Mundo
Serviço de informações espiava deputados da Esquerda
A ministra alemã da Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, criticou hoje o seu colega Hans-Peter Friedrich, titular da pasta do Interior, na sequência de revelações sobre a espionagem exercida sobre deputados do partido Die Linke ("A Esquerda"). No parlamento, o partido visado recebe apoios doutras bancadas. E o serviço de informações, depois de vários fiascos no controlo dos grupos neo-nazis, vê-se acusado de manter uma "mentalidade do tempo da Guerra Fria".
Segundo a ministra da Justiça, do partido liberal FDP, citada no diário Süddeutsche Zeitung, "se realmente for verdade que são vigiados deputados federais de há muitos anos, incluindo a vice-presidente do Bundestag [parlamento federal] , isso é intolerável".
Tolerância para com a extrema-direita
Especialmente mordaz foi o comentário que acrescentou Leutheusser-Schnarrenberger sobre o recente fiasco do mesmo serviço secreto (Verfassungschutz) na função de controlar o terrorismo da extrema-direita: tendo em conta esse fiasco, sublinhou a ministra, o Verfassungschutz devia repensar as suas prioridades e todo o seu trabalho.
A referência dizia respeito à célula terrorista de Zwickau, que durante vários anos assassinou impunemente cerca de uma dezena de comerciantes turcos. O Verfassungschutz tinha agentes infiltrados nesse grupo, participando em actividades do mesmo, cometendo por vezes delitos do grupo, mas nada descobriu ou não quis actuar.
Os assassínios prosseguiram durante vários anos, sempre atribuídos a ajustes de contas entre organizações criminosas estrangeiras. A célula terrorista neo-nazi acabou por só ser descoberta porque, ao assaltar um banco, foi perseguida e cercada por uma patrulha policial.
Justificações pouco convincentes
O ministro do Interior, o social-cristão Hans-Peter Friedrich, respondeu às críticas da sua colega de gabinete com visível irritação, dizendo ao noiticiário da ZDF da manhã de hoje que estas eram "de certo modo ao lado". E justificou a continuação da espionagem sobre os deputados da Esquerda, argumentando que, caso fosse ordenada a suspensão desta, também seria preciso suspender a vigilância sobre deputados do NPD (extrema-direita), nos parlamentos regionais onde estes conseguiram assentos.
O dirigente de Die Linke, Klaus Ernst, imediatamente reagiu, em declarações ao diário Rheinische Post, considerando "absolutamente intolerável que um ministro do Interior em exercício compare com os deputados livremente eleitos de um partido democrático o neo-nazi NPD, cujos quadros prestam auxílio aos piores crimes de uma rede terrorista". Com estas declarações, acrescentou Ernst, Friedrich prova que "não tem as qualificações para o lugar [que ocupa]".
Hoje também registou-se a única palavra audível no parlamento para com a espionagem sobre os deputados, e veio do presidente da comissão parlamentar do Interior, o democrata-cristão Wolfgang Bosbach, que, referindo-se a Die Linke, foi ao ponto de afirmar ao Mitteldeutsche Zeitung: "Quem mantém dentro do partido uma [corrente esquerdista como a] Plataforma Comunista não deve admirar-se de que haja uma vigilância por parte do Verfassungsschutz". Mas reconheceu que "a condição de membro do partido só por si não basta [para se ser vigiado]".
Em todo o caso, o escândalo apanha o ministro do Interior fragilizado pela história, também recente, da célula neo-nazi de Zwickau. As justificações ontem emitidas por um porta-voz do Ministério, sustentando que a vigilância sobre os deputados serve a defesa da democracia, ainda acirraram mais os ânimos. Políticos de outros partidos vêm agora à liça em defesa dos deputados de Die Linke.
O vice-presidente do Bundestag, o social-democrata Wolfgang Thierse, declarou ao diário Berliner Zeitung que não vê onde políticos como Gregor Gysi ou Petra Pau, ambos vigiados pelo Verfassungsschutz, possam constituir uma ameaça à ordem constitucional. O chefe de gabinete da bancaca parlamentar dos Verdes, Volker Beck, afirmou por sua vez que a espionagem do Verfassungsschutz sobre membros do parlamento prova a necessidade de o poder legislativo criar os seus mecanismos de defesa contra a indsicrição do poder executivo.
Uma secreta que ainda vive na Guerra Fria
Por outro lado, uma análise atenta da lista de membros de Die Linke espiados pela secreta msotra, segundo o SPIEGEL ONLINE, que esta não estabeleceu prioridades segundo um critério de maior ou menor radicalidade política, e sim segundo um critério de origem geográfica.
Assim, ficaram isentos da vigilância vários membros da ala dita fundamentalista de Die Linke, ao passo que eram espiados alguns dos seus dirigentes reconhecidamente "moderados", como o chefe de bancada Gregor Gysi, as duas vice-presidentes do partido, Halina Wawzyniak e Katja Kipping, a já citada vice-presidente do parlamento, Petra Pau, a chefe de gabinete parlamentar, Dagmar Enkelmann e o vice-presidente da bancada Dietmar Barsch. Também a figura mais popular do partido, a vice-presidente Sarah Wagenknecht, foi alvo das atenções da secreta.
O que têm de comum as figuras vigiadas, salvo raríssimas excepções, é serem provenientes da antiga RDA; ao passo que os inesperadamente isentados de vigilância têm geralmente em comum o terem sido cidadãos oeste-alemães antes da queda do Muro de Berlim. Motivo suficiente para Gysi comentar que aquele "serviço continua a pensar com os esquemas da Guerra Fria".
Tolerância para com a extrema-direita
Especialmente mordaz foi o comentário que acrescentou Leutheusser-Schnarrenberger sobre o recente fiasco do mesmo serviço secreto (Verfassungschutz) na função de controlar o terrorismo da extrema-direita: tendo em conta esse fiasco, sublinhou a ministra, o Verfassungschutz devia repensar as suas prioridades e todo o seu trabalho.
A referência dizia respeito à célula terrorista de Zwickau, que durante vários anos assassinou impunemente cerca de uma dezena de comerciantes turcos. O Verfassungschutz tinha agentes infiltrados nesse grupo, participando em actividades do mesmo, cometendo por vezes delitos do grupo, mas nada descobriu ou não quis actuar.
Os assassínios prosseguiram durante vários anos, sempre atribuídos a ajustes de contas entre organizações criminosas estrangeiras. A célula terrorista neo-nazi acabou por só ser descoberta porque, ao assaltar um banco, foi perseguida e cercada por uma patrulha policial.
Justificações pouco convincentes
O ministro do Interior, o social-cristão Hans-Peter Friedrich, respondeu às críticas da sua colega de gabinete com visível irritação, dizendo ao noiticiário da ZDF da manhã de hoje que estas eram "de certo modo ao lado". E justificou a continuação da espionagem sobre os deputados da Esquerda, argumentando que, caso fosse ordenada a suspensão desta, também seria preciso suspender a vigilância sobre deputados do NPD (extrema-direita), nos parlamentos regionais onde estes conseguiram assentos.
O dirigente de Die Linke, Klaus Ernst, imediatamente reagiu, em declarações ao diário Rheinische Post, considerando "absolutamente intolerável que um ministro do Interior em exercício compare com os deputados livremente eleitos de um partido democrático o neo-nazi NPD, cujos quadros prestam auxílio aos piores crimes de uma rede terrorista". Com estas declarações, acrescentou Ernst, Friedrich prova que "não tem as qualificações para o lugar [que ocupa]".
Hoje também registou-se a única palavra audível no parlamento para com a espionagem sobre os deputados, e veio do presidente da comissão parlamentar do Interior, o democrata-cristão Wolfgang Bosbach, que, referindo-se a Die Linke, foi ao ponto de afirmar ao Mitteldeutsche Zeitung: "Quem mantém dentro do partido uma [corrente esquerdista como a] Plataforma Comunista não deve admirar-se de que haja uma vigilância por parte do Verfassungsschutz". Mas reconheceu que "a condição de membro do partido só por si não basta [para se ser vigiado]".
Em todo o caso, o escândalo apanha o ministro do Interior fragilizado pela história, também recente, da célula neo-nazi de Zwickau. As justificações ontem emitidas por um porta-voz do Ministério, sustentando que a vigilância sobre os deputados serve a defesa da democracia, ainda acirraram mais os ânimos. Políticos de outros partidos vêm agora à liça em defesa dos deputados de Die Linke.
O vice-presidente do Bundestag, o social-democrata Wolfgang Thierse, declarou ao diário Berliner Zeitung que não vê onde políticos como Gregor Gysi ou Petra Pau, ambos vigiados pelo Verfassungsschutz, possam constituir uma ameaça à ordem constitucional. O chefe de gabinete da bancaca parlamentar dos Verdes, Volker Beck, afirmou por sua vez que a espionagem do Verfassungsschutz sobre membros do parlamento prova a necessidade de o poder legislativo criar os seus mecanismos de defesa contra a indsicrição do poder executivo.
Uma secreta que ainda vive na Guerra Fria
Por outro lado, uma análise atenta da lista de membros de Die Linke espiados pela secreta msotra, segundo o SPIEGEL ONLINE, que esta não estabeleceu prioridades segundo um critério de maior ou menor radicalidade política, e sim segundo um critério de origem geográfica.
Assim, ficaram isentos da vigilância vários membros da ala dita fundamentalista de Die Linke, ao passo que eram espiados alguns dos seus dirigentes reconhecidamente "moderados", como o chefe de bancada Gregor Gysi, as duas vice-presidentes do partido, Halina Wawzyniak e Katja Kipping, a já citada vice-presidente do parlamento, Petra Pau, a chefe de gabinete parlamentar, Dagmar Enkelmann e o vice-presidente da bancada Dietmar Barsch. Também a figura mais popular do partido, a vice-presidente Sarah Wagenknecht, foi alvo das atenções da secreta.
O que têm de comum as figuras vigiadas, salvo raríssimas excepções, é serem provenientes da antiga RDA; ao passo que os inesperadamente isentados de vigilância têm geralmente em comum o terem sido cidadãos oeste-alemães antes da queda do Muro de Berlim. Motivo suficiente para Gysi comentar que aquele "serviço continua a pensar com os esquemas da Guerra Fria".