Reconstruir e devolver vida a Beirute é um `puzzle` três anos após explosão

Reconstruir e devolver vida a Beirute é um `puzzle` três anos após explosão

 É tudo o que sobrou de um prédio do século XIX que ruiu na devastadora explosão do porto de Beirute em 2020 - um amontoado de pedras que, para Taina Christiansen e Georges El Chami, são peças de um `puzzle` por resolver.

Lusa /

"Este edifício foi completamente arrasado e duas pessoas morreram aqui. O dono, com quem estamos em contacto, esteve preso debaixo das ruínas durante 20 horas", conta à Lusa Georges El Chami, engenheiro civil que faz parte do projeto das Nações Unidas para a reabilitação da capital Libanesa.

O prédio remonta ao fim do período Otomano e é um dos mais antigos incluídos no projeto da ONU. Georges explica que os desafios incluem usar o material de construção original, as tais pedras de arenito que se encontram amontoadas, o que ficou da explosão, para além de uma escadaria.

"Temos que manter os mesmos materiais, as mesmas técnicas de reconstrução para preservar o caráter arquitetónico do edifício", diz Georges. "Dizer que isto é uma reabilitação é um eufemismo, isto é uma reconstrução", diz.

A explosão do porto de Beirute, considerada a maior não-nuclear da história, deixou a cidade num caos descrito por muitos como pior do que a guerra civil. Os danos e perdas foram estimados à volta dos 7 mil milhões de euros, sobretudo na habitação, de acordo com um relatório do Banco Mundial feito após o incidente. Dez mil casas foram afetadas e mais de trezentas mil pessoas ficaram desalojadas.

Três anos após a explosão os esforços para a reconstrução dos prédios afetados focam-se agora nos elementos de património cultural.

A ONU é uma das várias organizações não-governamentais que está a trabalhar nesse sentido, tendo nas mãos a reabilitação de pelo menos 17 edifícios históricos localizados num raio de 2,5km e que estavam habitados antes do incidente.

O governo central e as autoridades locais de Beirute têm sido fortemente criticadas pela intervenção quase nula na reconstrução da cidade, mas o governador de Beirute, Marwan Abboud, explicou à Lusa que o município não tem capacidade financeira para reconstruir a cidade, devido ao colapso da economia libanesa em 2019. 

"Os fundos do município estão presos nos bancos libaneses, o valor da moeda deteriorou-se devido ao colapso da Lira (moeda local) e ao mesmo tempo, os construtores não quiseram participar nos concursos públicos abertos pelo município para reconstruir Beirute", lamenta Abboud no seu escritório no centro da cidade.

O governador disse à Lusa que, apesar das dificuldades, o município apoiou as iniciativas comunitárias, trabalhou com o setor privado para a criação de um plano de reconstrução e removeu obstáculos administrativas, facilitando a aprovação de licenças para a reconstrução a custo zero.

"Hoje se passearmos pelas ruas da cidade vê-se que os sinais da destruição desapareceram e que a vida voltou às ruas", diz Abboud.

"Ajudámos à reabertura de restaurantes e hotéis, organizámos festivais de rua e hoje vemos Beirute a viver um período de grande recuperação turística e tudo isto é graças aos esforços das pessoas e às políticas que criámos para gerir a situação depois da explosão", diz à Lusa.

No bairro de Mar Mikhael, imediatamente à frente do porto, a maior parte dos prédios estão pintados de fresco, há janelas novas nas casas e plantas nas varandas fortificadas. Os restaurantes que enchem as ruas têm toldos, e luzes LED iluminam os bares que se enchem de gente à noite.

As dezenas de discotecas junto ao porto, que valeram ao Líbano a reputação de ter uma das melhores vidas noturnas no mundo, voltaram a abrir. Após quase três anos de escuridão, os espaços noturnos voltaram a encher o céu de cores néon, feixes de luzes e o eco de batidas populares.

No entanto, dali consegue observar-se o perfil da cidade que revela o trabalho ainda por fazer. À noite, os edifícios abandonados e escuros parecem fantasmas entre os edifícios já reabilitados e iluminados. Dentro dos apartamentos vazios vêm-se fios elétricos que dançam com o vento. As toneladas de vidros que foram varridos para limpar as ruas permanecem a um canto. No centro comercial de Beirute, algumas lojas ainda têm itens nas montras: óculos de sol, revistas rasgadas ou menus de restaurantes. As portas de ferro de algumas lojas continuam fechadas e amolgadas, guardando a memória da brutal explosão de 04 de agosto de 2020.

Falta também reabilitar um dos edifícios mais importante na cidade. Talvez o mais importante de todos: os silos do porto de Beirute.

Os silos de grão inaugurados nos anos 70, os anos "dourados de Beirute" eram os maiores do Médio Oriente e um símbolo do poderio económico do jovem Líbano. Até à explosão, os silos eram importantes não só pelo seu cunho arquitetónico em Beirute, mas por serem uma das estruturas que sobreviveram à guerra civil, um tabu ainda hoje no país, que quase não é falado nas aulas de história.

Após a explosão, a importância dos silos tornou-se ainda mais relevante, porque a estrutura protegeu a parte Oeste da cidade do impacto explosivo. Dois anos após a explosão e após várias semanas a arder, a parte norte dos silos colapsou em frente aos familiares das vítimas que marcavam a 04 de agosto de 2022 o aniversário da tragédia. Para muitos libaneses os silos tornaram-se um símbolo emocional e fundamental contra o esquecimento do dia que mudou Beirute para sempre.

Nathalie Chehine faz parte de uma equipa de arquitetos que a par dos familiares das vítimas quer transformar os silos num memorial.

"O governo não fez nada até agora. Tal como na investigação judicial, tudo está em suspenso", diz à Lusa Chehine. "Os silos do meio ainda contêm grão e temos receio que o mesmo cenário de um incêndio e colapso possa acontecer", diz.

Em abril de 2022, o governo Libanês aprovou a decisão de demolir completamente os silos para construir um monumento a relembrar as vítimas. Após críticas pela parte dos familiares das vítimas, o primeiro-ministro interno Najib Mikati voltou atrás e pediu ao Ministério das Infraestruturas para preservar o que resta dos silos e transformar as ruínas num memorial.

Porém, um ano depois, os silos continuam intocados. Dos grandes cilindros brancos pendem pedaços da estrutura metálica meio queimados. As gaivotas voam à volta da estrutura que emite um cheiro nefasto nos dias mais quentes, resultado do grão apodrecido. Na margem da autoestrada que separa o porto do resto da cidade há uma estátua de ferro já enferrujada de uma balança e um martelo, com as palavras "agir por justiça". Nos separadores de betão foram aparafusadas pequenas chapas de metal com fotografias das vítimas, já pintalgadas por sardas de ferrugem.

"Beirute é uma das cidades mais antigas do Mediterrâneo, e há pessoas a viver aqui há milhares de anos. Portanto, conservar este tipo de património, também preserva a identidade das pessoas e toda a história dos últimos cem anos pelo menos", diz à Lusa o engenheiro Georges El Chami no bairro de Rmeil, a poucas centenas de metros do porto.

Aqui, vários prédios já foram reabilitados pela ONU. Os edifícios com grandes janelas em arco de estilo Otomano foram pintados em tons pastéis de amarelo, azul e grená, tradicionalmente mediterrâneos.

No entanto, metade dos proprietários ainda não voltou às suas casas. Alguns encontraram outros sítios onde viver, outros estão traumatizados, diz Taina Christiansen.

Em algumas casas já se veem sinais de vida: um par de meias penduradas num estendal, uma gaiola com um periquito à porta de uma casa.

"Pelo menos assim os edifícios estão protegidos", congratula-se a diretora da ONU. "Caso contrário, muitas propriedades iam ser demolidas e perdidas para sempre", adianta.

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