Surto de sarampo no Bangladesh matou mais de 500 crianças

Surto de sarampo no Bangladesh matou mais de 500 crianças

Pelo menos 86 crianças morreram de infeções confirmadas por sarampo no Bangladesh este ano, e outras 426 apresentaram sintomas compatíveis com a doença, disseram as autoridades de saúde, numa altura em que o país enfrenta um dos piores surtos em décadas. Entre 15 de março e 23 de maio, foram registadas mais de oito mil infeções.

Cristina Sambado - RTP /
Mohammad Ponir Hossain - Reuters

Os casos propagaram-se rapidamente nos últimos meses, sobrecarregando os hospitais e exercendo uma forte pressão sobre os serviços de saúde já frágeis, principalmente em zonas rurais e urbanas densamente povoadas e de baixos rendimentos.

O ministro da Saúde afirmou na semana passada que as férias do feriado do Eid foram canceladas para os médicos e enfermeiros que tratam doentes com o vírus e que o governo está a realizar uma campanha de vacinação em massa para conter a propagação e salvar vidas.

As autoridades de saúde identificaram 62.507 casos suspeitos de sarampo em todo o país, bem como 8.494 infeções confirmadas em laboratório entre 15 de março e 23 de maio, segundo dados da Direção-Geral dos Serviços de Saúde.
Altamente contagioso, o sarampo propaga-se rapidamente através da tosse e dos espirros e é particularmente perigoso para crianças pequenas não vacinadas com menos de 5 anos de idade. 

Existem vários relatos de pais com dificuldades em encontrar vagas para os seus filhos doentes nos hospitais do Bangladesh.

A Organização Mundial de Saúde afirmou no mês passado que a queda na cobertura da vacinação de rotina aumentou o risco de um surto em grande escala.

Desde então, o governo alargou as campanhas de vacinação de emergência contra o sarampo e a rubéola, dirigidas a crianças pequenas.

O governo afirma ainda ter mobilizado equipas de resposta rápida, reforçado a vigilância epidemiológica e aumentado a distribuição de vitamina A para reduzir as complicações.Hospitais sobrecarregados
A UNICEF revelou à BBC que, durante as visitas de campo, que os hospitais que visitaram estavam sobrecarregados. A organização afirma que a sua equipa está a ajudar a isolar e a triar as crianças que chegam aos hospitais onde estas medidas são insuficientes.

Quando os centros de saúde locais não conseguem ajudar, muitas pessoas estão a deslocar-se às cidades, na esperança de que os hospitais as possam atender.

"As pessoas pobres geralmente não procuram os hospitais públicos até ao último momento, pois têm de comprar medicamentos e fazer exames", afirmou Mushtaq Husain, antigo diretor Científico do Instituto de Epidemiologia, Controlo e Investigação de Doenças.

Se o sistema de saúde estivesse melhor equipado a nível local, acrescenta, menos pessoas necessitariam de internamento de urgência.

"Parece uma tempestade perfeita", disse Rana Flowers, diretora da UNICEF no Bangladesh, durante uma conferência de imprensa.

Flowers explicou que a agência identificou vários fatores que aumentaram o risco de infeção, incluindo focos de casos desde 2023 em áreas onde as crianças não receberam a vacinação de rotina, elevada densidade populacional em certas regiões – especialmente em Dhaka e Cox’s Bazar – e grandes deslocações populacionais durante as férias.

Mas um elemento em particular destacou-se: os atrasos nos pedidos de vacinas.

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas do mundo, mas pode ser amplamente prevenido com duas doses da vacina.

Em 2024, a governante do Bangladesh, Sheikh Hasina, fugiu do país após protestos em massa contra o seu governo. Foi nomeado um governo interino e realizaram-se eleições em fevereiro de 2026.Lacunas na vacinação
A UNICEF afirma que o governo interino decidiu alterar a forma como o Bangladesh comprava as vacinas, o que levou a atrasos nos pedidos. Flowers disse que tiveram 10 reuniões separadas com o governo interino, nas quais a UNICEF alertou para os riscos associados aos atrasos na aquisição de vacinas.

"Posso dizer que me reuni com o conselheiro interino e a sua equipa em pelo menos dez ocasiões", esclareceu. "Dizendo que estávamos preocupados, olhem para a minha cara, estou preocupada que enfrentem uma interrupção no fornecimento."

Numa publicação nas redes sociais, Sayedur Rahman, antigo assistente do chefe interino do Ministério da Saúde, afirmou que "não foram implementadas alterações no processo de aquisição de vacinas durante o mandato do governo interino".

"Foi mantida uma relação de colaboração regular e consistente com a UNICEF em relação às questões da vacinação", acrescentou.

Outros afirmam ainda que as lacunas na vacinação que surgiram durante a pandemia de covid-19 nunca foram colmatadas.

"Antes, os profissionais de saúde iam de porta em porta para convencer os pais a vacinarem os seus filhos", diz Husain. "Mas durante a pandemia, foram desencorajados a fazê-lo para evitar a transmissão. Alguns pais temiam contrair covid-19 se levassem os filhos ao hospital para receberem também a vacina."

O Bangladesh lançou uma campanha de vacinação de emergência no início de abril, com a ajuda de agências internacionais de ajuda humanitária.


A UNICEF afirma que isto ajudou os números a começarem a estabilizar em algumas áreas gravemente afetadas – que foram o foco inicial da campanha de vacinação – e que o número de novas infeções diminuiu.

A imunidade adquirida com a vacina não é imediata, pelo que, será necessário tempo para que o impacto da vacina comece a surtir efeito em todo o país.O ministro da Saúde e Bem-Estar Familiar do Bangladesh, Sardar Sakhawat Hossain, disse à BBC que espera que o número de infeções comece a cair em breve.

"São necessárias três a quatro semanas após a vacinação para que os bebés criem anticorpos. Esperamos que, se Deus quiser, na próxima semana os níveis de anticorpos diminuam."

Há também preocupação com a possível propagação durante o feriado do Eid, uma vez que as famílias viajam para visitar amigos e parentes.

"Milhares de crianças viajarão com os seus pais da cidade para o campo e do campo para a cidade", alerta Mushtaq Husain. "Haverá contacto entre crianças com febre e com o vírus."

Hossain afastou os apelos para que o Bangladesh declare o estado de emergência, afirmando que os hospitais distritais estão "preparados" e a ajudar a fornecer camas de UCI em zonas mais remotas.

"Não penso em estado de emergência", diz. "Bangladesh é capaz de lidar com a situação".

c/agências 
Tópicos
PUB