Serviços secretos britânicos nunca consideraram George Orwell comunista
Os serviços secretos britânicos, MI5, que durante mais de 20 anos mantiveram sob vigilância o escritor George Orwell, não chegaram a considerá-lo comunista, refutando assim as conclusões da Scotland Yard, segundo documentos hoje divulgados.
O MI5 pôs em questão as conclusões da Secção Especial da Scotland Yard (polícia britânica), na avaliação da qual o autor de "1984" "tinha ideias comunistas muito avançadas".
Procurando esclarecer o que se pretendia dizer com "ideias comunistas muito avançadas", um agente do MI5 foi informado de que a expressão tinha sido adoptada por um oficial da Scotland Yard que não conseguira qualificar com outras palavras o comportamento anti-conformista de Orwell.
Por entender que o escritor não representava qualquer perigo para a segurança nacioal, o MI5 não se opôs a que ele trabalhasse em 1943 como correspondente do "Sunday Observer" no quartel-general aliado no norte de África.
Num documento com data de Janeiro de 1942, constante do arquivo dos serviços secretos britânicos, a Secção especial da Scotland Yard escreveu que Orwell - nome literário de Eric Blair - tinha sido visto com frequência em reuniões comunistas.
"Veste-se de uma forma boémia, tanto no escritório como durante as horas de ócio", referia o documento.
Também em 1942, o MI5 contestou o parecer da polícia britânica, escrevendo num relatório que as "recentes obras" de Orwell mostram "claramente que ele não aprova o Partido Comunista, do mesmo modo que o Partido não o aprova a ele".
O MI5 citava, nomeadamente, o ensaio "O Leão e o licorne", um ensaio escrito em 1940 em que Orwell realça os méritos de "um socialismo inglês" democrático, oposto ao modelo soviético e que manteria no seu lugar a família real britânica.
Noutro relatório dos serviços secretos, datado de 1929, assinalava-se: "[Orwell] passa o tempo a ler jornais, entre os quais L`Humanité ( jornal do Partido comunista francês), mas até agora não o vimos misturar-se com comunistas em Paris".
Alguns anos mais tarde, em 1942, os mesmos serviços descreviam o autor de "O Triunfo dos porcos" como "alguém com algo de anarquista e que mantém contactos com elementos extremistas", mas não é nada que se pareça com "um comunista ortodoxo".