Plataforma 65 preocupada com eventual alojamento de comunidade cigana no bairro do Lagarteiro
A Plataforma Artigo 65 anunciou que a Câmara do Porto vai despejar cerca de 100 moradores do Bairro do Lagarteiro, local onde a comunidade cigana do Bacelo deverá ser realojada e "mal recebida".
Em declarações à agência Lusa, Jorge Pereira, da Plataforma Artigo 65, considerou "ser perigoso" proceder ao realojamento da comunidade cigana e ao despejo de moradores do Lagarteiro, em simultâneo.
A Plataforma 65, constituída por cidadãos e associações de moradores, (de todo o país, embora maioritariamente de Lisboa), bem como pelo SOS-Racismo e a Solidariedade Imigrante, luta pelo cumprimento do artigo 65 da Constituição Portuguesa que defende que "todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação condigna".
A Plataforma teve conhecimento que a Câmara do Porto se prepara para disponibilizar habitações do Bairro Lagarteiro para realojar as 46 pessoas, todas de etnia cigana, que moravam nas barracas da Rua do Bacelo.
"Simultaneamente, a Câmara do Porto deu, sexta-feira, ordem de despejo a cerca de 100 moradores do Lagarteiro", afirmou Jorge Pereira.
O responsável da Plataforma 65 sustentou que "esta situação está a criar mau ambiente" naquele bairro.
Segundo salientou, alguns moradores do Lagarteiro já ouviram falar que a comunidade cigana vai para lá e não aceitam "sair para dar as suas casas aos ciganos".
"Tememos que a comunidade cigana seja muito mal recebida no Lagarteiro", frisou.
Para a Plataforma Artigo 65, a autarquia do Porto deve "dar formação aos moradores do Lagarteiro ou apresentar previamente a comunidade cigana àquelas pessoas para que o realojamento decorra sem problemas".
"Os moradores do Lagarteiro pensam que [o motivo dos despejos] é culpa dos ciganos", frisou Jorge Pereira, contando que habitantes daquele bairro social já vêem a comunidade cigana como uma ameaça.
A comunidade cigana foi despejada das barracas da Rua do Bacelo a 27 de Março, tendo a Câmara do Porto assumido o compromisso de a realojar, em habitações sociais, após 60 dias de estadia provisória em pensões.
O prazo termina este fim-de-semana e a comunidade cigana desconhece ainda para onde vai viver.
"A câmara ainda não nos disse nada, é tudo um mistério muito grande", afirmou à Lusa uma representante da comunidade cigana do Bacelo.
Adiantou, contudo, que corre o boato de que as 46 pessoas poderão ser realojadas nos bairros do Lagarteiro ou do Cerco.
"Não nos agrada nada nenhum dos dois bairros", confessou a moradora do Bacelo.
"Aqueles bairros não nos são favoráveis por várias razões, entre elas por pessoas que moram lá", disse.
Referiu ainda que a comunidade cigana "já avisou a Câmara do Porto de que poderá haver problemas" com moradores caso se confirme o realojamento no Bairro do Lagarteiro.
"Se tiver que ser, se a câmara não nos der alternativa, teremos que ir para o Lagarteiro, mas há pessoal que não nos quer lá e pode haver problemas", frisou.
Adiantou ainda que crianças da comunidade foram segunda-feira ameaçadas na escola por outros miúdos.
"Dizem-nos que receberam ameaças de miúdos do Lagarteiro", acrescentou.
Sustentou também que a comunidade cigana do Bacelo "é pacífica e não quer problemas com ninguém".
A Agência Lusa contactou um representante do bairro do Lagarteiro, que preferiu, no entanto, não fazer comentários à situação.
Também não surtiram quaisquer resultados, até ao momento, os contactos efectuados com a Cãmara do Porto para obter um ponto da situação, da vereadora com o pelouro da Habitação da autarquia, sob o realojamento da comunidade cigana do Bacelo.