Primeiro "astronauta análogo" moçambicano quer levar talento e país à NASA
Ao unir espaço e arquitetura, Fernando Cavele tornou-se, aos 25 anos, no primeiro moçambicano com o título de "astronauta análogo", simulando em terra missões espaciais, sonhando levar o talento e Moçambique à agência espacial norte-americana NASA.
"O desejo de ingressar pela área de exploração espacial começa exatamente em 2019, quando começo a pesquisar sobre astronomia e de igual modo conheço um professor, que por acaso foi um professor de física, em que numa das aulas foi falando dessa relação entre astronomia e arquitetura", explica à Lusa o jovem arquiteto, na sua residência, em Maputo, que também serve de oficina criativa.
Com referências que se cruzam dentro e fora da sala de aula, Fernando encontrou no diálogo entre a ciência académica e a curiosidade pessoal a revelação de que o estudo do universo podia juntar-se ao desenho dos espaços habitáveis, levando-o a explorar a astronomia como uma extensão natural da arquitetura que começava a aprender.
"A partir daí, comecei a aprofundar mais os conhecimentos sobre astronomia, mas na vertente de tentar trazer esse conhecimento ligado à área da arquitetura, que era o curso que eu estava a começar a fazer em 2019", conta Fernando Cavele, no quarto onde esboços de projetos arquitetónicos convivem com plantas rabiscadas e partituras musicais, num espaço íntimo onde ciência, arte e imaginação se cruzam diariamente.
Com a primeira referência em nomes internacionais como Elon Musk, Fernando diz construir também o seu percurso a partir de influências próximas, encontrando em Moçambique figuras que lhe deram incentivo e orientação nos primeiros passos ligados à astronomia e à exploração espacial, como Edson Jackson, fundador do primeiro clube de astronomia do país.
"Portanto, são essas pessoas até este momento. Mas inspira-me a forma como a SpaceX também nasceu, a própria NASA [Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, na sigla inglesa], que é uma agência que almejo chegar lá, como um trabalhador e um técnico que trabalha lá na NASA, como arquiteto espacial", relata.
O jovem admite que, desde que decidiu olhar para o céu como um projeto possível e alcançável, viu-se num terreno marcado por recusas, entraves institucionais e dificuldades de acesso a informação para concretizar ideias e projetos: "Passei por muitas dificuldades, turbulências e até negações institucionais ao longo do caminho".
O percurso de Fernando foi feito de persistência e tentativas falhadas, até que, em 2025, surgiu o primeiro sinal claro de reconhecimento externo, quando o jovem arquiteto decidiu submeter, a concurso, uma pesquisa que desenvolvia na área da ciência de materiais, que logo foi aprovada, entre vários candidatos internacionais, para uma conferência realizada na Índia.
"Acreditaram em mim, convidaram-me e financiaram toda a participação. Fui um dos mais novos naquela bancada", salienta.
Um astronauta análogo realiza atividades de simulação espacial na terra, recriando condições, ambientes e desafios semelhantes aos que seriam encontrados numa missão espacial real, como em Marte ou na Lua. Participam desta forma em missões análogas, cenários de investigação que testam tecnologias, procedimentos operacionais e o comportamento humano em ambientes extremos.
O jovem moçambicano participou numa missão análoga realizada na Índia, no início deste ano, em ambiente de isolamento rigoroso e exigência científica. Ao viver durante sete dias, na terra, as rotinas concebidas para o espaço, conquistou o título de astronauta análogo, assinalando não apenas uma vitória pessoal.
"Foi um bocadinho difícil", conta, assinalando algumas barreiras relacionadas com a língua, os horários diferentes e também questões relacionadas ao uso de recursos de forma equilibrada, dificuldades atenuadas por alguns treinos.
Segundo o arquiteto, o primeiro grande entrave surgiu antes mesmo das exigências técnicas ou científicas na missão, o financeiro, uma limitação que marcou o início do percurso e continua a ser, até hoje, um dos principais obstáculos à concretização dos seus projetos.
"Mas, dentro da própria missão, a coisa tornou-se um bocadinho acessível, porque as pessoas que estavam lá comigo, a minha equipa, também colaborou bastante para que eu pudesse sentir-me quase que em casa e à vontade", conta.
Depois da missão, a conquista exigiu mais do que celebração, Fernando diz ter mergulhado numa pesquisa cuidadosa para confirmar a dimensão do feito: "Tive de fazer muitas pesquisas para ver se antes de mim ninguém chegou lá e constatei que fui o primeiro".
Segundo Fernando, o levantamento revelou também tentativas pontuais de outros profissionais moçambicanos em aproximação a agências como a NASA, mas nenhuma que tivesse chegado a concretizar o mesmo objetivo, um sonho que o jovem continua a perseguir, apesar de reconhecer que segue um caminho que exige coragem, numa área onde, no país, "não há garantias de nada".
Mas é pela convicção de que o sonho precisa de bases concretas que promove ao mesmo tempo uma angariação de fundos para assegurar vaga num mestrado em Arquitetura Avançada no Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha, Espanha, e criou e lançou uma `start-up` pensada para atuar no domínio das indústrias ligadas à exploração espacial em Moçambique.
"Estamos a trabalhar no desenvolvimento de tecnologias capazes de responder às exigências da exploração espacial e de integrar Moçambique nesse ecossistema global", explica Fernando, sublinhando que a origem não é um fator limitador do progresso individual, daí que a juventude moçambicana deve "abstrair-se das dificuldades" e continuar a acreditar que, com visão, esforço e sonho, "tudo pode tornar-se possível".