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Tiroteio no jantar dos correspondentes da Casa Branca: "Presidente enfraquecido com oportunidade de ouro para recuperar"
Três dias após a tentativa de intrusão de um homem armado no jantar dos correspondentes da Casa Branca, em Washington, é tempo de perguntas. Sobre o perfil e as motivações do suspeito em primeiro lugar. Mas à medida que as teorias da conspiração vão surgindo, impõe-se a questão: terá o Presidente americano saído mais forte deste episódio?
Para o ensaísta e politólogo Romuald Sciora, autor do livro "America 250, une histoire graphique des États-Unis", não há dúvida.
"Donald Trump era um presidente que começava a sentir-se isolado no palco político nacional. Pela primeira vez em mais de uma década, a sua base MAGA estava gradualmente a afastar-se dele, sentindo-se traída por um presidente que tinha prometido nunca arrastar o país para uma guerra como a do Iraque ou do Afeganistão. No entanto, agora, com o Irão, encontramo-nos mergulhados num conflito sem um objetivo claro. Ao mesmo tempo, a inflação está novamente a aumentar e o custo de vida está a tornar-se exorbitante para dezenas de milhões de americanos. As eleições intercalares adivinhavam-se muito difíceis. E o séquito político do Presidente - o vice-presidente JD Vance, a chefe de gabinete da Casa Branca Susie Wiles e alguns senadores influentes - começou a marginalizá-lo de forma crescente", sublinha. Uma oportunidade para recuperarDe acordo com o especialista, Donald Trump viu nesta tentativa de assassinato uma oportunidade para recuperar. "Podemos esperar nos próximos dias que as sondagens voltem a subir para o presidente, mas, acima de tudo, e é isso que lhe interessa, ver a sua base MAGA ganhar nova energia e juntar-se atrás do presidente, este 'escolhido por Deus' como alguns dizem."
E é preciso dizer que esta oportunidade foi aproveitada muito rapidamente pelo Presidente, na conferência de imprensa que se seguiu ao incidente.
E é preciso dizer que esta oportunidade foi aproveitada muito rapidamente pelo Presidente, na conferência de imprensa que se seguiu ao incidente.
"A conferência de imprensa foi excelente em termos de comunicação", afirma Romuald Sciora. "Vimos um Presidente que, talvez pela primeira vez, apareceu com a estatura presidencial de 'pai da nação'. Dirigiu-se a todos os americanos. Nenhum ataque aos democratas ou aos jornalistas. Até falou de amor nesta sala onde estavam presentes os mais altos representantes da imprensa americana, uma imprensa que ele passa o tempo a vilipendiar e sobre a qual exerce pressões diárias. Em suma, tentou assumir a estatura presidencial e conseguiu. Um presidente enfraquecido vê aqui uma oportunidade caída do céu para recuperar."Oposição às "verdades alternativas"Este novo incidente levou rapidamente a uma avalanche de teorias que atravessaram o Atlântico. "Verdades alternativas", incluindo uma manobra dos democratas ou do próprio Donald Trump.
Para Romuald Sciora, é importante lembrar que Donald Trump é o "campeão mundial em contornar verdades alternativas". Basta lembrar o exemplo do assalto ao Capitólio a 6 de janeiro de 2021 por alguns dos seus apoiantes. "Desde uma ordem executiva presidencial há alguns meses, a verdade oficial do governo federal - a que estará nos manuais escolares a partir de setembro - é que o dia 6 de janeiro de 2021 foi um golpe fomentado pelos Democratas enquanto os Republicanos se manifestavam pacificamente para tentar salvar uma eleição que lhes tinha sido roubada", salienta.
Quanto ao tiroteio deste sábado, "Donald Trump vai poder enfiar o que quiser na garganta da sua base MAGA. As eleições intercalares estão sem dúvida perdidas, mas podem não estar tão perdidas como poderiam estar sem esta última tentativa de assassinato".Um ataque sem precedentes à liberdade de expressão, que em breve será aclamado?Este incidente ocorreu numa altura em que Donald Trump tem uma relação muito conflituosa com os meios de comunicação social.
Quanto ao tiroteio deste sábado, "Donald Trump vai poder enfiar o que quiser na garganta da sua base MAGA. As eleições intercalares estão sem dúvida perdidas, mas podem não estar tão perdidas como poderiam estar sem esta última tentativa de assassinato".Um ataque sem precedentes à liberdade de expressão, que em breve será aclamado?Este incidente ocorreu numa altura em que Donald Trump tem uma relação muito conflituosa com os meios de comunicação social.
A sua presença na gala deste ano foi uma surpresa, uma vez que, ao contrário dos seus antecessores, sempre evitou este evento por considerar que a imprensa era "extraordinariamente má" para ele. Mas esta experiência partilhada é suscetível de baralhar as cartas, diz Romuald Sciora.
"A democracia americana nunca esteve tão ameaçada como no último ano", recorda. "Em termos de liberdade de imprensa, assistimos ao encerramento de meios de comunicação social públicos, a pressões sobre os meios de comunicação social privados como nunca vimos nos Estados Unidos, à expulsão de alguns apresentadores famosos após uma grande pressão da Casa Branca, a estações de televisão que são obrigadas a rever a programação, com menos inclusão...".
O politólogo - que também considera que há uma forte pressão sobre os investigadores do país - vê, por isso, uma certa ironia na presença de Donald Trump no evento de sábado. "E a ironia vai ainda mais longe, pois Donald Trump - que vilipendia os jornalistas a cada dia que passa - vai sem dúvida, quando este jantar se repetir, conseguir ser aclamado por esses mesmos jornalistas, que não terão grande escolha. Irá apresentar-se como o sobrevivente de mais uma tentativa de assassinato e terão toda a sala a aplaudir de pé este presidente cujo único objetivo é minar a liberdade de expressão e a maioria dos meios de comunicação social que ainda são livres", conclui.
"A democracia americana nunca esteve tão ameaçada como no último ano", recorda. "Em termos de liberdade de imprensa, assistimos ao encerramento de meios de comunicação social públicos, a pressões sobre os meios de comunicação social privados como nunca vimos nos Estados Unidos, à expulsão de alguns apresentadores famosos após uma grande pressão da Casa Branca, a estações de televisão que são obrigadas a rever a programação, com menos inclusão...".
O politólogo - que também considera que há uma forte pressão sobre os investigadores do país - vê, por isso, uma certa ironia na presença de Donald Trump no evento de sábado. "E a ironia vai ainda mais longe, pois Donald Trump - que vilipendia os jornalistas a cada dia que passa - vai sem dúvida, quando este jantar se repetir, conseguir ser aclamado por esses mesmos jornalistas, que não terão grande escolha. Irá apresentar-se como o sobrevivente de mais uma tentativa de assassinato e terão toda a sala a aplaudir de pé este presidente cujo único objetivo é minar a liberdade de expressão e a maioria dos meios de comunicação social que ainda são livres", conclui.
Victor de Thier / 27 april 2026 08:45 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa