Professores moçambicanos marcham pelo pagamento de horas extras e condições de trabalho

Professores moçambicanos marcham pelo pagamento de horas extras e condições de trabalho

Dezenas de professores dos ensinos primário e secundário marcharam hoje em Maputo para exigir o pagamento de horas extras e a melhoria das condições de ensino em Moçambique, a alguns dias do arranque do ano letivo.

Lusa /

Entoando cânticos como "Quem comeu o nosso dinheiro? É o Governo", "Paguem o nosso dinheiro!" e "Alunos sentados no chão, não!", os professores percorreram algumas das avenidas da capital moçambicana até ao Jardim dos Professores, ao lado da Escola Secundária Josina Machel, uma das maiores do país.

"Estamos aqui hoje a fazer esta passeata, como uma forma de dizer que o professor não só reivindica o seu dinheiro, mas, sim, reivindica melhor qualidade de ensino, reivindica melhores salas para os seus alunos e também reivindica melhores condições de trabalho", afirmou Avatar Cuamba, presidente da Associação dos Professores Unidos (APU) de Moçambique, agremiação promotora do protesto.

"Fazemos essa marcha, para dizer aos pais e encarregados de educação que: ´acordem, nos ajudem nesta luta, porque o problema da educação não é do professor, o problema da educação não é do gestor, é de todo o país, um país que tem uma educação péssima, com resultados fraudulentos, é um país que está condenado ao fracasso`", afirmou Cuamba.

O dirigente associativo avançou que mais de metade dos professores ainda não receberam o dinheiro das horas extra dos últimos dois anos, exigindo que o Governo marque as datas em que serão pagos os valores referentes a esse direito.

Os professores também querem que o executivo crie condições para acabar com a sobrelotação das salas de aulas, ameaçando impedir que mais de 50 alunos entrem na turma, no ano letivo que vai arrancar dentro de dias.

"Nós vamos cortar a lista, o Governo vai ter que decidir para onde vai deixar esses alunos, queremos, no máximo, 50 alunos por turma", enfatizou Avatar Cuamba.

Cuamba considerou inadmissível que o país continue com alunos a estudar debaixo de árvores, que existam escolas que nunca foram reabilitadas e que os manuais escolares apareçam com erros.

Acusou o Governo de permitir que os livros escolares sejam elaborados por "sindicatos criminosos", com a exclusão de profissionais de educação competentes, e de pressionar os professores para apresentarem "percentagens não reais" de passagem de classe dos alunos.

"Nós, como professores, estamos a dizer que os resultados [escolares] que nós estamos a fornecer, eu estou a falar como professor, não são resultados reais, são resultados que somos forçados a fabricar, para que o Governo apresente dados bonitos à comunidade internacional", declarou o presidente da APU.

Faftine José, professor há 12 anos, considera que a reivindicação é um ato de amor à pátria e à profissão, porque é inaceitável que o país tenha turmas com mais de 50 alunos e que continue o fenómeno de aulas ao relento.

"Os alunos sentam-se no chão e isso compromete aquilo que é a qualidade do ensino", salientou José.

Benilde Mavile, professora de Educação Física há 20 anos, queixou-se da incerteza no pagamento de salários, de horas extras, do congelamento de promoções e mudança de carreira, como razões de insatisfação na classe.

"Os professores, unidos, jamais serão vencidos", rematou, Benilde, recorrendo a palavras de ordem.

Numa ação mais ousada, face aos receios de represálias, alguns cânticos na marcha de hoje eram diretamente dirigidos ao Presidente, Filipe Nyusi, que já foi docente universitário, e à ministra da Educação e Desenvolvimento Humano, Carmelita Namashulua.

"Ministra queremos o nosso dinheiro" e "Quem formou o Presidente? É o professor!", foram ouvidos em coro durante a manifestação.

Os marchantes também adotaram um famoso cântico usado nas manifestações da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, contra os resultados das eleições autárquicas de outubro último: "Trufafá, trufafá: é o professor que está a passar!".

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