030, pondo ainda maior pressão sobre a nossa qualidade de vida", disse o presidente da Câmara num discurso no Museu de História Natural.
"Eu próprio estava céptico. Mas olhei os factos, e é isso que eu peço aos nova-iorquinos para fazerem", acrescentou o autarca. "Nas cidades como Londres e Singapura, as portagens conseguiram reduzir o tráfego e melhorar a qualidade do ar".
Paul Steely White, director executivo da Transportation Alternatives, grupo de pressão que apoia a proposta de taxa anti-congestionamento, diz que "com menos carros nas nossas ruas, poderemos reprogramar o espaço das ruas com mais corredores bus, passeios mais largos, corredores para bicicletas e ruas do século XXI, que serão mais limpas, amigas do ambiente e eficientes".
Por isso, o plano prevê a adopção de várias medidas fiscais e de incentivo à construção de pelo menos mais 250 mil fogos nos próximos 20 anos.
A município considera que se essa parte do plano puder ser concretizada, ajudará a aliviar a pressão da falta de espaço em relação à procura imobiliária que actualmente faz com que a cidade de Nova Iorque continue a manter preços recordes, embora no resto do país se assista a um arrefecimento dos preços.
Para a secretária dos Transportes norte-americana, Mary Peters, "este plano é o género de reflexão corajosa que os dirigentes em todo o país devem empreender", reagiu segunda-feira.
Em Nova Iorque, a maioria dos comentadores reconhecia a urgência das medidas, mas já a famosa taxa levantava celeuma.
"Esta iniciativa a favor de uma taxa do tráfego era esperada há muito tempo. Mas isso vai suscitar muita oposição", salientava o New York Times. "A tarifa de oito dólares poderá gerar mais de 500 milhões de dólares por ano", estima o presidente da Câmara. "É uma boa maneira de ganhar dinheiro", acrescenta.
"Uma tarifa injusta?" interrogava-se Newsday, o diário de Long Island, onde multidões transitam todos os dias para Nova Iorque. "Basta, matam-nos com impostos", salientava o parlamentar da região Charles Fuschillo, enquanto outros eleitos aprovavam a medida. Para o New York Post, os oito dólares são "uma enorme carga, a que se somam as outras taxas e cotizações já esmagadoras".
O plano da cidade para combater a poluição e a produção de gases com efeito de estufa prevê ainda reabilitar 3.000 hectares de terrenos industriais abandonados. Para reduzir a despesa energética, propõe suprimir as taxas nova-iorquinas sobre os carros híbridos, e aumentar em 2,5 dólares por mês as facturas de electricidade para financiar os investimentos.
Muitas destas propostas terão ainda de ser votadas pelos parlamentares do Estado.
Para o New York Daily News, esta vasta iniciativa poderá muito bem ser o sinal de ambições presidenciais por parte de Bloomberg, o que o interessado sempre negou.
"As alterações climáticas são um desafio nacional" insistiu. "Não esperaremos por Washington. É preciso agir agora".
Nova Iorque está desde há anos na vanguarda das políticas de saúde pública. A cidade acolhe a 14 de Maio uma cimeira mundial dos presidentes de Câmara sobre o clima.