Polónia. Participação em massa nas eleições forçou a mudança

Polónia. Participação em massa nas eleições forçou a mudança

Uma participação em massa, possivelmente recorde, forçou no domingo a mudança política na Polónia, após oito anos no poder dos conservadores populistas do Lei e Justiça (PiS), cuja vitória nas legislativas não deverá evitar uma "geringonça polaca".

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Donald Tusk poderá ser chamado a constituir uma "geringonça" polaca EPA

À hora de encerramento das assembleias de voto, às 20h00 de domingo em Lisboa, a dimensão de filas de eleitores, muitos dos quais jovens, à espera de votar não diminuía em Varsóvia e noutras grandes cidades, pelo contrário, parecia crescer para lá da hora limite, sinalizando uma mobilização a exigir alternância.

As projeções apontam para uma participação nas legislativas de 73% dos cerca de 30 milhões de polacos recenseados, o que deverá constituir um recorde no país, e muito acima dos 61,7% registados em 2019, ano em que o PiS revalidou o seu domínio.

Enquanto os eleitores enfrentavam um vento gelado na gradação térmica do outono polaco, já noite cerrada, os líderes das maiores forças políticas não perderam tempo e reagiram de imediato às sondagens à boca das urnas.

Às 21h00 na Polónia em ponto, o antigo primeiro-ministro e ex-presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, surgiu de sorriso rasgado junto dos seus pares, que gritavam o seu nome no Museu Nacional de Etnografia, a clamar vitória, apesar de a sua coligação, Plataforma Cívica (PO), ter ficado em segundo lugar nas projeções divulgadas pela tvn24 e preparadas pela Ipsos, com 31,6% e 163 mandatos num total de 460 lugares no parlamento, abaixo dos 36,8% do PiS e 200 assentos.

"A Polónia venceu. A democracia venceu. Nós expulsámo-los do poder", afirmou um emocionado Tusk aos apoiantes liberais progressistas e restantes candidatos, quase todos de camisa branca e coração vermelho ao peito, símbolo da força partidária.

"Sei que os nossos sonhos eram ainda mais ambiciosos. Estou na política há muito tempo. Nunca fui tão feliz em toda a minha vida", afirmou o antigo primeiro-ministro polaco e ex-presidente do Conselho Europeu, acrescentando: "Há um ano ninguém acreditava. Há três meses não tínhamos certezas".

O ambiente de euforia era alargado aos partidos emergentes -- Terceira Via e Lewica (Esquerda) -, que, com 13% e 55 mandatos e 8,6% e 30 lugares respetivamente nas projeções, foram os outros vencedores e que, unidos à PO, deverão alcançar a maioria parlamentar.

Sentimentos opostos

Em cinco minutos históricos na história democrática da Polónia, o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki (ex-conselheiro de Tusk no Governo antes de mudar de lado), escrevia na rede social X que o "Lei e Justiça é o vencedor das eleições parlamentares de 2023", mas, tal como todos os dirigentes políticos, estava a par da evolução dos dados da participação e das sondagens, sendo incapaz de esconder uma expressão de desencanto.

Ao mesmo tempo, o líder do seu partido, o dirigente histórico Jaroslaw Kaczynski também exortava em clima patriótico os seus apoiantes de bandeiras polacas em punho a celebrarem a vitória nas legislativas, entre aplausos ruidosos que soavam a despedida.

"É a nossa quarta vitória numa eleição parlamentar e a terceira consecutiva. É um grande sucesso para o nosso partido e para o nosso projeto para a Polónia", declarou Kaczynski.

"A questão que permanece é se este sucesso se refletirá num novo governo nosso e ainda não sabemos, mas devemos ter esperança e saber que, quer estejamos no poder ou na oposição, defenderemos este projeto de qualquer forma que quisermos", proclamou o dirigente histórico dos conservadores populistas, repetindo a ideia deixada ao longo da campanha de que o partido não permitirá "traições à Polónia, nem que a Polónia perca o que há de mais valioso na nação, a sua independência".

Numa noite de vencidos sem o ser e de derrotados não assumidos, PO, Terceira Via e Lewica celebravam também a fraca prestação dos ultranacionalistas radicais da Confederação (extrema-direita), que não foram além dos 6,2% nas projeções, após as primeiras sondagens eleitorais os situarem acima dos 12%, e cujos 12 mandatos serão insuficientes para oferecer uma solução governativa ao PiS.

A noite de domingo marca o fim de uma prova de fundo numas eleições que muitos analistas consideram as mais importantes desde 1989 e do regime comunista, e também as mais polarizadas, incertas e agressivas, em que, de um lado, o partido no poder usou uma discurso de defesa da pátria contra os traidores vendidos a Bruxelas e Berlim, ou mesmo a Moscovo em plena guerra na Ucrânia, e, do outro, se propunha um travão na retórica antieuropeia e um apelo para se salvar a democracia enquanto era tempo.

Aparentemente, foi o segundo que triunfou e o desejo de mudança expressava-se de forma aberta por vários eleitores à porta do Liceu LXXXIII, indicando a consciência de um dia decisivo para o que o país quer ser nos próximos anos.

Findas as eleições, o dia de hoje (segunda-feira) deverá marcar o começo de uma maratona negocial, de forma a garantir que os resultados obtidos pela oposição se convertam em solução governativa a apresentar ao presidente, Andrzej Duda, proveniente do PiS.

 

 

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