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Portugal considera muito grave suspeita de que Hungria relate reuniões da UE à Rússia

Portugal considera muito grave suspeita de que Hungria relate reuniões da UE à Rússia

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, considerou hoje "muito grave" a "suspeita forte" de que o chefe da diplomacia húngaro relate ao homólogo russo o conteúdo de reuniões da União Europeia (UE).

Lusa /
Marcos Borga - Lusa

"O facto de haver esta suspeita forte de que há relatos do que se passa dentro do Conselho de ministros dos Negócios Estrangeiros para fora, ainda por cima para uma potência que é uma potência agressora e com a qual as relações são muito más, evidentemente é muito grave", afirmou o chefe da diplomacia portuguesa durante uma audição na comissão parlamentar de Assuntos Europeus.

Rangel respondia a uma pergunta do deputado do Livre Rui Tavares, que questionou se o Governo português vai confrontar o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, que admitiu contactos com o ministro russo, Serguei Lavrov, sobre o conteúdo de reuniões da UE.

Rangel considerou que "não é censurável, em si, que um ministro de um governo europeu fale com um ministro da Federação Russa", exemplificando vários contactos de dirigentes europeus com responsáveis de países como o Irão ou Iraque.

"Toda a gente fala com toda a gente, portanto, não é tanto isso. Agora, é verdade que há um padrão de cumplicidade entre a Hungria e a Federação Russa, que é evidente e que tem a ver também com a questão da dependência energética da Rússia", comentou.

Sobre o oleoduto Druzhba, que atravessa a Ucrânia e abastece a Hungria e a Eslováquia com petróleo russo, Rangel afirmou que estes dois países podem abastecer-se através da Croácia.

Desde final de janeiro que o fornecimento através do Druzhba está interrompido, devido a danos causados por um ataque russo em território ucraniano, o que o Governo húngaro de Viktor Orbán, próximo do Presidente russo, Vladimir Putin, tem invocado para vetar o 20.º pacote de sanções à Rússia e um empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, anteriormente aprovados.

"Condenamos a inflexibilidade húngara quanto à questão ucraniana", salientou Rangel.

"Nós censuramos largamente e eu tenho-o feito diretamente cara a cara", insistiu, referindo-se a uma "troca de impressões, para dizer o mínimo" com o ministro húngaro num Conselho de Negócios Estrangeiros que ficou conhecido como o "argumento Rangel".

Rui Tavares comentou que "o ministro húngaro está a dizer que aquela é uma chamada normal no quadro de diálogos normais com ministros de Negócios Estrangeiros de outros países", mas Serguei Lavrov "não é um ministro de um país qualquer, é de um país que está sancionado pela União Europeia e que está envolvido numa guerra existencial".

"Temos um veto russo dentro do Conselho Europeu", criticou o antigo eurodeputado, que considerou que Budapeste faz uma "violação clara" do artigo 4.º da União Europeia, que "obriga a uma cooperação leal e sincera".

O deputado do Livre argumentou que "qualquer Estado-membro tem o direito a queixar-se junto do Tribunal de Justiça da UE" e desafiou o Governo português "a inovar", já que "está a liderar sobre este tema, e muito bem".

Na resposta, Rangel sublinhou que "há um espaço para a política".

Sobre os sucessivos bloqueios impostos por Budapeste, Rangel estimou que "a pressão sobre a Hungria vai aumentar".

"Espera-se um desenlace nas eleições, julgo que haverá condições para viabilizar mudanças", admitiu, referindo-se às eleições legislativas húngaras, marcadas para 12 de abril, e nas quais Viktor Orbán, no poder há 16 anos, poderá ser derrotado pelo conservador Péter Magyar, segundo a maioria das sondagens.

Na semana passada, o jornal norte-americano The Washington Post tinha noticiado contactos frequentes entre Szijjártó e Lavrov durante pausas nas reuniões do Conselho Europeu, onde normalmente se discutem as medidas da UE contra a Rússia pela invasão da Ucrânia.

Além disso, o ministro húngaro confirmou que coordena "antes e depois das reuniões dos ministros dos Negócios Estrangeiros sobre as decisões tomadas ou a serem tomadas com pessoas importantes para os interesses húngaros".

Um consórcio de meios de comunicação social da Europa de Leste, incluindo The Insider, VSquare e Delfi, noticiou na terça-feira que Szijjártó forneceu ao chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, "informações estratégicas sobre questões cruciais" numa "linha direta".

"Estou ao seu dispor", terá dito Szijjártó a Lavrov, segundo o artigo publicado.

Em particular, prometeu apoiar esforços para remover a irmã do bilionário russo Alisher Usmanov, um associado próximo do Presidente russo, Vladimir Putin, da lista negra europeia.

Mas também pediu aos interlocutores russos que lhe dessem argumentos para defender, em Bruxelas, o levantamento de certas sanções impostas a Moscovo após a invasão da Ucrânia.

Na sequência desta publicação, Szijjártó denunciou "um escândalo muito grande", criticando "a interceção" de chamadas suas "por serviços secretos estrangeiros, que as tornaram públicas", "no interesse da Ucrânia".

 

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