"Reality show" de música coloca TV privada no topo das audiências em Moçambique
Um concurso televisivo de música, que intercala emissões em directo sobre a vida dos concorrentes com transmissões em diferido, está a impor uma nova ordem na "guerra" das audiências em Moçambique.
Com base na imitação de estrelas internacionais e nalgumas referências musicais locais, o "Fama Show" do canal de televisão privado moçambicano STV tem monopolizado nos últimos meses as conversas nas "barracas", como são conhecidos os bares informais em Moçambique, em mercados e noutros locais.
Em muitos desses locais "não se fala noutra coisa" e do dia para noite desconhecidos e sofríveis cantores tornaram-se caras conhecidas da televisão, chegando mesmo as suas "façanhas" a abrir os telejornais da STV.
Num país onde não existem instrumentos de medição das audiências televisivas, a vivacidade com que se discute o desempenho de um e outro artista concorrente leva a acreditar que a STV já remeteu a estação pública TVM para um plano discreto nas preferências dos telespectadores.
"Sem meios formais de medição das audiências, não podemos afirmar que o «Fama Show» nos colocou à frente nas preferências dos telespectadores, mas reforçou a nossa posição de opção credível entre os canais de televisão", afirmou à agência Lusa o director de informação da STV, Jeremias Langa.
Além do STV e da estação pública TVM, a única com difusão nacional, Maputo dispõe ainda das emissões da TV Miramar (ligada à IURD), da RTP-África e do mais recente Canal 9.
A atribuição de "fabulosos prémios", num país que é tido como dos mais pobres do mundo, também transformou o "Fama Show" e o seu canal em temas incontornáveis das conversas do dia-a-dia.
O primeiro classificado do "Fama Show" irá receber um automóvel, uma viagem ao Brasil, a gravação de um disco e, ainda cerca de três mil euros - privilégios astronómicos num país onde muitas vezes é o próprio governo que tem que comprar o caixão para os seus artistas mais consagrados que invariavelmente morrem na miséria.
"Apesar de ser ainda cedo, a iniciativa foi uma aposta ganha", considera Jeremias Langa.
O interesse à volta da competição levou a STV a reformular o alinhamento dos seus telejornais, abrindo-os com cenas do quotidiano dos participantes, ora fazendo compras, outras vezes cuidando do seu visual ou tomando o pequeno-almoço no Kaya Kwanga, uma das mais luxuosas residenciais do país, onde estão hospedados os concorrentes, desde Maio deste ano.
"Além dos directos às sextas-feiras, em que é eliminado um concorrente, metemos também peças sobre a vida dos concorrentes durante a semana, para manter viva a chama do programa", sublinhou o director de informação da STV.
Evitando referir-se aos custos da prova, Jeremias Langa acentua que "a produção do «Fama Show» é cara".
"Sem grandes patrocinadores como a operadora de telefonia móvel mCel, o Banco Mercantil de Investimentos e o grupo português Visabeira, a STV não se metia numa empreitada destas", adiantou.
Apesar do sucesso, o programa está a ser alvo de críticas de vários quadrantes, que alegam "alienação cultural", o estímulo ao dinheiro fácil e o aparente esbanjar de recursos pela mCel, que é uma operadora do Estado.
"Quando se propõe aos patrocinadores um programa de entretenimento com cariz nacionalista, eles perguntam logo se isso vende e se a resposta for não dizem que estão para ganhar dinheiro e não gastar", disse Jeremias Langa.
Langa acrescenta que a sua televisão está atenta ao debate e às críticas sobre o conteúdo de um programa que assenta na imitação de músicos estrangeiros, mas reconhece que "a aposta responde às opções das audiências e dos próprios anunciantes".
"A nossa música não está à altura de sustentar programas de entretenimento de grandes audiências, porque ela não é apoiada por uma indústria musical devidamente estruturada, não por culpa dos músicos, mas por razões de toda uma conjuntura que deve ser analisada", sublinhou Jeremias Langa.
"Com o +Fama+ abriu-se uma via acessível para a revelação do grande potencial e talento que os concorrentes têm", sublinhou o músico moçambicano Stewart Sukuma, um dos apresentadores do programa e autor de êxitos musicais do país.
Aos concorrentes é interdito qualquer contacto com o exterior da "academia", o nome do local onde vivem, e alguns deles tiveram que suspender a frequência escolar para participar no programa.
"Nem todos os concorrentes suspenderam as aulas e estar numa academia como esta é também uma aprendizagem, não há nada de ilícito em estar aqui", defende Stewart Sukuma.