Recordações dos primeiros tempos da Berlim pós-Muro

Recordações dos primeiros tempos da Berlim pós-Muro

Cheguei a Berlim em Maio de 1990, cinco meses depois da data oficial da queda do Muro, como correspondente de um jornal de Lisboa. Na vida real, o Muro continuava a existir, embora de forma mitigada.

RTP /

Existia fisicamente e existia no plano administrativo. Os alemães já podiam circular livremente de uma metade da cidade para a outra. Bastava-lhes apresentarem um passaporte da RFA ou da RDA. Nós outros, estrangeiros, tínhamos de pagar um visto válido por 24 horas (na foto, em baixo).



Comecei por viver provisoriamente em Berlim ocidental, primeiro em Moabit, depois em Charlottenburg. Ia com frequência a Berlim Leste e por isso conservei vários desses vistos.Os coleccionadores de moedas e a taxa de câmbioAo contrário de tantas pessoas que viveram esses tempos, não conservei notas e moedas orientais. Por vezes têm-me chamado somítico por me ter desfeito de todas. Mas há uma explicação.

Ao princípio, chegava a Berlim leste com marcos da RFA e comprava aos cambistas informais, geralmente vietnamitas, os marcos orientais com a efígie de Marx, Engels, Lenine, Luxemburg, Liebknecht e, salvo erro, de Hans Beimler. O câmbio era então de 4:1. Tudo indicava, portanto, que no momento da unificação monetária o mais avisado fosse conservar para colecção uma boa quantidade dessas notas e moedas de baixo valor.

Acontece que, conforme se aproximava a data da unificação monetária, se foi adensando a especulação sobre a taxa de câmbio. E havia mesmo quem começasse a prever que Helmut Kohl se decidiria pelo câmbio 1:1, como grande prenda de unificação aos “Ossis” (alemães orientais).

Termómetros altamente sensíveis a toda a especulação, os cambistas vietnamitas começaram a baixar a pouco e pouco a sua oferta pelos marcos ocidentais e a oferecer mais aos visitantes que, no regresso, queriam recuperar o dinheiro pago pelos marcos do Leste.

São desse tempo os bons negócios que fizeram alguns alemães mais aventureiros, de um lado e do outro. Apostando no câmbio 1:1, houve muito “Wessi” (alemão ocidental) com parentes ou amigos de confiança no Leste que investiu poupanças avultadas na compra de marcos orientais e os depositou na conta desse parceiro “Ossi”. A aposta rendeu: em Outubro de 1990, os marcos orientais comprados por 4:1 estavam em contas que passaram a valer 1:1.Quando se oferecia um automóvel a um desconhecidoPara os trabalhadores “ossis” foi uma festa, porque os seus salários passaram a ser pagos numa moeda que valia quatro vezes mais do que antes. Tinha passado a haver muitos bens de consumo que antes só existiam na televisão ocidental, a mais vista na RDA.

Alguns bens de consumo perecíveis, como as bananas, faziam parte do imaginário “ossi”. E davam lugar às anedotas sobre aqueles propagandistas do capitalismo que subiam aos prédios mais altos de Berlim ocidental e agitavam uma banana à vista dos angustiados “ossis”, para lhes demonstrarem graficamente a falência do “socialismo real”.

A escassez que se vivia em Berlim leste tinha criado uma cultura própria, com hábitos originais. Dizia-se que os “ossis” eram reconhecíveis, entre outros traços de indumentária, por andarem sempre com um saco de plástico. Quando viam uma fila em frente de qualquer loja, tinham fama de alinhar nela e de se disporem a esperar, mesmo sem saberem por quê.

Por muito que houvesse pontos acrescentados a estes contos, a verdade é que a compra de um gravador de vídeo e de um Volkswagen Golf se encontrava entre as primeiras aspirações de muitos trabalhadores “ossis” logo para o primeiro dia depois da unificação monetária. Confirmam-no as estatísticas de vendas desses bens de consumo mais duradouros, que subiram em flecha nos primeiros tempos da unificação.

Para mim, confirmava-o também uma constatação de carácter mais prático. Para conseguir um carro que facilitasse as minhas deslocações, bastava-me consultar o “Zweite Hand”, um jornal que anunciava vendas ou ofertas de artigos em segunda mão. Aí, havia sempre uma longa coluna de “Trabants”, que o proprietário oferecia de borla a quem quisesse levá-lo.



A oferta não era um acto de generosidade: as inspecções eram muito exigentes e pagava-se 100 marcos para ser aceite no sucateiro um automóvel em fim de carreira. Por outro lado, os trabalhadores “ossis”, cheios de confiança no futuro, já estavam a pagar as prestações dos seus “Golfs”. Era bem vindo quem viesse livrá-los do pagamento dos tais 100 marcos.

Foi assim que obtive, de borla, o meu primeiro “Trabi” – o diminutivo carinhoso que os “Ossis” tinham inventado para o “Trabant” no tempo, tão próximo mas tão distante, em que inscreviam os seus filhos em listas de espera ainda antes de nascerem; em que vendiam os lugares na lista se entretanto, uns anos depois, tinham algum aperto financeiro; em que faziam uma festa por chegar finalmente a sua vez e por receberem esse veículo primitivo e, apesar de tudo, simpático.

Mas é verdade que o “Trabi”, símbolo da RDA, irmão mais pobre do “Wartburg” destinado à Nomenklatura, tinha os dias contados. Havia uma lenda alimentada pelos ecologistas ocidentais, segundo a qual ele seria biodegradável. Ilustrava-a a popular fotografia de um porco a comer um “Trabi”.

Essa lenda, aliás, revelava-se falsa. A carroçaria de cartão prensado revestida de fórmica, e equipada com um motor de velocípede, só era mais frágil nos acidentes rodoviários, em que raramente alguém sobrevivia. Para apodrecer na terra ou para ser devorada pelo gado suíno, o “Trabi” não servia.A difícil arte de fazer um telefonema
Com a unificação monetária, em Outubro de 1990, passei também a viver em Berlim leste, onde os alugueres eram substancialmente mais baratos. A primeira casa que aluguei ficava mesmo em frente da famosa Gethsemanekirche, a igreja onde antes se reuniam os dissidentes. Era a cerca de um quilómetro do Muro, que agora tinha uma passagem por baixo a dar acesso à antiga Berlim ocidental.

Ainda não havia telemóveis - sim, houve vida antes dos telemóveis! - e os apartamentos de Berlim Leste raramente tinham telefone fixo. Parece que só os dissidentes tinham telefone: os seus pedidos de instalação de telefone eram atendidos com prioridade, para poderem ser escutados pela Stasi, a polícia política. Mas não era o caso da pessoa que nos alugou essa primeira casa oriental. E as cabines telefónicas em Berlim leste estavam ao nível das restantes telecomunicações, ou seja, muito próximo do zero.

Foto: Elsa Sertório

Sempre que queríamos fazer uma chamada, precisávamos de caminhar até ao Muro e passar o túnel até à primeira cabine telefónica do lado ocidental. Quando realizávamos essa expedição, encontrávamos sempre a cabine ocupada e uma fila de pessoas, “ossis” como nós, à espera de vez. Alguns notavam que éramos “ossis” falsos e resmungavam por lhes fazermos perder tempo, numa terra que não era nossa.

Meses depois, mudei para uma outra casa, também do lado oriental, mais longe do Muro. Mas aí já não precisava de vir telefonar ao lado ocidental, porque tinha começado a haver cabines telefónicas em Berlim Leste, mesmo no meu bairro, de Friedrichshain, perto da enorme estátua de Lenine que, suponho, é a que se vê transportada em helicóptero no filme “Goodbye Lenine”. E, passado mais algum tempo, até começámos a ter telefone em casa.Luz e sombra da Berlim pós-MuroEntretanto, tudo estava a mudar. Era mais fácil conseguir a instalação de um telefone, mas era mais difícil manter o emprego. Os transportes públicos tinham passado a seguir trajectos mais racionais, sem serem cortados pelo Muro, mas o princípio dos vasos comunicantes ia fazendo subir os alugueres de Berlim leste. Toda a gente podia ir para todo o lado, mas começava, aqui e ali, a ver-se algum “Stau” – engarrafamento, algo que era desconhecido na Berlim ocidental cercada pelo muro.

Os trabalhadores ocidentais, que recebiam uma espécie de subsídio de cerco, por viverem no meio de território hostil, os jovens dispensados de fazerem a tropa, todos deixavam de poder contar com esses engodos para virem fixar-se em Berlim. Alguns lamentavam mesmo a queda do Muro, acrescentando que achavam bem, mas que eles, pessoalmente, tinham ficado pior.

À imigração turca, pioneira em Berlim ocidental e criadora do fascinante bairro de Kreuzberg, juntavam-se agora as de outros países. Até portugueses começou a haver. Antes contavam-se pelos dedos. Um dia, encontrei um, quando deambulava por Wedding, antigo bairro operário da metade ocidental.

Tinha esquecido o tempo, mergulhado nos fabulosos alfarrabistas berlinenses, que hoje quase desapareceram. Também o erudito francês Daniel Guérin se tinha deixado fascinar de tal modo por esses alfarrabistas que, em 1936, à primeira vista, pensou que o maior crime do nazismo eram os autos-de-fé de Goebbels.

Por mim, procurava livros e encontrei, também, bacalhau. Era em Wedding a mercearia do sr. Manuel, um veterano da cidade, que tinha fugido de Portugal por recear que a PIDE o prendesse, depois da campanha de Humberto Delgado. Não devia ter feito nada de especial, porque, depois de acalmarem os ânimos, achou que podia regressar à terra natal. Mas decidiu-se a ficar em Berlim porque - explicou-me com um piscar de olho - “as alemãs são doidas pelos morenos”. E lá ficou, mais trinta e tal anos.

Agora, começava a haver muito mais portugueses na cidade que deixou de estar cercada. Na rua cheguei a encontrar dois que tinham sido vigarizados por um angariador de mão-de-obra e que agora viviam, com todos os colegas, numa caserna abandonada pelo Exército Vermelho.Privatizações e desempregoNeste turbilhão de mudanças, mudavam também, principalmente, a paisagem económica e o mercado de trabalho. Muitas empresas leste-alemãs foram encerradas por terem métodos e equipamentos obsoletos. Mas outras eram competidoras importantes das congéneres ocidentais. Foi criado um organismo, a Treuhandanstalt, que devia preparar a privatização da economia oriental.

A Narva, de Berlim, por exemplo, era uma empresa-modelo da RDA para a produção de lâmpadas, e foi comprada pela Osram, ocidental. O objectivo era desmantelá-la e ficar com a quota de mercado. As minas de Bischofferode, na Turíngia, eram importantes produtoras de potássio e foram compradas pela BASF, ocidental, pelo mesmo motivo.

Tinha passado a euforia dos primeiros tempos. Os trabalhadores “ossis” começaram a ser despedidos ou mesmo a ver fechar as empresas onde trabalhavam. O choque foi muito maior do que no ocidente. A RDA praticamente tinha vivido em regime de pleno emprego. Quem ficasse desempregado era visto com desconfiança e, geralmente, rotulado de “associal” – ou seja, preguiçoso e vadio. Os desempregados do pós-Muro conservavam esta mentalidade e, muitas vezes, continuavam a sair de casa de madrugada para os vizinhos pensarem que iam para o trabalho.

Onde não era possível jogar às escondidas com o desemprego era nas contas. Muitos tiveram de desistir de pagar as prestações do seu “Golf”. Assistiu-se então a um segundo fôlego do “Trabi”. Voltou a haver mercado para o carro “ossi”. O meu segundo “Trabi”, já tive de comprá-lo – mesmo assim pelo preço ridículo de 260 marcos, com o depósito cheio.

Foto: Elsa Sertório

Os subsídios de desemprego ocidentais, mesmo para os salários mais modestos dos “Ossis”, continuavam a ser melhores do que os salários anteriores à queda do Muro. Não se verificaram grandes convulsões sociais quando o desemprego aumentou dramaticamente.

Os sindicatos do Estado leste-alemão tinham sido dissolvidos e os trabalhadores tinham passado para os sindicatos ocidentais. Os conselhos de empresa que havia na RDA não tinham um papel muito importante mas, quando as empresas começaram a encerrar e os sindicatos ocidentais revelaram toda a sua impreparação para lidarem com esse problema novo, os trabalhadores viraram-se para os tais conselhos de empresa.

Os conselhos começaram a discutir uns com os outros como poderiam enfrentar o aumento do desemprego. Reuniram-se em três conferências, que chegaram a representar 300.000 trabalhadores.As greves dos mineiros e dos siderúrgicosA única luta importante que resultou daí foi a dos mineiros de Bischofferode, liderados pelo sindicalista democrata-cristão Heiner Brodhun (na foto, ao centro), que se considerava enganado pelas promessas de Helmut Kohl. Ocuparam as minas e chegaram a organizar uma marcha até Berlim, que criou embaraços ao Governo.

Foto: Elsa Sertório

Depois, houve também uma greve com ocupação na siderurgia de Hennigsdorf, a norte de Berlim, para impedir que ela fosse encerrada. Toda a gente tinha ouvido falar do heroísmo dos siderúrgicos de Hennigsdorf, que em Junho de 1953 meteram pés a caminho e vieram a Berlim apoiar os operários de construção da Stalinallee, que estavam em greve.

A luta, precursora da insurreição húngara de 1956, da "Primavera de Praga" e do "Solidariedade" polaco nos anos 80, tinha começado contra a “elevação das normas”, que ia obrigar os operários da construção a trabalharem mais horas para ganharem o mesmo. Mas em breve se tornou um questionamento profundo da ditadura existente. Os siderúrgicos de Hennigsdorf, sentindo que o assunto lhes dizia respeito, foram a Berlim. A revolta acabou subjugada pelos tanques soviéticos. A propósito, disse Bertolt Brecht na altura que, “se o governo [da RDA] não está contente com o povo, devia escolher outro povo”.

Quando tive notícia de que os colegas mais jovens destes insurrectos de 1953 estavam em greve, fui a Hennigsdorf. Era o “dia do pai”, habitualmente comemorado com festas populares, mas eu esperava encontrar à porta da siderurgia um piquete façanhudo, que não deixasse entrar ninguém.

E, na verdade, os grevistas tinham marcado no solo caminhos tão torcidos que nenhum camião conseguia entrar na fábrica. Tinham enchido o local de faixas de greve e de citações de Jack London contra os fura-greves. Da população local, solidária com os grevistas, havia muita gente à roda da fábrica que à noite aquecia as mãos em torno de bidões com lenha a arder.

Foto: António Louçã

E o piquete façanhudo de operários em fato-macaco que eu esperava encontrar era, afinal, um magote de grevistas vestidos de camisa de noite e touquinhas de renda (na foto, à direita), na melhor tradição das comemorações pagãs do “dia do pai”. Recebiam os visitantes com alegria, comiam, bebiam e dançavam. Mas a velha siderurgia de Hennigsdorf estava tão condenada como o resto da indústria leste-alemã.
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