Recuperação lenta após cheias ameaça insegurança alimentar em Moçambique
Um relatório da rede FEWS NET alerta que a recuperação agrícola após as cheias em Moçambique no início do ano continua condicionada por problemas nas zonas afetadas, num contexto em que El Niño ameaça agravar a segurança alimentar.
No documento divulgado hoje, a Famine Early Warning Systems Network (FEWS NET) alerta que a recuperação das zonas afetadas pelas inundações continua condicionada por "alagamentos prolongados", degradação dos solos e acesso limitado a sementes, fatores que atrasaram a produção agrícola.
Acrescenta que estes constrangimentos provocaram um atraso superior a um mês nas plantações e colheitas da segunda época agrícola.
A organização, uma rede internacional de alerta precoce para crises alimentares financiada pelo Governo dos Estados Unidos, responsável pela monitorização e projeção de situações de insegurança alimentar e fome em diversos países, refere que, apesar de algumas melhorias previstas na segurança alimentar em partes do centro e sul do país durante os próximos meses, a situação continua vulnerável aos efeitos dos choques climáticos registados este ano.
As cheias de janeiro afetaram mais de 700 mil pessoas e provocaram danos em cerca de 440 mil hectares de terras agrícolas nas províncias de Maputo, Gaza e Sofala, seguindo-se períodos de seca e novos episódios de precipitação intensa entre fevereiro e março que agravaram as perdas agrícolas e pecuárias.
A última época das chuvas (por norma de outubro a abril) em Moçambique matou 314 pessoas, afetou mais de 1.078 milhões de pessoas e atingiu quase 260 mil casas, segundo atualização anterior do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Só as cheias de janeiro, as mais violentas em vários anos, provocaram 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos.
Segundo a FEWS NET, a assistência pós-cheias, as colheitas da segunda época agrícola e os rendimentos sazonais deverão permitir que algumas áreas passem de uma situação de "Crise" (IPC Fase 3) para "Stress" alimentar (IPC Fase 2) a partir de agora.
O relatório aponta que esta melhoria será apoiada pela "assistência pós-cheias", por "rendimentos sazonais" e por uma "favorável colheita da segunda época agrícola".
Contudo, alerta que a melhoria poderá ser temporária, prevendo que alguns distritos do centro e sul regressem a condições de crise entre outubro e janeiro, quando aumentar a dependência dos mercados.
Segundo o relatório, "até outubro, as reservas alimentares das famílias deverão diminuir, aumentando a dependência do mercado", sendo que alguns distritos poderão "regressar a Crise (IPC Fase 3) até janeiro de 2027".
O relatório acrescenta que este cenário poderá ser agravado pelo fenómeno El Niño, que deverá prolongar-se pelo menos até janeiro: "O fenómeno El Niño está agora em curso e deverá persistir pelo menos até janeiro de 2027".
A FEWS NET acrescenta que o fenómeno deverá traduzir-se num início tardio e abaixo da média da próxima época chuvosa no sul e centro de Moçambique, além de temperaturas acima do normal. A organização considera que um "início abaixo da média da época chuvosa de 2026/27 é o cenário mais provável".
Estas condições poderão reduzir a produção agrícola da campanha 2026/27 e limitar as oportunidades de trabalho sazonal para as famílias mais pobres, alerta o relatório, apontando ainda que temperaturas acima da média no sul e centro de Moçambique deverão reduzir as atividades agrícolas durante a próxima época chuvosa.
A FEWS NET indica também que os preços do milho no sul do país estavam, em maio, entre 25% e 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto os preços do arroz se encontravam entre 20% e 40% acima da média histórica.
No conjunto do país, a organização estima que entre 1,5 e 1,99 milhões de pessoas poderão necessitar de assistência alimentar entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027, com o sul e o norte de Moçambique identificados como as áreas de maior preocupação.