Ténis sob suspeita: jogadores do Top 50 acusados de venda de jogos a sindicatos de apostas

Ténis sob suspeita: jogadores do Top 50 acusados de venda de jogos a sindicatos de apostas

Uma equipa de investigação britânica detetou jogos combinados envolvendo tenistas do Top 50 que estão ainda em atividade e que disputarão – uma parte já se reformou - este mês o Open da Austrália. As suspeitam germinaram numa partida do então quarto jogador do mundo, o russo Nikolay Davydenko, em 2007, no obscuro torneio da cidade polaca de Sopot. A ATP - que encomendou a investigação - nada fez com as provas que lhe foram entregues e diz agora nada haver de errado.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /

Davydenko enfrentava um oponente muito abaixo no ranking, ainda que nos primeiros 50 do mundo: o argentino Martin Vassallo Arguello. O primeiro set não teve história e o russo venceu. Apesar disso, um sindicato russo de apostas estava já a apostar largas somas de dinheiro no argentino.Contactado pelos jornalistas, o advogado de Davydenko fez questão de sublinhar que o jogador foi ilibado de qualquer irregularidade.


O torneio tinha na verdade muito pouca visibilidade e não tem grande história no ténis de hoje em dia. Talvez por isso valesse a pena arriscar. O segundo set arranca com Nikolay Davydenko na frente, mas os apostadores russos continuaram a pôr o seu dinheiro no tenista argentino, desafiando todas as probabilidades.

Acontece que o jogo não chega ao fim, por desistência de Davydenko.

Entretanto, os apostadores russos tinham já milhões de dólares em Arguello. As campainhas começaram a tocar na Betfair. Quando Davydenko assinala a desistência e, face ao volume de dinheiro apostado na vitória de Martin Vassallo Arguello, o site de apostas toma uma decisão arriscada e sem precedentes: anular as apostas naquele jogo.
Caso isolado ou mais do que isso?

Raramente o mundo das raquetes é afetado por polémicas que já arrasaram deportos como o futebol ou o ciclismo. Mas o caso foi suficientemente grave para colocar uma dúvida na cabeça dos responsáveis mundiais da modalidade: pode o ténis estar sujo?No telefone de Martin Vassallo Arguello terão sido encontrados registos de um telefonema a Nikolay Davydenko e de dezenas de mensagens trocadas com um apostador da Sicília.

Sem problemas relevantes a nível das casas de apostas, foi decidido colocar em campo uma equipa constituída por peritos da British Horseracing Authority, organismo que monitoriza a actividade das corridas de cavalos na Grã-Bretanha, eventos ditos desportivos que pouco mais servem do que as plataformas de apostas.

Os investigadores contratados pela ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) estiveram em campo durante um ano, desde logo ocupando grande parte da energia ao jogo entre o russo Nikilay Davydenko e o argentino Martin Vassallo Arguello. Procuraram registos telefónicos, falararam com Davydenko e Arguello e listaram três sindicatos de apostas com uma capacidade financeira impressionante – na Rússia, na Sicília e no Norte de Itália.

Gente pouco recomendável, assinalam os investigadores, depois de contactarem os apostadores russos.

Na verdade, não se trata aqui de tostões. Entre dezenas de jogos viciados estariam em jogo milhões de euros. Os sicilianos apostaram em 12 jogos que levantaram dúvidas aos investigadores, ganhando mais de 900 mil euros; os russos apostaram em cinco encontros suspeitos, receberam mais de 300 mil euros; o grupo do norte da Itátia apostou em 28 jogos e recolheu mais de 600 mil euros.

Pelo menos três dos jogos em causa foram disputados em Wimbledon, outro em Roland Garros.
Oito anos de silêncio
No ano seguinte, 2008, um relatório foi entregue aos responsáveis da ATP. Os resultados não terão sido os esperados, pelo que durante oito anos se seguiu uma barreira de silêncio sobre o que estaria a acontecer nas zonas negras em que se interceptam o universo do ténis e o universo das apostas.

As conclusões dos investigadores britânicos colocam em causa a seriedade da elite dos jogadores. A investigação agora revelada pela BBC e pelo site de notícias BuzzFeed coloca sob suspeita jogadores que estão ainda no activo.

Os documentos que chegaram às mãos dos jornalistas graças a vários “gargantas-fundas” do mundo do ténis apontam para 28 jogadores da alta roda sobre quem caem fortes suspeitas de participação em jogos combinados.

Pelo menos 16 tenistas que na última década andaram pelo Top 50 terão sido repetidas vezes assinaladas à TIU (Tennis Integrity Unit), organismo entretanto criado (2008) para monitorizar actividades suspeitas de corrupção. Muitos deles estão ainda no activo e alguns são vencedores de provas do Grand Slam em pares.

Mark Philips “Temos um jogador a ganhar um set e, em seguida, havia uma quebra de serviço e, de súbito, era colocada uma soma impressionante de dinheiro no outro jogador que, milagrosamente ganhava oito jogos seguidos”.
Um dos investigadores que esteve a trabalhar no caso, Mark Philips, garante ter descoberto um padrão de eventos compatível com a viciação de jogos, mas todos estes dados foram metidos na gaveta pelos responsáveis que, já esta segunda-feira, vieram rejeitar as acusações lançadas no dia em que se inicia o Open da Austrália, um dos quatro torneios do Grand Slam.

Quer tenha sido por falta de provas, quer numa decisão consciente para proteger os jogadores envolvidos, a ATP decidiu não tomar qualquer decisão em consonância com a gravidade das acusações que colocam todo o mundo do ténis sob suspeita.
Tópicos
PUB