Pressão sobre o mar ameaça comunidades e ecossistema reclama no sul de Moçambique
A canoa de Patrício Manuel, 35 anos, está atracada há dias na praia de Chibuene, no distrito de Vilanculos, porque "já não faz sentido fazer-se ao mar no meio de uma maré de azar": não há pescado.
"Já não há peixes aqui e nós não temos nada para comer", lamenta o jovem pescador, sentado ao pé do seu barco na praia de Chibuene, a pouco mais de cinco quilómetros da sede do distrito de Vilanculos, na província de Inhambane, sul de Moçambique.
Patrício é um entre os milhares que dependem do mar para sobreviver em Vilanculos, num paradoxo em que a miséria das populações mistura-se com o espetáculo natural oferecido pelas praias deste famoso destino turístico no sul de Moçambique.
"O mar é a nossa vida", acrescenta o jovem pescador, que nasceu e cresceu em Chibuene, quase sempre no limiar da pobreza, embora a natureza nunca o tenha deixado, aos seus seis filhos e à esposa sem comida na mesa.
A maior parte da população recorre à pesca para sobrevivência neste distrito de enorme potencial turístico, principalmente num momento em que o setor se ressente do impacto da covid-19.
"Este é um local turístico, mas agora, com o coronavírus, não há turismo. Sem turismo, a pesca é a única alternativa para muitos", conta à Lusa Orlando Pedro, 25 anos, um vendedor de mariscos em Chibuene.
A pressão sobre esta mesma natureza, aliada ao recurso às técnicas de pesca nocivas, como as "redes de arrasto", começa a ameaçar a própria comunidade, com sinais evidentes no próprio ecossistema.
As autoridades admitem a existência de espécies marinhas ameaçadas com a pressão dos pescadores, que agora pescam para comer e para vender.
"Eu nasci aqui há muito e sou pescador há anos. Nós tínhamos muito peixe no tempo passado, agora não temos nada. Tenho filhos [seis] que estão a sofrer porque também não tem trabalho", conta Francisco Lopes, outro pescador de Chibuene.
Embora cientes do dilema de quem precisa do mar para sobreviver, as autoridades decidiram decretar períodos de veda que variam entre três e cinco meses, uma medida que visa evitar a extinção de algumas espécies e garantir a reprodução do pescado.
"A questão do ecossistema marinho não é só um desafio de Inhambane, é um desafio global", explica o governador da província, Daniel Chapo, quando questionado pela Lusa sobre a situação dos pescadores artesanais.
Para Daniel Chapo, este é um dos vários desafios que fez com que Inhambane fosse escolhida para acolher a 2.ª edição da Conferência Internacional "Crescendo Azul", um encontro que tem lugar entre hoje e sexta-feira em Chibuene.
"Esta conferência é importante mesmo para debater este tema", frisou o governador de Inhambane, província responsável por 60% do turismo em Moçambique.
A 2.ª edição da Conferência Internacional "Crescendo Azul", subordinada ao lema "Investir na saúde do oceano é investir no futuro do planeta", será dirigida hoje pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e contará com a presença do chefe de Estado do Quénia, Uhuru Kenyatta, e Ricardo Serrão Santos, ministro do Mar de Portugal, além de vários outros governantes de países parceiros de Moçambique.