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Santos Silva: fim do eixo transatlântico teria "feitos devastadores"
Sobre as mais recentes declarações do Presidente dos EUA, Donald Trump, Augusto Santos Silva não tem dúvidas em se assumir "preocupado". O que não impede colaboração com Washington. O ministro aborda as três áreas em que Portugal espera cooperação com os Estados Unidos e sublinha os perigos de uma quebra do eixo transatlântico. Já a atual situação mundial é, para a Europa, uma "oportunidade".
O ministro português dos Negócios Estrangeiros lamentou que as negociações do TTIP, o Tratado de Livre Comércio que estava a desenhar-se entre o bloco europeu e os EUA, estejam agora bloqueadas devido à estratégia protecionista da no Administração norte-americana.
Pelo contrário, a União Europeia e o Canadá assinaram um tratado semelhante e, para Augusto Santos Silva, o que é necessário agora é mostrar "que esse tipo de acordos resultam em benefícios para ambas as partes".
Garantir o eixo transatlântico
O ministro dispensa ainda a análise do provável novo embaixador dos EUA para a Europa, o economista Ted Malloch, que aposta no desaparecimento do euro "dentro de ano e meio". Santos Silva prefere dar destaque ao trabalho da política externa que "não é um jogo de apostas".
"Não acredito que os americanos estejam interessados em mudar radicalmente a relação que construíram com a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial", afirma o responsável pela política externa portuguesa, que também não acredita em objetivos de "desestabilizar a Europa" atribuído a frases de Trump em apoio ao Brexit.
"Não é o nível de linguagem apropriado para a relação entre Estados", reconhece o ministro, criticando não a liberdade de apoiar o Brexit mas a forma de exprimir essa convicção.
Há ainda uma relação histórica entre a Grã-Bretanha, de saída do projeto europeu, e os Estados Unidos, o que é normal, afirma.
Mas "o ponto importante aqui é que seriam efeitos absolutamente devastadores para a ordem internacional democrática em que nós nos revemos se a unidade transatlântica fosse quebrada" sublinhou Santos Silva.
A posição americana na NATO, lembra o ministro, foi recentemente clarificada, de acordo com a ministra britânica Theresa May e o secretario-geral da Aliança Atlântica, e não parece estar em causa, "felizmente".
A questão NATO
"Nós todos, os 28 membros da NATO, já nos comprometemos com uma aproximação progressiva e gradual a um objetivo que definimos", de ter em gastos de segurança e defesa "o equivalente a dois por cento da riqueza que cada um de nós produz anualmente".
"Mas isto não se faz de um momento para o outro", refere Santos Silva, lembrando ainda que a NATO não é, como muitos pensam nos Estados Unidos, um sistema de defesa da Europa pago pelos americanos mas antes em muitos casos "um sistema de defesa dos interesses norte-americanos".
"Isto não se mede em dólares ou em euros".
Augusto Santos Silva dá o exemplo da participação portuguesa nas operações da NATO, quando é um país que não coloca problemas de segurança nem "nenhum condicionamento desproporcionado". "Isso tem de ser contabilizado", argumenta.
Sobre a possibilidade de EUA e Grã-Bretanha estabelecerem um acordo comercial próprio, o ministro afirma a sua legitimidade mas só depois de 2019, já que até essa data a Grã-Bretanha é membro da União Europeia.
Cooperação em três temas
Portugal tem estado em negociação com a nova Administração norte-americana e deverá pedir um encontro imediato com o próximo Secretario de Estado ainda não aprovado pelo Senado, Rex Tillerson, mal este seja nomeado, como se espera, para o cargo.
"Temos três temas em cima da mesa na relação bilateral todos eles muito importantes", afirma o ministro português.
A cooperação na área da segurança e defesa, incluindo a Base das Lajes, onde, num segundo momento e se os EUA insistirem em reduzir a sua presença na Ilha Terceira, poderá ser instalada uma nova estrutura de apoio à segurança marítima atlântica.
Um terceiro tema é o aumento da cooperação nas áreas da Tecnologia, da Ciência, do Ensino Superior e da Energia. O projeto português, o Centro Internacional Atlântico, prevê usar os Açores como base de "um grande centro internacional à imagem do CERN em Genebra, dedicado às áreas críticas do Espaço, do Oceano e do Clima".
"Esse projeto tem também como interlocutor, entre os primeiros, os Estados unidos", refere Santos Silva. "Há muito trabalho a fazer, há uma agenda muito cheia", acrescenta, destacando o "conhecimento recíproco, grande amizade e grande lealdade".
O papel da Europa
Já quanto ao decreto anti-imigrante de Trump, o responsável pela diplomacia portuguesa lembra que vai contra aquilo que é defendido pela Europa e por Portugal e que segue o direito internacional, de dar apoio aos refugiados.
"A nossa diferença com esta ordem executiva norte-americana é clara e límpida", afirma Santos Silva.
Mas os próprios Estados Unidos estão profundamente divididos, pelo que é necessário esperar.
"Temos de dar tempo aos nossos amigos americanos para chegarem a um consenso interno", avança Santos Silva, lembrando o princípio de não ingerência nos assuntos internos de outros países.
Já quanto à política de vistos, ninguém defende que "os Estados renunciem ao escrutíneo de segurança sobre aqueles que querem entrar nesses Estados".
Algo diferente é impedir todas as pessoas categorizadas de determinada forma, como a raça, a religião ou a proveniência, de entrar num dado país, refere o ministro português. Também em relação ao Médio Oriente é preciso aguardar, refere Santos Silva, sustentando a sua confiança na coerência da política americana.
Referindo desconhecer casos de portugueses impedidos recentemente de entrar nos EUA, Augusto Santos Silva mostra-se otimista com as mudanças que se estão a verificar no mundo. "Estas mudanças são uma oportunidade para Europa, para reforçar a unidade europeia, para reforçar o papel europeu. Isso é muito importante em termos de geopolítica", afirma o ministro português.
"É preciso que alguém que fale com a China de forma não hostil, é preciso alguém que fale com a Rússia de forma não hostil mas firme e é preciso alguém que fale com as grandes regiões do mundo e é preciso alguém para quem o multilateralismo, portanto o sistema das Nações Unidas seja a pedra de toque da ordem internacional".
"E neste momento é cada vez mais claro que esse alguém é a Europa".
Afastando a possibilidade de um conflito global, Santos Silva admite que "podemos correr o risco da multiplicação de conflitos regionais, de guerras regionais por procuração e de desordem internacional".