Síria. ONU sinaliza urgência em descobrir extensão total do programa de armas químicas
A alta representante da ONU para Assuntos de Desarmamento pediu hoje urgência nas investigações e novas deslocações à Síria a fim de discernir a extensão total do programa de armas químicas desenvolvido pelo regime do ex-Presidente Bashar al-Assad.
Numa reunião do Conselho de Segurança da ONU focada no arquivo de armas químicas da Síria, Izumi Nakamitsu apresentou aos Estados-membros as descobertas realizadas em maio pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que anunciou que dezenas de munições químicas não declaradas foram descobertas em território sírio.
Após visitar vários locais no início de maio, a equipa da OPAQ descobriu "números significativos" de armas químicas não declaradas, materiais relacionados e documentação -- incluindo evidências de munições químicas não declaradas anteriormente, explicou hoje a representante da ONU.
Também foram encontrados `rockets` do mesmo tipo dos utilizados no ataque com armas químicas na cidade síria de Ghouta, em agosto de 2013.
"Essas descobertas são um marco importante -- não apenas para a Síria, mas para a segurança internacional e o regime global de desarmamento", afirmou Nakamitsu, atribuindo a descoberta aos esforços incansáveis da OPAQ, ao alinhamento do novo Governo sírio com o direito internacional e à defesa contínua do Conselho de Segurança em relação a esse dossiê.
"Essa cooperação continuará a ser crucial daqui para frente, já que os elementos recém-descobertos precisam de ser declarados e destruídos, sob a verificação do Secretariado Técnico da OPAQ", acrescentou.
Izumi Nakamitsu sublinhou que, além disso, serão necessárias mais investigações e deslocamentos a outros locais da Síria, a fim de discernir o alcance total do programa de armas químicas desenvolvido pelo regime de Assad.
"Dados os riscos representados por quaisquer elementos remanescentes do programa de armas químicas, estas etapas devem ser concluídas com urgência", instou.
Na reunião de hoje, a diplomata norte-americana Tammy Bruce afirmou que a recente descoberta pela OPAQ "serve para reforçar o que todos sabem: que o regime de Assad nunca declarou completamente a extensão do seu programa de armas químicas".
Juntando-se a outros embaixadores que elogiaram o trabalho da OPAQ e acolheram favoravelmente as suas recentes conclusões, Tammy Bruce instou o novo Governo da Síria a continuar a cooperação com a OPAQ e a cumprir integralmente as suas obrigações ao abrigo da Convenção sobre Armas Químicas.
Por sua vez, Moscovo - aliado de longa data de Assad -, pediu uma análise cuidadosa das descobertas recentes.
Já o representante da Síria junto da ONU, Ibrahim Olabi, destacou o papel fundamental desempenhado por especialistas nacionais na descoberta recente de armas químicas ligadas ao antigo regime, semelhantes às utilizadas nos ataques contra civis, e avaliou que foi alcançado "um grande avanço na responsabilização".
"O que estamos a testemunhar hoje é resultado de meses de trabalho árduo", declarou o representante de Damasco.
Descrevendo a recente descoberta como um "ponto de viragem decisivo" e um "grande passo em frente para a responsabilização", Olabi indicou que a Síria facilitou 32 visitas do Secretariado Técnico da OPAQ a locais suspeitos de conter armas químicas e forneceu mais de 60.000 páginas de documentos.
As forças leais ao ex-presidente sírio Bashar al-Assad foram repetidamente acusadas de utilizar armas químicas durante os mais de 13 anos de guerra civil no país do Médio Oriente.
O conflito só terminou com a deposição de Al-Assad, em dezembro de 2024, no seguimento de uma operação militar de grupos rebeldes de inspiração extremista, atualmente no poder e que procuram normalizar as relações de Damasco com a comunidade internacional.
O destino dos `stocks` químicos da Síria continuou, porém, a ser motivo de séria preocupação, num país devastado pela guerra e que experimentou vários episódios graves de violência sectária no último ano e meio.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do novo Governo sírio comprometeu-se no ano passado a desmantelar todos os restos do programa de armas químicas de Al-Assad.