Presidente da Argentina intensifica insultos a jornalistas
A tensão entre o Presidente argentino, Javier Milei, e os jornalistas tem vindo a escalar, com o chefe de Estado a chamar "lixo repugnante", "assassinos com microfone", "mentirosos", "delinquentes" ou "corruptos" a profissionais e meios de comunicação.
A ofensiva presidencial tem como principal palco a rede social X, na qual Milei amplifica mensagens contra jornalistas críticos e onde lançou um dos seus slogans mais controversos: "Não odiamos os jornalistas o suficiente".
A diretora adjunta da Amnistia Internacional Argentina, Paula García Rey, denunciou numa entrevista à EFE que o presidente usa a rede social X como plataforma para "`marcar como alvo` e atacar jornalistas", e gera um clima hostil que afeta o exercício da profissão e favorece a autocensura.
Embora, desde que chegou ao poder, Milei não tenha parado de insultar os jornalistas, nas últimas semanas multiplicou as suas publicações e partilhas com ofensas, muitas vezes citando nomes e apelidos.
Um desses casos é o de Luciana Geuna, do canal de televisão Todo Noticias (Grupo Clarín), a quem chamou de "lixo mentiroso" e acusou criminalmente depois de a jornalista ter mostrado no seu programa imagens do interior da Casa Rosada, a sede do Governo argentino.
No meio dessa polémica, o presidente intensificou as suas críticas à comunicação social, afirmando que 95% do jornalismo "é lixo" e encerrou a sala de imprensa da sede do Executivo durante 11 dias.
"O lixo imundo que se autodenomina jornalista (95%) parece ignorar sempre o princípio de ação e reação. Cometeram um crime e não é o único. Consideram-se acima da lei e da Constituição", escreveu Milei numa das mensagens na rede social X dirigidas a Geuna e à sua equipa, por considerar que aquela reportagem ameaçava a segurança da Casa Rosada.
Numa publicação mais recente, insultou Viviana Canosa, do Canal 9, e Mauro Federico, que trabalha em vários meios de comunicação e investigou supostos sobrepreços na compra de medicamentos e consumíveis para pessoas com deficiência por parte do Governo.
A última acusação direta ocorreu a 14 de maio, quando o presidente apontou o dedo a Débora Plager, do canal La Nación+, durante uma entrevista que lhe foi feita no canal de streaming Carajo. Nessa ocasião, Milei acusou a jornalista de ser "cúmplice de homicídio" por ter apoiado publicamente o aborto livre na Argentina, legal desde 2021.
A consultora argentina Zonda analisou as declarações de Milei nessa entrevista e noutra que concedeu a seguir, nessa mesma noite, no Neura, outro canal de `streaming` favorável ao Governo, e constatou que o Presidente argentino proferiu "73 insultos e agressões verbais" entre as duas entrevistas e as publicações que escreveu posteriormente, na madrugada de 15 de maio.
O Fórum de Jornalismo Argentino (FOPEA) alertou que o uso do insulto se tornou uma estratégia política de Milei no X e detetou um padrão sistemático de desqualificações contra jornalistas: mais de 113.000 publicações da conta presidencial entre dezembro de 2023 e setembro de 2025.
O estudo realizado pela FOPEA, uma associação que zela pela liberdade de imprensa na Argentina, revela que 70% das publicações dirigidas a profissionais do meio de comunicação contêm termos "pejorativos ou estigmatizantes" e que as redes sociais se tornaram uma ferramenta de assédio permanente contra as vozes críticas.
Para as organizações de jornalistas e de direitos humanos, o uso sistemático de insultos contra a imprensa na Argentina excede a confrontação política tradicional.
García Rey, da Amnistia Internacional, afirmou que existe "quase uma receita de práticas autoritárias aplicada à Argentina".
Na mesma linha, o presidente da FOPEA, Fernando Stanich, declarou à agência EFE que "o problema não é apenas a crítica presidencial, mas o insulto por parte da máxima autoridade do país, amplificado por uma militância digital disposta a reforçar essa mensagem de ódio contra os jornalistas".
De acordo com o último relatório anual sobre a liberdade de expressão desta organização, Javier Milei foi responsável por 85% dos casos de "discurso estigmatizante" contra jornalistas registados em 2025, ano em que se registou o número mais elevado (728) desde o início das investigações da FOPEA em 2006.
Tanto a Amnistia Internacional como a FOPEA alertaram também para um aumento da intimidação judicial contra jornalistas, agressões durante a cobertura de rua e ataques de milícias digitais.
"A Argentina tinha sido historicamente um farol na região no que diz respeito à liberdade de expressão. Hoje estamos a dar passos gigantescos para trás", afirmou García Rey.