PR Lula defende actuação Polícia no combate à corrupção que envolve políticos
O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu hoje a actuação da Polícia Federal em operações de combate à corrupção, numa altura em que conhecidos políticos, juízes e empresários se encontram sob investigação.
No seu programa semana de rádio "Café com o Presidente", Lula da Silva salientou a importância de a Polícia Federal ter "independência" necessária para investigar "quem quer que seja".
"Não há nenhuma necessidade de impedir que a Polícia Federal exerça sua função de Polícia Federal, como não há nenhum interesse do governo em impedir que o Ministério Público utilize o poder que tem para investigar", disse.
A defesa da actuação da Polícia decorre depois que um intenso debate público contra a autorização, por parte do Poder Judiciário, de prisões temporárias de suspeitos por agentes federais em grandes operações.
A mais recente delas - a Operação Navalha - levou à detenção temporária de 47 políticos famosos, empresários e funcionários públicos, suspeitos de participar num esquema milionário de fraudes em obras públicas.
A prisão temporária tem o objectivo, segundo a Polícia Federal, de evitar que os envolvidos em esquemas de corrupção possam destruir provas, coagir testemunhas e preparar depoimentos que prejudiquem as investigações.
Entre o total de detidos na Operação Navalhas, 39 já foram ouvidos pelo Superior Tribunal de Justiça (STF), em Brasília, e libertados, como o ex-governador do Maranhão José Reinaldo Tavares.
Ainda está detido, entre outros, o proprietário da construtora Gautama, Zuleido Veras, o principal suspeito de ser o responsável pela distribuição dos subornos entre os políticos envolvidos.
A prisão temporária tem sido adoptada pela Polícia Federal em operações anteriores, como a Furacão, quando foram detidos, em Abril, suspeitos de participar num esquema de exploração ilegal de jogos e branqueamento de capitais.
Entre os detidos da Furacão encontram-se dois portugueses, um dos quais tinha sido indigitado cônsul honorário de Portugal na localidade brasileira de Cabo Frio.
A diferença da Operação Navalha, entretanto, é que as investigações envolveram altas autoridades do Congresso Nacional e do governo do presidente Lula da Silva, como o ministro das Minas e Energias.
Silas Rondeau pediu demissão do cargo, na semana passada, depois da Polícia ter apresentado imagens do serviço de segurança do próprio Ministério que mostram a entrada de uma emissária da quadrilha com um pacote, supostamente com 38,5 mil euros, para pagar o suborno ao ministro.
No Congresso Nacional, o principal alvo é o actual presidente do Senado, senador Renan Calheiros, que teria intercedido em favor do esquema ilegal de desvio de verbas públicas, nomeadamente no seu estado, Alagoas, no nordeste brasileiro.
Renan Calheiros, que nega todas as acusações, teria recebido recompensas da empresa de construção Mendes Júnior, segundo noticiou a revista Veja.
Mendes Júnior, uma das mais importantes empresas de construção do país, teria pago, através de um intermediário, a renda de um apartamento para Calheiros em Brasília, e uma pensão mensal de cerca de 4.500 euros para o seu filho de três anos.
Outros citados pelas investigações da Operação Navalha são os governadores dos estados da Baía, Maranhão, Sergipe, Piauí, prefeitos e pelo menos dois deputados.
Outro senador citado é Delcídio Amaral, do estado do Mato Grosso do Sul, um dos políticos de maior destaque do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula da Silva.
O senador viajou num jacto executivo do proprietário da Gautama de Campo Grande para o interior do estado de São Paulo, no mês passado, segundo as investigações policiais.
Delcídio Amaral negou o envolvimento no esquema milionário de desvio de recursos e, depois de revelado o escândalo, pagou cerca de 9.230 euros pelo aluguer do jacto executivo à empresa Gautama.
Delcídio teve um papel de destaque nas investigações do maior escândalo político do primeiro mandato de Lula da Silva, que ficou conhecido como "Mensalão".
As investigações policiais da Operação Navalha revelaram igualmente uma lista de cerca de 100 políticos que receberam presentes da Gautama, desde garrafas de bebidas importadas, até passagens aéreas, gravatas e canetas de marcas famosas.
Agentes policiais estão a analisar se a empresa envolvida recebeu em troca desses presentes algum tipo de favor por parte dos políticos beneficiados.
Gravações obtidas pela Polícia Federal revelaram também que os envolvidos no esquema milionário preparavam-se para lesar o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).
Lançado recentemente pelo presidente Lula da Silva, o PAC prevê investimentos maioritariamente públicos de 193,4 mil milhões de euros em obras de infra-estruturas até 2010.
Nos últimos seis anos, a quadrilha teria recebido cerca de 103 milhões de reais (39 milhões de euros) de recursos públicos para realizar obras que nunca foram construídas.