Relatório expõe anos de abusos sexuais em operações humanitárias

Relatório expõe anos de abusos sexuais em operações humanitárias

Um relatório apresentado esta terça-feira pelo Governo britânico revela que os abusos e a exploração sexual são “comuns em todo o sector da ajuda internacional” e têm como alvo tanto moradores como funcionários. O fenómeno perdura há vários anos.

RTP /
No início de julho, a Charity Commission recebeu 1152 queixas de abuso sexual depois do escândalo da Oxfam. Andres Martinez Casares - Reuters

De acordo com o relatório do Governo britânico, os casos de abuso sexual de mulheres e crianças por trabalhadores de ajuda humanitária internacional são conhecidos há anos. Mas pouco ou nada foi feito para os travar. E o fracasso é visto como coletivo.

O inquérito em causa, explica a CNN, tem testemunhos sobre trabalhadores que alegadamente exploraram pessoas que deviam ter ajudado. Uma das histórias diz respeito a uma menina sem-abrigo no Haiti que recebeu um dólar de um trabalhador de uma organização não-governamental (ONG) e depois foi violada.No início de julho, depois do escândalo da Oxfam, a Charity Commission recebeu 1152 queixas de abuso sexual.


inquérito do Comité de Desenvolvimento Internacional (IDC) surgiu depois de várias alegações de assédio e má conduta por parte de funcionários de várias ONG – incluindo a Oxfam e a Save The Children.

Ainda segundo o relatório, os presumíveis predadores só foram capazes de passar despercebidos devido à “preocupação e alarme” em que as pessoas se encontravam.

O comité criticou as organizações por não conseguirem resolver o problema, uma vez que tinham conhecimento, há vários anos, dos relatos de abuso.

“Repetidamente surgiram relatos de exploração e abuso sexual por parte de trabalhadores de ajuda humanitária, o sector reagiu mas o foco acabou por se perder”, acrescentou o relatório.

Stephen Twigg, presidente do comité, disse à CNN que o relatório definia “o fracasso coletivo durante um período de pelo menos 16 anos pelo sector de ajuda para abordar a exploração e o abuso sexual”.

“As organizações colocam a reputação à frente de mulheres, crianças e outras vítimas de exploração de abuso sexual”, acrescentou.

Pauline Latham, membro do comité, disse ao Guardian que o abuso visou sobretudo mulheres e meninas. Disse ainda que ouviu declarações de mulheres que para terem comida eram vítimas de abuso sexual. “É absolutamente chocante”, acrescentou.
Escândalos em organizações

Foi em fevereiro que surgiram suspeitas de que funcionários da Oxfam teriam pago a prostitutas durante uma missão após o terramoto no Haiti, em 2010.

Três funcionários renunciaram o cargo, inclusive o responsável pela missão, Roland Van Hauwermeiren. Segundo o jornal britânico Daily Mail, foi oferecido pela presidente-executiva da Oxfam, Dame Barbara Stocking, um acordo com uma “saída gradual e digna”, em vez de renunciar ao cargo, caso colaborasse com a investigação que estava a ser feita.No Haiti a prostituição é ilegal.


Um relatório da organização dado à Charity Commission em agosto de 2011 indicava que o responsável pela missão no Haiti admitira ter contratado adolescentes para sexo, mediante o pagamento de entre 70 a 140 libras com fundos da caridade.

Quatro funcionários foram despedidos por suposta exploração sexual, download de pornografia, bullying e intimidação.

A Oxfam foi acusada de encobrir os abusos e severamente criticada por não ter agido mais cedo. A instituição emitiu em fevereiro um pedido de desculpas ao Governo do Haiti.

Dias depois, o ex-presidente executivo da Save The Children, Justin Forsyth, seria acusado de assediar funcionários do sexo feminino entre 2011 e 2015. Entretanto em 2016 passou a trabalhar na UNICEF, mas em fevereiro deste ano demitiu-se.

A Cruz Vermelha também anunciou que demitiu 21 funcionários por “pagarem serviços sexuais” desde 2015.

Caroline Thomson, atual presidente da Oxfam, disse à CNN que a organização “existe para ajudar a melhorar a vida das pessoas mais vulneráveis do mundo. Sabemos que não conseguimos proteger as mulheres vulneráveis do Haiti e aceitamos que deveríamos ter relatado com mais clareza na época. Por isso estamos realmente arrependidos. Nós fizemos melhorias desde 2011, mas reconhecemos que temos de ir mais longe”, disse Thomson.
Gravidez, aborto e doença

O relatório mostrou que a exploração e os abusos sexuais atingem, designadamente, raparigas entre os 13 e os 18 anos. “Um humanitário engravidou-me, mas depois deixou-me e agora está com outra rapariga”, disse uma vítima à CNN.

Além da gravidez, os abortos e doenças sexualmente transmissíveis foram outros problemas para as vítimas.

Educação deficitária, redução de oportunidades de trabalho e exclusão social foram efeitos destes abusos, segundo o mesmo relatório.

A ONU chegou a anunciar uma série de medidas para combater o abuso infantil. No entanto, na guerra da Síria, a exploração sexual e os abusos por parte de agentes humanitários eram acontecimentos frequentes na vida de mulheres e crianças, especialmente em centros de ajuda humanitária, aponta-se no documento.
Tópicos
PUB