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Toneladas de garrafas nas ruas, jovens que deixaram de andar: Investigação sobre os perigos do gás hilariante
As sequelas no sistema nervoso, os desastres de viação e os resíduos acumulados nas ruas de Bruxelas. Apesar do impacto na sociedade, continua a ser fácil obter óxido nitroso na capital da Bélgica.
À primeira vista, tudo parece festivo e inofensivo. Balões, cilindros coloridos, alguns com gás aromatizado... Tudo é feito para sugerir um mundo leve e festivo. Mas por detrás da euforia do óxido nitroso durante alguns segundos, as consequências a longo prazo podem ser desastrosas.
Problemas de marcha, asfixia, paralisia... em jovens de 20 anos
Visitámos o Hospital Universitário Brugmann, em Bruxelas. Na altura da nossa visita, Paul (nome fictício) tinha acabado de dar entrada no hospital com sequelas por consumo de óxido nitroso. É uma força da natureza, com cerca de 2 metros de altura, mas tem dificuldade em manter-se de pé.
"Quando cheguei aqui, era quase impossível andar sem uma muleta", diz Paul. Por vezes, penso que já dei o passo, mas na realidade não o dei". O que Paul descreve são as consequências mais comuns do consumo de balões de óxido nitroso. O gás atua sobre o sistema nervoso central e inativa certas moléculas. A mais conhecida, para já, é a vitamina B12. Esta vitamina é essencial para a mielina, que protege os nossos nervos. Sem vitamina B12, a mielina enfraquece e os nervos podem ser danificados. Isto explica os problemas de marcha e de equilíbrio de Paul.
De acordo com o diretor da clínica de reabilitação neurológica, os perigos do gás hilariante são muitas vezes ignorados pelos utilizadores. Todos os pacientes que vieram ao meu departamento ficaram perturbados", diz o médico Gazagnes. "Os balões não são nada! Fazemo-lo por diversão. Não sabíamos. E acho que isso é trágico, porque depois acabam por ficar paralisados dos dois braços e das duas pernas. Quando vêm ter comigo para a reabilitação, chegam em cadeiras de rodas. Não conseguem reter a urina. Não quero parecer melodramático, mas é a realidade".
Quando chegam a tempo, a reabilitação intensiva com os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais do departamento pode permitir-lhes recuperar 100% das suas capacidades. Relativamente a Paul, Gazagnes está confiante, embora se mantenha cauteloso: "Neste momento, ainda tem sequelas. Não posso garantir que recupere a 100%".Todos os dias, choro pelas minhas pernas.
Em alguns casos, os danos neurológicos são tão graves que as sequelas se prolongam por toda a vida.
É o caso de Nora (nome fictício): foi hospitalizada durante oito meses em 2021 mas, cinco anos depois, continua a ter dificuldades em andar. "Ando com talas e tenho sempre uma muleta comigo. Não posso sair à rua sem ter alguém comigo. Sem as talas e a muleta, Nora caminha com um passo muito pesado e hesitante. Tem 27 anos e toda uma vida pela frente, mas não voltará a andar normalmente. "Todos os dias choro pelas minhas pernas. Nem ao meu pior inimigo desejo que fique no mesmo estado que eu".
Estes problemas de locomoção são preocupantes, mas estão longe de ser os únicos efeitos negativos do óxido nitroso.
Queimaduras pelo frio, asfixia, redução da fertilidade, ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais - a lista é longa. E, à medida que a investigação prossegue, pode tornar-se ainda mais extensa.
Conseguir balões é uma brincadeira de criançasO que mais nos chamou a atenção, foi a facilidade com que o óxido nitroso pode ser obtido, apesar da proibição. Nas redes sociais, tudo é publicado sem vergonha: basta fazer uma pesquisa com as palavras "balão", "botija", e as possibilidades são inúmeras. Por 60 euros, a botija pode ser entregue rapidamente. Por 50 euros, pode ser recolhida no local.
E, quando investigámos mais um pouco, encontrámos algumas imagens que nunca pensámos encontrar tão facilmente: nas redes sociais de várias discotecas, as garrafas e os balões são claramente visíveis.
Por esse motivo, fomos tentar saber : será que vendem garrafas e balões livremente a qualquer cliente?
Nos dois estabelecimentos de Bruxelas onde fizemos o teste, não foi preciso esperar muito para que os balões aparecessem.
No primeiro, vários balões são mesmo levados para a mesa VIP ao som de música, com luzes a animar. E toda a gente parece achar normal. De tal forma, que estas garrafas iluminadas até estão em destaque numa história na conta de Instagram do estabelecimento. É claro que nem toda a gente tem medo da proibição.
No segundo local que visitámos, decidimos encomendar uma garrafa para ter uma ideia do preço. Aqui, são 100 euros por um pequeno cilindro. Duas vezes mais caro do que nas redes sociais, para um volume com um terço do tamanho. E vêem-se em quase todas as mesas. Há quem peça vários durante a nossa estadia. É o suficiente para aumentar os lucros da noite."Das piores coisas que se pode fazer ao volante"
Nos clubes noturnos, vimos alguns dos consumidores. Mas estes não são os únicos locais onde consomem. Muitos fazem-no em locais privados, com amigos... ou, muito simplesmente, na rua.
Passámos várias noites a passear por Bruxelas à procura de consumidores. E todos os que vimos com um balão na boca estavam num carro. Alguns estavam parados, outros estavam a inalar enquanto conduziam.
No entanto, o óxido nitroso pode ter um enorme impacto nas capacidades de condução. Muito simplesmente, é "uma das piores coisas que se pode fazer ao volante", explica Frederick Vinkenbosch, investigador do VIAS, o Instituto de Segurança Rodoviária. No pico, uma pessoa sob o efeito do óxido nitroso tem a mesma capacidade que se tivesse 2g de álcool por litro de sangue. Em suma, é impossível conduzir corretamente.
Atualmente, não existe nenhum teste aprovado para detetar o óxido nitroso no hálito. É provavelmente por isso que atrai os automobilistas. A menos que sejam apanhados em flagrante, por enquanto, não correm qualquer risco. Mas um estudo em que Frederick Vinkenbosch está envolvido, mostrou que isso pode mudar em breve. Conseguimos detetar o gás muito claramente no hálito dos participantes até 45 minutos ou mesmo uma hora após o consumo", explica o investigador. Já existem protótipos de detetores. Se trabalharmos arduamente, poderemos ter testes prontos a utilizar dentro de dois anos".
Esta é uma das prioridades do VIAS para o futuro. O óxido nitroso é, segundo eles, um fenómeno muito preocupante. E, se olharmos para os países vizinhos, percebemos rapidamente porquê.
Em seis meses, França registou seis acidentes mortais ligados ao consumo de balões.
Os números mais completos e preocupantes vêm dos Países Baixos. Entre 2019 e 2021, a polícia neerlandesa registou 63 acidentes mortais e 362 outros com ferimentos graves envolvendo óxido nitroso.
Na Bélgica, faltam estatísticas. "Ainda não dispomos de números exatos", admite Frederick Vinkenbosch. "Mas mesmo que se trate apenas de alguns condutores, o impacto na segurança rodoviária será significativo, porque os efeitos do óxido nitroso são tão intensos que é impossível conduzir um veículo em segurança".Não há dados exatos sobre o consumo, mas há uma pista: as garrafas na rua
Apesar dos riscos para a saúde e para a condução, muitos consumidores deixam-se tentar pelos balões. Mas quantos são exatamente? Não existem dados suficientes para avaliar a dimensão do fenómeno na Bélgica.
Mas há um sinal seguro: o número de balões abandonados nas ruas das grandes cidades.
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Até ao início da década de 2020, o óxido nitroso era consumido sob a forma de pequenos cartuchos, daqueles que se colocam nos sifões para fazer crème fraîche e que se podem comprar em qualquer loja de cozinha.
Mas, pouco a pouco, estes pequenos cartuchos, que contêm o equivalente a uma dose, ou seja, um balão, foram substituídos por cartuchos cada vez maiores.
Atualmente, os mais comuns são os "tanques": garrafas de 2 kg de óxido nitroso, que contêm o equivalente a 250 balões. Estes novos tipos de embalagens fazem agora parte da rotina diária das equipas de recolha de resíduos.
É possível num dia recolher 50 quilos, como é possível recolher 500
Em Bruxelas, acompanhámos Amaury e Ismaël, empregados da Bruxelles-Propreté, na busca por estas garrafas de metal. "Os volumes variam: às vezes há cinco garrafas no mesmo sítio, outras vezes 25... E estão por todo o lado". No camião, Ismaël acrescenta: "Podemos ter um dia com 50 quilos, ou podemos recolher 500 quilos num dia. Por veículo. E somos vários a andar por aí".
As garrafas que Amaury e Ismaël recolhem são depois levadas para a incineradora para serem esvaziadas, limpas e depois recicladas.
O trabalho é enorme: em 2025, as equipas de Bruxelas reciclaram 153 toneladas de garrafas. O equivalente a cerca de 61 mil garrafas.
Bruxelas é, proporcionalmente, a zona mais afetada do país, mas as outras regiões não ficam atrás: as autoridades intermunicipais flamengas recolheram 287 toneladas de garrafas em 2025.
Na Valónia, os números são mais difíceis de compilar, mas ascendem a, pelo menos, 45 toneladas (e certamente muito mais, uma vez que algumas empresas intermunicipais não dispõem de estatísticas sobre o assunto)
As botijas de gás explodem... e as faturas tambémE isto apenas para as que são detetadas. Porque o que mais preocupa as autoridades intermunicipais dos resíduos são as garrafas que se misturam com o lixo doméstico e que vão parar às incineradoras. Se ainda houver gás, expande-se sob o efeito dos 800 graus do forno, provocando a explosão da garrafa. Isto tem um enorme impacto no funcionamento das incineradoras: "Se uma garrafa cheia explodir, desloca-se a uma velocidade de 800 km/h e pode perfurar uma parede de betão em um metro", explica Arnaud Vandenplas, chefe de projectos e obras da Bruxelles-Energie.
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E, cada vez que o forno é encerrado, a fatura aumenta: encerrar um forno custa aos Serviços Ambientais de Bruxelas entre 150 mil a 250 mil euros. Entre a recolha das garrafas, as adaptações que tiveram de ser feitas para evitar o maior número possível de explosões e as paragens dos fornos, o óxido nitroso gerou um custo de 12 milhões de euros na região de Bruxelas.
Legislação está a evoluir
Para fazer face a este fenómeno crescente e a todos os impactos na sociedade que acabam de ser mencionados, as autoridades belgas decidiram tomar medidas em 2024. O óxido nitroso só é autorizado em três casos: na culinária, para fazer crème fraîche, na medicina, como anestésico, e na indústria automóvel. Inalado através de um balão, o óxido nitroso é considerado uma droga. Esta utilização é atualmente proibida.Mas, como vimos, esta proibição não conseguiu até à data travar o sucesso dos balões. Várias partes interessadas, incluindo a Bruxelles-Propreté e a VIAS, consideram que o decreto não é suficientemente eficaz na forma atual e apelam a alterações.
O Ministro do Interior, Bernard Quintin, recusou dar uma entrevista. Tivemos de nos contentar com uma resposta por escrito do seu porta-voz: "É evidente que temos de reforçar a nossa luta contra um fenómeno que está a ganhar dimensão, nomeadamente nos centros urbanos. Foi por isso que, na segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, o Ministro Quintin pediu formalmente à Comissão Nacional da Droga para que trabalhasse num novo plano para reforçar o nosso arsenal na luta contra os problemas relacionados com o óxido nitroso".
Mais acima, a nível europeu, as coisas também estão a mexer: em março de 2026, a Comissão anunciou que pretendia proibir a venda de grandes garrafas ao público em toda a União Europeia a partir de 1 de fevereiro de 2027.
Até à data, os produtores aproveitaram a disparidade de legislações entre os diferentes Estados-membros. Será isto suficiente para travar o fenómeno e os efeitos na sociedade? Há poucas certezas.
Arthur Lejeune / 13 maio 2026 05:00 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa