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Quem é Péter Magyar, o antigo homem de Orbán que venceu as eleições legislativas na Hungria?
Na sombra do poder, tornou-se, em dois anos, o principal coveiro do líder nacionalista Viktor Orbán, ao ponto de tomar o seu lugar.
Há muito que é uma peça da engrenagem do governo, que promete agora transformar.
Advogado de 45 anos, antigo dirigente do Fidesz - o partido de Viktor Orbán - e deputado ao Parlamento Europeu desde 2024, Péter Magyar protagonizou uma ascensão política meteórica no espaço de dois anos, impulsionada por uma campanha popular e um discurso anticorrupção, que culminou com a vitória nas eleições legislativas húngaras deste domingo, 12 de abril.
Venceu o antigo primeiro-ministro com 53,6% dos votos, contra 37,9% do chefe do Governo cessante.
Um veterano que se tornou adversárioNascido a 16 de março de 1981, em Budapeste, na Hungria, Péter Magyar é, antes de mais, um homem do sistema.
Formado em Direito, entrou para o aparelho de Estado após a vitória de Viktor Orbán, em 2010. O avô, Pal Eross, um juiz conhecido do grande público pelos seus programas de televisão, e o tio-avô e padrinho, Ferenc Madl, Chefe de Estado entre 2000 e 2005, encarnam esta linhagem.
Passou depois para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, trabalhou na Representação Húngara junto da União Europeia em Bruxelas, na Bélgica, e ocupou vários cargos em estruturas públicas estratégicas, incluindo o Banco Húngaro de Desenvolvimento.
Durante mais de uma década, esteve no centro do poder, próximo dos seus mecanismos.
A carreira sofreu uma reviravolta em fevereiro de 2024, depois de um escândalo de indulto presidencial ligado à violência sexual contra menores ter provocado uma grave crise política na Hungria. A ex-mulher, Judit Varga, abandonou a vida política na mesma altura em que ele próprio iniciou a sua rutura com o Governo; tiveram três filhos, o mais velho nasceu em 2008.
No rescaldo, Péter Magyar demitiu-se do cargo e denunciou publicamente um sistema fechado. Acusou o Governo de corrupção e de excessos autoritários.
A sua primeira entrevista, muito crítica, difundida no YouTube pelo meio de comunicação húngaro independente Partizán, conta atualmente com quase três milhões de visualizações, num país com 9,6 milhões de habitantes. Ao mesmo tempo, foi alvo de acusações de violência doméstica por parte da ex-mulher, que contesta, denunciando uma tentativa de desestabilização política.
Ascensão política turbulenta
Algumas semanas mais tarde, tornou-se líder do partido Tisza ("respeito e liberdade"), uma formação de centro-direita até então marginal, cujo nome deriva do rio que atravessa a Hungria. Nas eleições europeias de junho de 2024, o partido obteve quase 30% dos votos e tornou-se a segunda força política do país, atrás do partido nacional-conservador Fidesz, de Viktor Orbán.
Em menos de dois anos, Péter Magyar tornou-se o principal rival de Viktor Orbán, impulsionado por um rápido impulso nas sondagens, até à sua vitória nas eleições legislativas de 2026.
No terreno, o candidato mantém um ritmo constante. Nas últimas semanas, chegou a ter seis reuniões por dia, viajando por todo o país e em contacto direto com os eleitores. Esta presença constante permitiu-lhe alimentar uma pretensa proximidade com os cidadãos, face a um governo considerado distante.
Muito ativo nas redes sociais, fez delas uma alavanca importante da sua ascensão, encenando a sua campanha e a sua imagem através de formatos modernos e de contas pessoais. Também respondeu aos ataques da oposição expondo-os publicamente: acusado de consumo de drogas, anunciou num post no Instagram que se tinha submetido a testes e prometeu publicar os resultados, afirmando o seu compromisso com a transparência.Um conservador liberal, mais aberto à Europa e à Ucrânia
Péter Magyar posicionou-se no centro-direita, segundo as linhas conservadoras e liberais. Promete restabelecer o Estado de direito, desbloquear os fundos comunitários congelados e relações mais pacíficas com Bruxelas. Defende igualmente medidas sociais concretas, como o aumento das pensões e o investimento no sistema de saúde, mantendo-se, no entanto, ligado às marcas políticas tradicionais da direita húngara, nomeadamente em matéria de soberania e de controlo das fronteiras.
Mais crítico em relação à Rússia do que Viktor Orbán, mantém-se comedido em relação à guerra na Ucrânia. Recusa-se a enviar armas ou tropas húngaras, ao mesmo tempo que afirma o seu apoio ao povo ucraniano.
Em junho de 2024, disse aos jornalistas que a Hungria não devia fornecer armas devido à sua "situação sensível nesta guerra", ao mesmo tempo que reiterava o "direito da Ucrânia a defender-se". Esta linha intermédia visa corrigir a posição do governo sem romper com a maioria da opinião pública prudente.
Corrupção e custo de vida no centro do discurso
Dois temas dominaram a sua campanha: a corrupção e a economia. Péter Magyar atribui a inflação, a degradação dos serviços públicos e o bloqueio dos fundos europeus ao sistema de Orban. Em Turkeve, Attila, um trabalhador de 33 anos, menciona "a questão da corrupção" como uma das principais razões do seu voto, a par da situação económica e dos serviços públicos.
Após dezasseis anos no poder sob o comando de Viktor Orban, Péter Magyar captou uma expetativa de mudança que transcende as divisões tradicionais. Atrai tanto opositores históricos como antigos eleitores do Fidesz, sem propor uma rutura ideológica radical. Veronika, 61 anos, resume esta expetativa: "Não pode piorar, por isso temos de tentar.
Lamis Djemil / 13 abril 2026 05:09 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP