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Primeiro recolher obrigatório em França, outros países pedem prudência

Primeiro recolher obrigatório em França, outros países pedem prudência

O município de Raincy anunciou um recolher obrigatório a partir de hoje, o primeiro desde o início dos distúrbios em França que já levaram os países vizinhos a recomendar prudência aos seus cidadãos se visitarem território francês.

Agência LUSA /

Situada nos arredores de Paris, Le Raincy é uma das cidades que tem sofrido com a violência de rua que desde o dia 27 de Outubro marca o quotidiano da França, principalmente os arredores da capital, depois de dois adolescentes, filhos de imigrantes, terem morrido electrocutados em circunstâncias ainda não completamente esclarecidas, quando fugiam da polícia.

O anúncio foi feito pelo vice-presidente da Câmara, o conservador Eric Raoult, que o definiu como "um recolher obrigatório excepcional" a entrar em vigor a partir da hoje à noite, às 22:00 ou 23:00 locais (21:00 ou 22:00 em Lisboa), em certos bairros da localidade.

Hoje, dia em que se registou a primeira vítima mortal - um homem de 61 anos que na sexta-feira tinha sido agredido em Stains, arredores de Paris -, começaram a perceber-se os primeiros sinais de inquietação nos países vizinhos da França, temerosos de que o mesmo possa vir a acontecer no seu território.

Com os tumultos franceses a tomarem de assalto as primeiras páginas dos jornais um pouco por todo o mundo, considerados por alguns editoriais como uma consequência do falhanço da política francesa de integração, teme-se agora que a revolta se estenda a outros países.

"A França é tradicionalmente um ponto de referência [da Europa], o barómetro daquilo que se passa nas sociedades vizinhas", disse a rádio espanhola Cadena Ser.

"Os outros países temem um efeito dominó", lê-se no diário grego Elefthérotypia.

Vários jornais europeus compararam os distúrbios actuais com os de Maio de 1968, muito embora esses fossem muito mais politizados do que os da actualidade, transformados por muitos jovens em acções de afirmação pessoal ou em simples mimetizações de animação nocturna.

Porém, trata-se da situação mais grave desde Maio de 1968 e os seus "efeitos podem ser muito graves e atingir toda a Europa Ocidental", escreveu o diário polaco Rzeczpospolita.

O jornal marroquino "l+Economiste" considera que estamos perante a constatação do fracasso do modelo francês de "assimilação e depois integração" praticado desde os anos 60, pois a igualdade de oportunidades nos arredores é uma "quimera para a maioria das crianças".

O presidente da Câmara de Roma, Walter Veltroni, não teme que os acontecimentos franceses se repitam na capital italiana porque considera que estes são consequência das más políticas de integração levadas a cabo pelos executivos franceses.

"Roma e Paris estão em patamares diferentes: a capital francesa tem um problema de integração", disse Veltroni, enquanto "as administrações locais italianas no seu conjunto, sejam elas de direita ou de esquerda, fizeram um grande trabalho para a coesão social nos arredores".

Para 71 por cento dos franceses a forma como o Governo tem tratado o problema dos bairros dos arredores, não só de Paris, como das grandes cidades francesas, vai no "mau sentido".

O barómetro mensal do Yahoo, do diário Libération e do canal televisivo de notícias iTélé, realizado a 04 e 05 de Novembro, conclui também que para 59 por cento dos franceses a luta contra a insegurança vai no "mau sentido" e para 58 por cento o mesmo acontece com a luta contra o desemprego.

O ministro do Interior francês, Nicolas Sarzoky, cujo tom agressivo usado para comentar os distúrbios tem sido criticado pela oposição por acirrar os ânimos e não resolver a situação, veio hoje apelar à defesa "da ordem da República" contra a "ordem dos bandos".

Sarkozy, que continua a ser um político popular - numa sondagem publicada no domingo pelo Le Parisien e pelo Aujourd+hui 57 por cento dos franceses consideram que tem uma boa imagem -, falava aos polícias, bombeiros e jornalistas que com ele participaram numa visita a Evreux, uma cidade a oeste de Paris atingida no fim-de-semana pela violência.

"Nada será possível nos bairros em termos de restabelecimento da justiça, em termos de igualdade de oportunidades se não for restabelecida a ordem republicana", disse o ministro.

O ministo qualificou a violência em Evreux como "agressões múltiplas e organizadas que nada tiveram de espontâneo".

A situação poderá trazer problemas ao sector turístico do país. A França recebe por ano 75 milhões de turistas, sendo que metade deles tem por destino Paris.

Apesar de o ministro dos Negócios Estrangeiros Philippe Douste- Blazy garantir que a França não é um país "perigoso", nem "racista", muitos governos já começaram a recomendar aos seus nacionais extrema prudência nas viagens para destinos franceses.

Londres recomenda aos britânicos que estejam "extremamente vigilantes" na região parisiense e que "evitem todo o tipo de manifestações".

Madrid aconselha evitar "certos bairros da periferia norte da cidade".

Berlim pede "uma prudência particular nas deslocações nos aglomerados populacionais franceses".

Enquanto isso, os cidadãos franceses aguardam as medidas a favor da igualdade de oportunidades que serão anunciadas televisivamente hoje à noite pelo primeiro-ministro Dominique de Villepin.

A Assembleia Nacional tem previsto um debate sobre a crise para terça-feira

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