Saneamento e resíduos tóxicos condicionam êxito de drenagem em Díli

Saneamento e resíduos tóxicos condicionam êxito de drenagem em Díli

Um consultor ligado à construção drenagem em Díli, a implementar pelo Governo timorense, disse que à Lusa que o êxito da obra depende também dos projetos de saneamento básico e gestão de resíduos sólido na capital.

Lusa /

Mário Santos, responsável da Águas de Portugal - consultora de engenharia e desenho no projeto de drenagem desde 2014 - explicou que os três projetos estão "interligados" e são nevrálgicos para a melhoria da habitabilidade e condições de vida na cidade.

Em entrevista à Lusa, Mário Santos notou que a cidade vive hoje com duas realidades, uma zona, a mais antiga, de construção e urbanização mais regulada, e outra, que tem crescido em todas as direções, com obras desreguladas e até ilegais.

Muitos dos habitantes confundem a drenagem com o saneamento básico, com ligações de esgotos aos canais de escoamento que são também usados como depósitos de lixo, um problema quer em termos ambientais quer no crescente impacto de inundações na cidade.

"As pessoas tratam os canais de drenagem como saneamento. Daí que o plano diretor abranja também questões ligadas ao saneamento. E há ainda a considerar a questão da gestão dos resíduos sólidos na cidade", explicou.

Santos falava à Lusa à margem da apresentação hoje em Díli, por vários membros do Governo, das equipas técnicas que vão começar os processos de expropriação necessários para a implementação do projeto de drenagem que, segundo estimativas iniciais, afetará quase 800 famílias.

O projeto, que deverá estar concluído em 2025, tem um custo estimado de 350 milhões de dólares (295,77 milhões de euros) -- dos quais 210 milhões de dólares (177,47 milhões de euros) serão apoiados pela norte-americana Millenium Challenge Corporation.

Considerado "crítico", o projeto de melhoria do sistema de drenagem terá impactos ambientais e sociais significativos e "inevitáveis" em Díli, onde o crescimento da população tem levado à construção desregulada e a problemas em vários dos antigos canais de drenagem.

Liderado pelo Governo timorense, o projeto conta, desde 2014, com a participação das Águas de Portugal - Timor-Leste (AdP-TL), na questão da engenharia.

Mais recentemente juntou-se ao projeto o consórcio de consultores da empresa luso-timorense Oasis Sustainable e da portuguesa JGP-Portugal, responsáveis pelo estudo de impacto ambiental já concluído, esperando-se em breve a atribuição dos certificados ambientais.

A AdP começou a trabalhar com base num primeiro plano diretor, feito por empresas australianas, que mostrou "várias lacunas".

Nos últimos anos conduziu uma extensa e detalhada análise e levantamento, com imagens em 3D, modelação das bacias hidrográficas, registos de precipitação, a modelação e digitalização do terreno e, posteriormente, simulações de eventos de precipitação.

"Assim pudemos determinar que canais precisam de ser reabilitados ou construídos", frisou.

Entre as zonas mais problemáticas, notou, contam-se a do Aeroporto Internacional Nicolau Lobato - que já sofreu inundações no passado -, a zona da estação de polícia de Becora e outras onde as saídas para o mar não existem ou mostram grandes fragilidades.

"Todos os canais identificados vão ser reabilitados e construídos. Onde existem vão ser alargados ou reperfilados, aumentando a inclinação par promover a velocidade de autolimpeza", explicou.

Serão ainda abrangidos os locais onde os canais chegam ao mar e que, em muitos casos, estão assoreados, bloqueados ou em cotas acima do fluxo do canal.

Parte do problema do sistema deve-se ao paralelo sistema de saneamento - que muitos confundem com a drenagem - com ligações diretas de esgotos aos canais e o uso destes para lixo, contribuindo para problemas ambientais e para as inundações.

Motivo pelo qual, recordou, a AdP colaborou também no desenho de um ainda mais complexo sistema de saneamento para a cidade que passará pela construção de uma ETAR (Estação de Tratamento de Águas Residuais) centralizada e por necessárias soluções de engenharia criativas, especialmente em bairros onde a construção foi feita de forma desordenada e não regulada.

"Tem que haver aqui um trabalho não apenas na gestão de resíduos, mas na educação ambiental", sublinhou.

No caso do saneamento, disse, a proposta mais recente é a de construção de uma ETAR centralizada o que reduz o impacto em termos de expropriações, em relação a ETAR de pequenas dimensões.

"Ter uma só instalação também torna mais fácil operacionalizar, gerir e manter a unidade", frisou.

Ainda que a questão da ETAR e até dos coletores principais seja menos problemática, o "complicado é quando se entrar na rede em baixa, nas pequenas ligações às casas", o que coloca desafios de engenharia e exige soluções diferentes.

"Em muitos bairros, zonas não estruturais e de construção orgânica, não conseguimos acomodar as soluções tradicionais de engenharia. Há soluções, incluindo processos faseados, com intervenções paralelas à reabilitação desses bairros", notou.

Para isso, disse, é essencial aprovar a regulamentação dessas situações, tanto para construções novas - "acautelando ligações à rede pública" -, como para resolver a situação em construções existentes, onde as famílias podem não ter capacidade de pagar os custos associados.

 

 

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