"Triste por abandonar o melhor emprego do mundo". Boris Johnson anuncia demissão

"Triste por abandonar o melhor emprego do mundo". Boris Johnson anuncia demissão

Boris Johnson confirmou ao início da tarde desta quinta-feira que vai abandonar o cargo de primeiro-ministro britânico. Condenando o que descreveu como um "instinto de manada" muito forte, o responsável afirmou que tenciona sair de cena quando o Partido Conservador designar um novo líder.

Andreia Martins, Carlos Santos Neves - RTP /
Neil Hall - EPA

"Concordei que o processo de escolha de um novo líder [do Partido Conservador] deve começar de imediato", disse Johnson à porta do número 10 de Downing Street, a residência e gabinete oficial do primeiro-ministro.


"É claramente agora a vontade do grupo parlamentar conservador que haja um novo líder do partido e, portanto, um novo primeiro-ministro", anunciou.

O primeiro-ministro demissionário adiantou que o processo de eleição do novo líder do Partido Conservador já está em curso e o calendário do escrutínio interno vai ser anunciado na próxima semana.

Boris Johnson indicou ainda que nomeou esta quinta-feira um novo Governo que irá estar em funções até à eleição de um novo líder. O líder britânico afastou o cenário de novas eleições gerais, lembrando os resultados do Partido Conservador na votação de 2019.

No discurso de demissão, Johnson lembrou os "feitos" alcançados pelo seu Governo, nomeadamente a resolução do Brexit, o combate à pandemia e a resposta do Reino Unido à guerra na Ucrânia.
Boris Johnson considera que o Reino Unido deve continuar a "nivelar por cima" e que dessa forma poderá ser "o país mais próspero" da Europa.

Sem pedir desculpa pelos escândalos e polémicas que levaram à demissão, Johnson revela que tentou convencer os colegas, ao longo dos últimos dias, de que seria "excêntrico" mudar de Governo perante os "bons resultados" dos últimos três anos, mas também perante um cenário económico difícil.

"Lamento não ter tido sucesso em convencer os meus colegas", vincou. Mas "o instinto de manada é muito poderoso, quando a manada se mexe todos se mexem", disse o primeiro-ministro em referência às dezenas de demissões dos últimos dias.

"Na política ninguém é indispensável para sempre", reconheceu Boris Johnson. "Estou muito triste por abandonar o melhor emprego do mundo, mas é assim que as coisas são, completou.

Por fim, Boris Johnson agradeceu ao povo britânico "o privilégio de ser primeiro-ministro".

"Ser primeiro-ministro é uma educação em si mesma - viajei por todo o Reino Unido e descobri muitas pessoas que têm uma originalidade britânica sem limites, tão dispostas a enfrentar os velhos problemas de novas formas", elogiou.

"Mesmo que as coisas por vezes pareçam sombrias neste momento, o nosso futuro juntos será dourado", afirmou no final da declaração ao país.
Quem será o próximo líder dos tories?
Boris Johnson chegou ao cargo de primeiro-ministro em 2019 após a demissão da antecessora, a líder conservadora Theresa May. Três anos depois, o Partido Conservador inicia uma nova eleição interna que poderá estender-se por vários meses.

Na sequência da demissão, a ainda chefe da diplomacia britânica, Liz Truss, apelou à "calma e unidade" dentro do partido, mas o combate pela liderança dos conservadores já está em curso. De acordo com uma sondagem do YouGov divulgada esta quinta-feira, o ministro da Defesa, Ben Wallace, é o favorito entre os membros do Partido Conservador para a liderança.


Outros nomes apontados são o da ex-ministra júnior para o Comércio, Penny Mordaunt, e o ex-ministro das Finanças, Rishi Sunak. Em quarto lugar surge Liz Truss, ministra dos Negócios Estrangeiros, seguida de Michael Gove, o ministro da Habitação e Comunidades que foi despedido na quarta-feira por Boris Johnson.

O processo de eleição de um novo dirigente deverá depender do número de candidatos que se apresentarem ao escrutínio. Por exemplo, Theresa May assumiu a liderança menos de três semanas depois de David Cameron ter renunciado ao cargo em 2016, uma vez que todos os adversários desistiram a meio da corrida. 

Por sua vez, Boris Johnson assumiu funções dois meses depois de Theresa May ter anunciado a intenção de renunciar ao cargo. Na altura, o atual chefe dos conservadores enfrentou o ex-ministro da Saúde, Jeremy Hunt, na corrida à liderança. 
O processo de eleição e a eventual moção dos trabalhistas
Segundo o regulamento dos tories, cada candidato à liderança deve ser apoiado pelo menos por oito parlamentares conservadores para ser considerado. De seguida, os deputados votam: os candidatos que receberem um apoio inferior a 18 votos são eliminados.

Na ronda seguinte, os candidatos que receberem menos de 36 votos dos parlamentares são eliminados. O processo prossegue até que apenas dois candidatos continuem na corrida. Segue-se depois o voto por correspondência, que designa o novo líder do partido e, por conseguinte, o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.

Em eleições internas do passado, as votações decorriam às terças-feiras e quintas-feiras. No entanto, com a aproximação das férias parlamentares (durante seis semanas a partir de 21 de julho), o partido poderá acelerar o processo para não ter de esperar por setembro.

Sabe-se para já que Boris Johnson pretende ficar no poder até que haja um novo líder dos conservadores. No entanto, são várias as vozes que se opõem à sua manutenção no cargo e que consideram que o primeiro-ministro deve sair de imediato. 

Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista, anunciou que irá apresentar uma moção de confiança no Parlamento caso os conservadores não afastem Boris Johnson de imediato.


"Boris Johnson não está apto para governar e deve ir embora já. Não pode continuar agarrado ao poder por mais e mais meses. Se o Partido Conservador não se livrar dele, o Partido Trabalhista irá agir em nome do interesse nacional e irá desencadear uma moção de censura" afirmou o líder da oposição.

Em caso de aprovação, a moção de censura irá desencadear uma nova eleição geral.
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