Ruanda avisa que sem garantias de "financiamento sustentável" retira-se de Cabo Delgado
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, avisou hoje que o destacamento ruandês que combate o terrorismo em Cabo Delgado vai sair do norte de Moçambique caso não haja garantias de "financiamento sustentável" à operação.
"Não se trata de o `Ruanda poder retirar`, mas sim de o `Ruanda retirará` as suas tropas de Moçambique, caso não seja garantido financiamento sustentável para as suas operações antiterroristas em Cabo Delgado", disse o chefe da diplomacia ruandesa, numa mensagem na sua conta oficial na rede social X, a segunda posição oficial do Governo em menos de 24 horas.
A posição surge quando se aproxima o fim do apoio financeiro da União Europeia (UE) à operação, em maio, ao fim dos 36 meses previstos e de desembolsos de 40 milhões de euros, e numa altura em que os Estados Unidos da América (EUA) - que financiam o megaprojeto de Gás Natural Liquefeito (GNL) liderado pela francesa TotalEnergies em Cabo Delgado - aplicaram sanções às Forças de Defesa do Ruanda (RDF), devido ao conflito na República Democrática do Congo.
"Não investimos centenas de milhões de dólares e os nossos soldados das RDF não fizeram o sacrifício supremo para estabilizar esta região, permitir que os deslocados internos regressassem a casa, as crianças regressassem à escola, as empresas reabrissem e os mega investimentos em GNL fossem retomados, apenas para ver os nossos valentes soldados a serem constantemente questionados, vilipendiados, criticados, culpados ou sancionados pelos mesmos países que beneficiam enormemente da nossa intervenção em Moçambique", avisou Nduhungirehe.
"De facto, estamos prontos para deixar Moçambique, caso o nosso trabalho e as nossas conquistas não sejam reconhecidos", enfatizou na mensagem, publicada poucas horas depois de também a porta-voz do Governo ruandês, Yolande Makolo, ter comentado: "Caso o Comando das RDF avalie que o trabalho desenvolvido pelas Forças de Segurança Ruandesas em Cabo Delgado não é valorizado, terá razão em instar o Governo a pôr fim a este acordo bilateral de combate ao terrorismo e a retirar-se da região".
O Governo moçambicano assumiu na sexta-feira "preocupação" e "choque" pelo fim do apoio da UE às RDF, garantindo que procura alternativas e que as sanções dos EUA não afetam a operação do Ruanda em Cabo Delgado.
"Antes mesmo de chegar a maio, teremos que ter uma clara evidência sobre o que é que efetivamente deverá acontecer sobre isto. Mas também, uma vez anunciado, foi um choque", disse o porta-voz do executivo, Inocêncio Impissa, questionado pela Lusa num `briefing` com jornalistas, em Maputo.
Trata-se de um apoio de 20 milhões de euros previsto desde que foi acordado, em novembro de 2024 - seguiu-se a outro apoio idêntico de igual valor em 2022 -, para totalizar um período de assistência de 36 meses, que agora termina, financiado, nomeadamente, a aquisição de equipamento pessoal e transporte aéreo estratégico.
A porta-voz do Governo ruandês sublinhou que a "sustentabilidade" deste destacamento em Moçambique "depende de um financiamento adequado e previsível" e da circunstância dessas forças "serem, de facto, necessárias".
"O custo total para o Governo do Ruanda é, pelo menos, dez vezes superior, para além do sacrifício final da perda de vidas de soldados, tudo para estabilizar Cabo Delgado", disse Yolande Makolo, recordando que aquele contingente foi enviado a "pedido do Governo moçambicano".
O apoio às forças do Ruanda que combatem o terrorismo em Cabo Delgado termina em maio, não havendo negociações para a sua continuidade, disse na sexta-feira fonte da delegação da UE em Moçambique, questionada pela Lusa: "Até ao momento, não estão previstas medidas adicionais no âmbito deste mecanismo para além deste período".
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reclamados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico que se estima terem provocado cerca de 6.500 mortos.
Mais de 2.000 militares do Ruanda colaboram nas operações de segurança das forças moçambicanas, sobretudo próximo ao megaprojeto de gás da TotalEnergies, cuja construção foi retomada em janeiro, quase cinco anos após a suspensão devido aos ataques terroristas, e com a petrolífera a enfatizar a importância dos acordos para a presença da força do Ruanda naquela área.