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Racismo aumenta na Europa. Quase metade dos afrodescendentes sofrem discriminação racial

Racismo aumenta na Europa. Quase metade dos afrodescendentes sofrem discriminação racial

Quase metade das pessoas de ascendência africana na União Europeia enfrenta racismo, discriminação e crimes de ódio no quotidiano, na procura de emprego ou de habitação. A conclusão é da Agência para os Direitos Fundamentais (FRA), que divulgou esta quarta-feira um relatório que indica que o racismo é "abrangente e implacável" e que está a aumentar na Europa.

Inês Moreira Santos - RTP /
Christian Mang - Reuters

“Imagine que se candidata a empregos, mas nunca tem resposta. Imagine que procura uma casa para a sua família, mas nunca tem sucesso. Imagine que sofre de discriminação ou violência e fica profundamente traumatizado. Esta é a realidade de muitas pessoas na UE hoje, apenas por causa da cor da pele”, expõe no documento Michael O’Flaherty, diretor da FRA, que condena a “discriminação racial que permanece invisível”.

De acordo com o estudo da Agência para os Direitos Fundamentais, pessoas de ascendência africana são frequentemente “alvo de tratamento injusto e preconceito quando procuram emprego ou casa”. A discriminação, o racismo e a violência “continuam a assombrar” a vida quotidiana de milhares de pessoas na União Europeia e “não são incidentes isolados”.

Já em 2018, no relatório “Ser Negro na UE” a FRA concluiu que o racismo estava “generalizado em toda a Europa”. Cinco anos depois, Michael O’Flaherty considera que é “vergonhoso reconhecer que o racismo continua abrangente e implacável” e que aumentou nos últimos anos.

“Mas muito disto permanece invisível. Incidentes de discriminação racial, assédio racista e atos de violência muitas vezes não são denunciados, sendo negado às vítimas o apoio a que têm direito legalmente”, continua o responsável da FRA.

“Sem estes dados tão necessários, a discriminação racial permanece invisível. As vozes das pessoas não ouvidas”, critica.
Cerca de 45% dos afrodescendentes sofrem racismo na UE
Este relatório é divulgado numa altura em que a comunidade internacional apela a uma “ação rápida para combater a crise sistémica”.

Segundo o estudo da FRA, 45 por cento das pessoas de ascendência africana que vivem na União Europeia dizem que foram vítimas de discriminação racial nos últimos cinco anos. No relatório anterior, a agência europeia indicava que a percentagem de afrodescendentes do espaço comunitário que denunciavam casos de racismo era de 39 por cento – isto é, houve um claro aumento desde então.

O mesmo documento revela que os países onde se registam mais casos de discriminação racial e social são a Alemanha e a Áustria, nos quais mais de 70 por cento dos inquiridos admitiu ser alvo de racismo. Contudo, considerando que apenas 9 por cento das vítimas denunciou atos ou casos de discriminação, a FRA adverte que o problema “permanece invisível”.

Segundo os dados apurados, as mulheres jovens, as pessoas com formação superior e as que usam vestuário religioso são as mais suscetíveis a tornar-se vítimas de discriminação racial, sendo mais afetadas na hora de procurar casa ou trabalho – cerca de 34 por cento dos inquiridos afirmou ter sido discriminado quando procurava emprego e 31 por cento já foram alvo de discriminação no local de trabalho.

E comparando com a população em geral, “é mais provável que tenham apenas contratos temporários e que sejam demasiado qualificados” para o trabalho que exercem.
Enfrentar o racismo, atitudes e comportamentos
O relatório da Agência para os Direitos Fundamentais aponta ainda para o maior risco de pobreza de pessoas de ascendência africana, em comparação com a população em geral, considerando o aumento da inflação e do custo de vida na União Europeia.

“Cerca de 33 por cento enfrentam dificuldades para fazer face às despesas quotidianas e 14 por cento não têm dinheiro para aquecer as suas casas, em comparação com 18 por cento e 7 por cento da população em geral”,
refere a FRA, acrescentando que, para os cidadãos da UE de ascendência africana, encontrar um local para viver é mais difícil do que para a população em geral.

Ao tentar encontrar alojamento, destaca ainda a FRA, “31 por cento dos inquiridos afirmaram ter sido vítimas de discriminação racial”, uma tendência em crescimento desde 2016.

Tendo por base estes dados, Michael O’Flaherty lamenta que o “racismo esteja tão profundamente enraizado nas nossas sociedades” e considera que estas conclusões suscitam uma reflexão sobre a “alarmante falta de progressos, apesar da legislação vinculativa antidiscriminação na UE desde 2000”.

“Enfrentar o racismo de frente, serve para enfrentar atitudes e comportamentos individuais. É um passo em frente positivo, mas o seu efeito duradouro irá depender da sua extensão e do compromisso renovado da UE e dos Estados-Membros”, continuou.

“É chocante constatar que não houve melhorias desde o nosso último inquérito, em 2016. Pelo contrário, as pessoas de ascendência africana enfrentam cada vez mais discriminação apenas por causa da cor da pele”, lamenta o diretor da FRA, citado no relatório.

“O racismo e a discriminação não devem ter lugar nas nossas sociedades. A UE e os seus Estados-membros devem utilizar estas conclusões para direcionar melhor os seus esforços e garantir que também as pessoas de ascendência africana possam usufruir dos seus direitos livremente, sem racismo ou discriminação”,
conclui o responsável.

O documento da FRA analisou as respostas de mais de 6.700 pessoas de ascendência africana que vivem em 13 países da UE: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polónia, Portugal e Suécia.
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