Prisioneiros afegãos torturados até à morte por soldados dos EUA em 2002
Dois prisioneiros afegãos detidos em Bagram, no Afeganistão, foram torturados até à morte por soldados norte-americanos em 2002, noticia hoje o New York Times, que cita o relatório de um inquérito realizado pelo exército dos Estados Unidos.
O relatório, de quase 2.000 páginas, é apresentado pelo jornal como "um equivalente escrito das fotografias de Abu Ghraib" (Iraque), uma vez que descreve em pormenor as múltiplas torturas infligidas aos prisioneiros afegãos por soldados norte-americanos que qualifica de "inexperientes".
O documento, de que o New York Times obteve uma cópia, relata nomeadamente como Dilawar, um jovem taxista afegão acusado de ter participado num ataque com foguetes contra uma base norte-americana de Khost (sudeste), recebeu mais de 100 golpes nas pernas antes de morrer, em Dezembro de 2002.
Segundo o relatório, a autópsia feita posteriormente descrevia os ossos das pernas de Dilawar como "pulverizados". "Vi ferimentos semelhantes numa pessoa que tinha sido atropelada por um autocarro", declarou a tenente-coronel Elizabeth Rouse, citada no relatório.
Quando o inquérito à morte de Dilawar foi concluído, lê-se no relatório, os investigadores estavam convencidos da sua inocência.
O relatório cita outro caso de um afegão, Habibullah, que morreu na sequência de um ataque cardíaco provocado, veio a concluir-se, por um coágulo de sangue originado por golpes repetidos nas pernas.
"Os porta-vozes do exército norte-americano afirmaram que o homem morreu de causas naturais, mesmo depois de os investigadores encarregados do inquérito àquela morte terem concluído que foi um homicídio", lê-se no relatório.
O documento evoca declarações feitas pelo presidente norte- americano, George W. Bush, em Fevereiro de 2002, segundo as quais a Convenção de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de guerra não se aplicava aos combatentes talibãs ou da al-Qaida, o que levou os interrogadores norte-americanos, segundo um reservista citado, a pensarem que "podiam ignorar as regras".
Em Dezembro de 2004, o exército dos Estados Unidos anunciou que, desde Outubro de 2001, oito dos seus prisioneiros no Afeganistão tinham morrido sob detenção.
No entanto, um inquérito sobre os abusos infligidos aos prisioneiros nas prisões norte-americanas no Afeganistão, conduzido pelo general Charles Jacobi em 2004, não "encontrou qualquer prova da ocorrência de abusos nesses centros".
As práticas norte-americanas foram denunciadas por vários +media+ e por um perito independente da ONU, Cherif Bassiouni, que no seu último relatório, publicado em Abril, fala de "torturas, detenções ilegais e maus-tratos" infligidos pelas forças da coligação no Afeganistão (18.000 militares, 16.000 dos quais norte-americanos).
O mandato de Cherif Bassiouni não foi renovado pela ONU, segundo o próprio por pressões dos Estados Unidos.
Segundo o exército norte-americano no Afeganistão, os cerca de 500 prisioneiros detidos em Bagram e Kandahar são tratados "de maneira correcta".