Recordações da guerra continuam vivas na memória de um voluntário de paz em Bagdad
** José Coimbra (texto) e Nuno Veiga (fotos), agência Lusa **
Évora, 16 Mar (Lusa) - Cinco anos após o início do conflito armado no Iraque, Humberto Baião, um alentejano voluntário numa acção humanitária em Bagdad, recorda os primeiros trinta dias de uma guerra vividos na primeira pessoa.
"Nunca pensei que as coisas fossem daquela forma. A guerra começou no momento em que eu pus o primeiro pé no Iraque", recorda Humberto Baião, hoje com 53 anos, numa entrevista à agência Lusa.
"De repente", lembra, "vejo guardas armados a correr na minha direcção, a gritar em árabe, e que passaram por mim e não me ligaram nada. Foram baixar as barreiras da fronteira e estender o arame farpado. A guerra tinha começado".
Nesse momento, começou aquilo a que Humberto Baião chama de "montanha russa", um escalar de episódios bélicos, que inviabilizaram o cumprimento de muitas acções humanitárias que os 1500 voluntários, de 17 nacionalidades, se tinham proposto assegurar.
"O nosso objectivo era trabalhar em sintonia com a Cruz Vermelha Internacional, o Crescente Vermelho e a Assistência Médica Internacional (AMI). Ajudar naquilo que fosse preciso. Claro que ninguém cumpriu esses objectivos", reconheceu.
Nos trinta dias vertiginosos da "montanha russa", assistiu a inúmeros bombardeamentos, que mataram centenas de civis iraquianos e que lhe gravaram na memória imagens que o tempo insiste em manter frescas.
"Uma das situações que me marcou mais foi retirar os corpos de dentro de um carro calcinado por uma explosão. Percebemos que se tratava de uma família onde estava uma criança carbonizada. Quando um amigo meu lhe pega para a tirar do carro, o braço parte-se e faz um som idêntico ao de um madeiro queimado quando cai na lareira", lembrou o ex-voluntário em Bagdad.
Entre o retirar pedaços de corpos desfeitos nos mercados bombardeados e olhares civis a vaguear pelas ruas de Bagdad, sem rumos definidos, outro episódio assola-lhe a memória.
"Ia de autocarro para o acantonamento onde estava e já não me lembro bem porquê, mas fizemos um desvio no percurso. No momento do desvio, cai uma bomba numa central de comunicações que provoca uma onda de pressão de tal ordem que, pura e simplesmente, à frente dos nossos olhos, decepou uma mãe que levava uma criança pela mão. A criança ficou ali como que paralisada, como se tivesse sido transformada numa estátua de gelo. E ainda hoje penso que ela está assim, que continua parada como ficou naquele momento", recordou.
Durante o mês em que esteve em Bagdad lembra-se de nunca ter visto "os iraquianos de bandeira dos Estado Unidos da América (EUA) na mão e abraçados aos soldados americanos".
"Nunca vi aquilo a que assisti cá no 25 de Abril, em que nós abraçámos e beijámos as nossas tropas porque libertaram o país de uma ditadura", salientou.
A história deste licenciado em História como voluntário no Iraque começou no instante em que a "vontade de provocar alguma mudança nos rumos do mundo" o leva a aceitar o convite de uma instituição de solidariedade inglesa para ir para a capital iraquiana.
"Estava à espera de algo desse género para ter uma desculpa para dizer à família e aos amigos `vou ali e já venho`" e a "razão que me levou foi apenas uma questão de solidariedade para com o povo iraquiano", afirmou.
De malas feitas, embarcou no dia 20 de Março de 2003 no Aeroporto de Lisboa rumo ao Médio Oriente.
Quando saiu de Portugal, a paz que reinava no Iraque era já muito frágil, fugidia como a areia do deserto que teima em escorrer por entre os dedos.
Na Cimeira dos Açores realizada a 16 de Março de 2003, que reuniu George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, foi anunciado ao mundo o início de uma intervenção militar no Iraque e que começou quatro dias depois, a 20 de Março e 2003.
Da experiência como voluntário no Iraque considera, ainda, que muitos dos órgãos de comunicação social presentes em Bagdad não retrataram a realidade de uma "cidade que era linda e que ficou completamente arrasada" e manifesta-se contra o "rótulo" de "Escudo Humano", que os jornalistas portugueses lhe colocaram.
"Não aceito que me chamem isso, porque dá a impressão que sou um tolinho e que fui para lá de peito aberto às balas para defender uma ou outra posição. E se há coisa que eu não sou é parvo. Estava lá a cumprir uma missão a que me tinha proposto", explica indignado à Lusa.
Ainda sobre este mal entendido, pensa que se ficou a dever a um erro de tradução do inglês para o português, porque uma das cadeias de solidariedade que lá estavam representadas era a "Human Shield Action to Iraq 2003".
Com as eleições presidenciais dos EUA marcadas para Novembro deste ano, e cinco anos após o início do conflito bélico, considera que "quem for sufragado, Democratas ou Republicanos, tem agora a única oportunidade para sair do Iraque".
"A única solução é os americanos saírem, como fizeram no Vietname", conjecturou Humberto Baião.
Depois de trinta dias no palco de guerra iraquiano regressou a Portugal, juntamente com os três voluntários portugueses com que partiu, e retomou as funções de presidente da Cooperativa de Solidariedade Social "Novo Sol", em Évora.
Na cidade alentejana já escreveu as memórias num livro a que deu o título de "A Guerra no Iraque - A experiência inesquecível de um voluntário de paz durante a tomada de Bagdade".