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Quotidiano no Antigo Egito inscrito em mais de 18 mil fragmentos cerâmicos
Listas de nomes, compras de alimentos e objetos do dia a dia, ou até mesmo escritos de uma escola, incluindo linhas grafadas por alunos como punição, são algumas interpretações atribuídas pelos arqueólogos às inscrições nos cacos. A antiga Athribis, a 200 quilómetros a norte de Luxor, revelou aos investigadores um conjunto expressivo de fragmentos de vasos e jarros que serviam como suporte de escrita há pelo menos dois mil anos. Estes tipo de caco é conhecido como óstraco e documenta o dia a dia das populações que por ali passaram.
O rei Ptolomeu XII, pai de Cleópatra VII, que governou entre 81-58 e 55-51 aC o Antigo Egito, mandou construiu o templo em Athribis, dedicado aos deuses leão Repit e Min. Com uma dimensão de de 75 por 45 metros, rei da dinastia ptolomaica ainda ordenou a decoração das salas interiores do santuário.
Com a queda da dinastia egípcia o território passou para as mãos de Roma. Os Imperadores romanos Tibério, Calígula, e Cláudio foram acrescentando colunas e outras estruturas externas a gosto, durante o século primeiro depois de Cristo.
A interação de populações que cruzaram este lugar antigo ficou registada nos milhares de fragmentos cerâmicos de loiça partida que usavam para inscrever pequenas mensagens substituindo o suporte de escrita em papiro, provavelmente por ser mais barato. Os óstracos eram grafados com tinta e uma cana ou bastão oco (cálamo).
Os mais de 18 mil fragmentos com anotações ou rascunhos agora revelados fornecem uma variedade de indícios sobre a vida quotidiana do antigo assentamento de Athibis.
Recibo copta, emitido por um homem chamado Tibério (provavelmente do século VI) | Universidade de Tübingen
"Cerca de 80% dos cacos de potes cerâmicos partidos estão grafados em demótico, a escrita administrativa comum nos períodos ptolomaico e romano, que se desenvolveu a partir do hierático após 600 a.C.", explicam os arqueólogos na página da Universidade de Tübingen dedicada à investigação. Acrescentam que é muito raro encontrar um conjunto tão vasto de óstracos.
Recibo de pão em Demotic. Os pães são distribuídos em múltiplos de cinco (muitas vezes cinco, às vezes dez ou 20). Muitos dos compradores são mulheres. (Ptolomaico tardio ou início do período romano) | Universidade de Tübingen
Entre os testemunhos mais comuns estão os óstracos com escrita grega, mas os arqueólogos também encontraram inscrições em escrita hierática, hieroglífica e alguma copta e árabe.
Os arqueólogos também encontraram óstracos pictóricos, uma categoria especial, conta Christian Leitz, arqueólogo que lidera a equipa de investigação: "Esses fragmentos mostram várias representações figurativas, incluindo animais como escorpiões e andorinhas, humanos, deuses do templo próximo, até figuras geométricas".
Desenho de criança | Universidade de Tübingen
"Um número surpreendentemente grande de fragmentos pode ser atribuído a uma escola antiga", destaca Leitz.
Centenas de óstracos testemunham exercícios de escrita que os arqueólogos interpretam como punição: "Os fragmentos são inscritos com o mesmo um ou dois caracteres de cada vez, tanto na frente quanto no verso".
Alunos castigados teriam que escrever linhas repetidamente. Em Athribis, existem centenas de fraguementos cerâmicos, com o mesmo símbolo geralmente escrito na frente e no verso | Universidade de Tübingen
O sítio arqueológico de Athribis estende-se por 30 hectares e é composto por uma área com dois templos, zona de urbana, necrópole e pedreiras. Um dos santuários ainda permanece debaixo de um metro de areia.
O segundo templo está a ser escavado em grande escala, desde 2012, por equipas de arqueólogos alemães liderados por Christian Leitz, professor do Instituto de Estudos do Antigo Oriente Próximo (IANES) da Universidade de Tübingen em cooperação com Mohamed Abdelbadia e sua equipe do Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito.
Os trabalhos arqueológicos estão agora a revelar edifícios de vários andares com escadarias e abóbadas. A restante área foi preenchida com escombros ao longo dos séculos.
Complexo de edifícios com escadas e abóbadas após a remoção de várias camadas | Universidade de Tübingen
A análise dos óstracos está a ser realizada por uma equipe internacional, principalmente francesa e alemã, coordenada por Sandra Lippert, do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), em Paris.
Fragmento de uma inscrição hieroglífica com informações sobre a mitologia local, provavelmente copiada por um aluno do templo vizinho. (Ptolomaico tardio ou início do período romano) | Universidade de Tübingen
Uma quantidade tão grande de fragmentos cerâmicos com inscrições só foi descoberta uma vez no Egito, no assentamento operário de Deir el-Medineh, perto do Vale dos Reis em Luxor.