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Orbán reconhece a derrota nas eleições da Hungria

Reinado de Orbán chega ao fim. Péter Magyar eleito novo primeiro-ministro da Hungria

Reinado de Orbán chega ao fim. Péter Magyar eleito novo primeiro-ministro da Hungria

As sondagens confirmaram-se e o líder da oposição, o pró-europeu de centro-direita, Péter Magyar, venceu um dos escrutínios mais disputados de sempre na Hungria. A votação, histórica, rondou os 80 por cento entre oito milhões de eleitores, um recorde para o país.

RTP /
Apoiantes de Peter Magyar, líder da partido da oposição Tisza, aguardam resultados das eleições legislativas Elisabeth Mandl - Reuters

Milhares de húngaros encheram as ruas de Budapeste para ouvir o discurso do vencedor, mal se souberam os resultados preliminares. Com 53,45 por cento dos votos apurados, o partido Tisza, de Magyar, obtinha 136 lugares no parlamento húngaro de 199 membros, contra 56 lugares do Fidesz, de Orbán.

Apenas uma hora e meia após o encerramento das urnas, Orbán reconheceu a derrota e concedeu a eleição para Péter Magyar, presidente do Tisza.

O resultado é "claro" e "doloroso" para o Fidesz, afirmou Viktor Orbán no seu discurso da noite eleitoral, revelando já ter felicitado o rival. 

"A responsabilidade e a possibilidade de governar não nos foram dadas. Felicito o vencedor", disse Orbán aos seus apoiantes em Budapeste.

"Vamos servir a nação húngara e a nossa pátria também na oposição", acrescentou, assumindo que não se irá afastar da vida política ativa, pelo contrário.

Agradecendo aos eleitores que votaram no Fidesz, Orbán prometeu que nunca os iria desiludir. "Nós nunca desistimos, isso é algo que as pessoas sabem sobre nós, nós nunca desistimos. Os dias que virão são para curarmos as nossas feridas", prometeu.
Maioria constitucional

Com 81,49 por cento dos votos apurados, o Tisza de Magyar tinha praticamente garantida a conquista de 137 a 138 lugares no Parlemento, mais cinco do que os 133 necessários para uma maioria com poder para alterar a Constituição.

Magyar é essencialmente conservador, mas uniu um amplo espectro de húngaros.

Espera-se que o governo que irá formar e que tomará posse dentro de dois meses, incluirá especialistas em saúde e educação, bem como economistas, cuja principal tarefa será a de resolver os problemas crónicos que têm surgido nas escolas, nos hospitais e na economia em geral.
Reações europeias

A eleição de Magyar é um alívio para os principais dirigentes europeus, depois de 16 anos de oposição de Orbán às políticas de Bruxelas.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, expressou isso mesmo ao felicitar a mudança efetuada. "O coração da Europa bate mais forte na Hungria esta noite", reagiu.

O chanceler alemão, Friederick Merz, felicitou Magyar pela vitória nas eleições e manifestou o desejo de cooperação para uma Europa unida, forte e segura. "Aguardo com expectativa a oportunidade de trabalhar convosco", escreveu Merz na rede X.

O presidente Emmanuel Macron, disse que "a França saúda esta vitória, que demonstra o apego do povo húngaro aos valores da união europeia", revelando também que já tinha ligado ao vencedor. 
Quem é Péter Magyar

Péter Magyar fez campanha com apelos a uma "mudança de sistema", prometendo combater a corrupção, reaproximar a Hungria da Europa e reverter as polémicas reformas da era Orbán, caso vencesse as eleições.

O primeiro-ministro eleito tem 45 anos, completados a 16 de março, e é um político e advogado húngaro, presidente do Partido Tisza e líder da principal oposição na política húngara.

É deputado do Parlamento Europeu desde 2024, tendo conquistado 30 por cento dos votos nas eleições europeias e estando inserido no grupo Partido Popular Europeu, cargo que ocupa em simultâneo com a presidência do Tisza.

Assegura que vai varrer a corrupção no país.
"Obrigada Hungria"

As urnas encerraram às 19h00 locais (18h00 em Lisboa) e, pouco depois, Péter Magyar discursou brevemente, descrevendo esta eleição como "um dia histórico". 

Agradeceu a todos os eleitores, por terem comparecido em números recorde e por reconhecerem a importância da eleição. 

"Obrigada Hungria", escreveu na sua página no Facebook.

Agradeceu também aos que se bateram contra o que chamou fraude eleitoral, referindo que os dados mostraram que a compra de votos terá sido menos eficaz do que nas eleições de 2022 e 2018.

O candidato da oposição criticou também o rival Fidesz, de Orbán, que acenou com a possibilidade de agitação violenta mais tarde. Magyar descartou a ideia como "uma alucinação".

Pediu por isso aos seus apoiantes para não reagirem a eventuais provocações, manterem a paz, ser pacientes e prepararem as celebrações mais tarde. Algumas sondagens nos últimos dias de campanha davam já a vitória à oposição liderada por Péter Magyar, do partido Tisza, roubando o poder a Viktor Orbán, primeiro-ministro há 16 anos.

Orbán, perdeu o que seria o seu quinto mandato. 

Na década e meia que chefiou a Hungria, ficou conhecido como aliado do presidente dos EUA, Donald Trump, pelos laços estreitos com o Kremlin, tendo sido acusado pela UE de minar a democracia na Hungria. 

Nos últimos anos procurou ativamente bloquear o apoio europeu, militar e financeiro, à Ucrânia após a invasão russa em 2022.
O fim de um reinado

Orbán, de 62 anos, foi apoiado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e por alguns dos principais conservadores europeus. A estagnação económica da Hungria e o cansaço dos eleitores ditaram contudo a viragem pró-europeia. Líder juvenil anticomunista fervoroso durante a Guerra Fria, Orbán, o presidente que mais tempo serviu na União Europeia, é um herói patriótico para os seus apoiantes, mas os críticos dentro e fora do país acusam-no de levar a Hungria por um caminho autoritário.


Nascido em 1963 numa aldeia a oeste de Budapeste, Orbán formou-se em Direito, estudou brevemente filosofia política em Oxford e chegou a jogar futebol semiprofissional antes de se tornar primeiro-ministro pela primeira vez em 1998, com apenas 35 anos.

A Hungria aderiu à NATO durante o governo de Orbán, mas este perdeu o poder em 2002. 

Após oito anos na oposição, conquistou uma vitória esmagadora em 2010, o que lhe permitiu reescrever a Constituição da Hungria e aprovar leis importantes com o objetivo de criar uma "democracia iliberal".

A sua consolidação do poder executivo, as novas restrições às actividades das ONG e à liberdade de imprensa, e o enfraquecimento da independência judicial, levaram a conflitos com a União Europeia sobre os padrões democráticos, culminando na decisão desta suspender milhares de milhões de euros de financiamento à Hungria.
Opinião esperava grande vitória de Magyar

Num país sem sondagens à boca das urnas, foram publicadas duas sondagens de opinião realizadas na última semana, para assinalar o fim da votação.

Ambas apontaram para uma grande vitória do partido da oposição Tisza, derrotando Viktor Orbán e elegendo Péter Magyar para chefiar o governo húngaro.

A sondagem da Median colocou o partido de Magyar com 57,1 por cento dos votos. Isto sugere que o Tisza conquistaria 135 lugares, pouco mais do que os 133 necessários para uma maioria de dois terços.

Outra sondagem, do 21 Research Centre dá a Magyar 55 por cento dos votos e 132 lugares.

A Median sugeria que o partido de Orbán deverá alcançar 37,1 por cento dos votos, e o 21 Research Centre, 38 por cento.
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